português / english
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O Impacto Oculto da “Elite Global” : Entre O Colapso e a Regeneração — versão expandida / The Hidden Impact of the “Global Elite” : Between Collapse and Regeneration — expanded edition, Ilda Teresa de Castro
(ano XII . no XV . 2025)
O novo normal da pós-verdade / The new normal of post-truth, Luis Balula
(ensaio / essay – no. IX . 2017)
A Normalização do Impensável / Normalising the Unthinkable
(26.03.2015)
Declaração de Cambridge sobre a Consciência / The Cambridge Declaration on Consciousness
(07.07.2012)
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O Impacto Oculto da “Elite Global” : Entre O Colapso e a Regeneração — versão expandida
por Ilda Teresa de Castro
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Este artigo foi originalmente publicado em 14 de março de 2025, na interact – Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia, com o título “Entre o Colapso e a Regeneração: O Impacto Oculto da Elite Global”, propondo uma leitura crítica do papel geopolítico e económico das elites e das suas estratégias ocultas perante o colapso ambiental. Contudo, a sucessão de acontecimentos internacionais desde então — nomeadamente a aprovação do One Big Beautiful Bill nos EUA, o desmantelamento de políticas climáticas globais e o agravamento das condições ecológicas à escala planetária — justifica a sua atualização e republicação na Animalia Vegetalia Mineralia. Esta nova versão expandida, aprofunda e actualiza a análise original, incorporando novos dados, actores e consequências que tornam ainda mais urgente a reflexão sobre a crise ambiental, a desigualdade sistémica, o futuro da vida no planeta e o impacto oculto da “elite global” na crise civilizacional em curso.
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Avant-propos
Neste artigo, uso o termo “elite global” não no sentido de quem há de melhor ou mais admirável numa sociedade, mas para designar uma minoria social extremamente rica, com poder e influência desproporcionais, cujas ações e decisões são frequentemente guiadas pela ganância, pela ausência de ética e pela indiferença perante a vida e o planeta.
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As grandes catástrofes civilizacionais podem ser momentos de revelação. O impacto da pandemia covid19 (2020-2022) revelou uma possibilidade até então considerada utópica: a suspensão do paradigma da produção incessante e do consumo predatório, com a desaceleração da máquina industrial e a consequente regeneração temporária dos ecossistemas. Em poucas semanas, os níveis de poluição atmosférica caíram drasticamente, permitindo que os céus sobre a China e a Europa voltassem a ser visivelmente límpidos. A fauna marinha ressurgiu em áreas há muito degradadas, enquanto o ruído urbano deu lugar a um silêncio primordial onde o canto dos pássaros se tornava novamente audível. A Terra respirava.
Como se tivéssemos entrado num vórtice de espaço-tempo, a paralisação global então instaurada, legou-nos o vislumbre do que poderia ser um mundo sustentável.
Mas a lógica do sistema impôs-se rapidamente e não houve força para suster as revelações essenciais do momento. Num mundo onde se está imerso numa estrutura que nos escapa, vivemos cada vez mais numa lógica de consumo e ocupação do tempo que transcende a nossa capacidade de decisão, e a hegemonia do negócio molda não apenas a economia, mas também a nossa perceção do que é possível mudar [i]. Ainda assim, há momentos de ruptura que nos forçam a questionar essa estrutura — como o vislumbre de um mundo sustentável que o confinamento nos proporcionou.
No entanto, a retoma económica desprezou essa experiência.
O “retorno à normalidade” rapidamente se revelou um eufemismo para um retrocesso ambiental brutal. As emissões de CO2 atingiram um recorde histórico em 2023, superando os níveis pré-pandemia (Agência Internacional de Energia). A suspensão das cadeias de abastecimento global deveria ter sido uma oportunidade para reavaliar a dependência estrutural dos combustíveis fósseis. Em vez disso, a resposta política e económica foi a de um crescimento compensatório, reactivando os mesmos sistemas extractivistas e destrutivos, e negligenciando oportunidades de transição para energias renováveis. A guerra e a geopolítica aceleraram a destruição. Os números são alarmantes. Em apenas três anos, as emissões de CO2 atingiram recordes históricos: na Ucrânia, mais de 230 milhões de toneladas e em Gaza, cerca de 281 mil toneladas em apenas dois meses, valor que supera a pegada anual de 20 países (UN environment programme, Emirates Center for Strategic Studies and Research, The Guardian). O planeta arde. O ano mais quente já registado foi 2024, com uma temperatura média global de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais (World Meteorological Organization), e janeiro de 2025 bateu um novo recorde com 1,75°C acima da média pré-industrial (Copernicus Climate Change Service) quando o valor limite para evitar impactos climáticos extremos e irreversíveis é 1,5°C (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).
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Entretanto, entre junho e agosto de 2025, a Europa registou episódios sucessivos de calor extremo, com vários recordes históricos. No final de Junho, El Granado, em Huelva (Espanha), atingiu 46,0 °C — a temperatura mais alta alguma vez registada no país para este mês, superando os 45,2 °C de Sevilha em 1965 — e, em Portugal, a vila de Mora marcou 46,6 °C, um novo máximo nacional para junho. Segundo o Copernicus Climate Change Service, Junho foi o mais quente de sempre na Europa Ocidental, com 2,81 °C acima da média 1991–2020 (Copernicus). Julho manteve a tendência, tornando-se o terceiro mais quente já registado globalmente, e a Turquia bateu o seu recorde nacional com 50,5 °C (Reuters). Em Agosto, uma vaga de calor sem precedentes atingiu os países nórdicos, com temperaturas acima de 30 °C durante mais de vinte dias consecutivos, incluindo regiões acima do Círculo Polar Árctico (France24). Ainda em Agosto de 2025, uma vaga de incêndios de dimensões trágicas assola a Europa. Estes registos comprovam que a crise climática deixou de se manifestar em subtis oscilações e passou a impor-se através de extremos meteorológicos frequentes e de intensidade crescente.
Os sinais são inequívocos: assistimos ao colapso iminente de ecossistemas críticos na Amazónia e no Árctico, enquanto incêndios, enchentes, tsunamis, terramotos e ondas de calor se intensificam. Estamos em queda livre rumo à devastação.
Num voo picado em direcção ao abismo mais negro, nas primeiras semanas de 2025, o retorno do governo Trump nos EUA, implementou políticas ambientais devastadoras — como a Revogação da Lei de Proteção de Áreas Húmidas, permitindo a exploração ilimitada de biomas essenciais; a Expansão da Extração de Petróleo no Alasca e no Golfo do México, revertendo restrições impostas anteriormente; e a Retirada de compromissos climáticos internacionais, descredibilizando o Acordo de Paris e boicotando negociações da COP30 — permitindo a exploração ilimitada de biomas essenciais ao reverter restrições impostas anteriormente; e ridicularizando e boicotando compromissos climáticos internacionais, enquanto manifesta intenções colonialistas sobre o Canadá, a faixa de Gaza, a Gronelândia e o Golfo do México.
A maioria das espécies está a ser empurrada para um ponto sem retorno, por um poder capitalo-techno-totalitário, uma recente combinação de capitalismo extremo com tecnocracia e totalitarismo. O mesmo poder que projecta uma sobrevivência humana multi-planetária tendencialmente marciana, para gente (de) “com-fi(n)ança” muito elevada. O território de influência dos tais 1% que detêm mais riqueza do que 95% da população ( World’s top 1% own more wealth than 95% of humanity”, Oxfam) e que é indiferente ao destino do resto da humanidade e das espécies mais-que-humanas.
Com efeito, o actual governo de Trump, apenas um mês depois de tomar posse, fez cortes no financiamento de pesquisas climáticas da NASA e redirecionou as verbas para a exploração espacial; proclama querer colonizar Marte antes da China, e incentiva investimentos privados nesse sentido. A participação do bilionário de extrema-direita Elon Musk, defensor da expansão multiplanetária e do transumanismo, a par de corporações poderosas e de países ricos, suscita preocupações éticas e ambientais sobre como esse novo colonialismo será conduzido [ii].
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Nos últimos meses, os planos da elite para a colonização marciana ganharam contornos mais concretos e perigosamente ambiciosos. Elon Musk, dias depois de abandonar a administração Trump, em finais de maio de 2025, anunciou o lançamento de uma missão não tripulada a Marte já em 2026, pretendendo abrir caminho para a criação de uma colónia auto-suficiente no planeta vermelho (Reuters). A SpaceX pretende construir uma frota de 500 naves Starship até 2033, tornando o transporte interplanetário massificado uma realidade logística e comercial. Para isso, transformou a vila de Boca Chica, no Texas, na chamada Starbase City, um enclave industrial privado que servirá de plataforma para os seus testes (News). Paralelamente, outros bilionários, como Jared Isaacman, disputam protagonismo no processo, propondo-se como futuros líderes da NASA com foco em Marte (AP). O turismo espacial de luxo avança em paralelo, com experiências suborbitais a preços de exclusividade obscena, como o programa SpaceVIP liderado por Mr Intergalactic, que promove viagens a partir de 495 mil dólares por passageiro (The U.S. Sun). Para sustentar esta engenharia de evasão planetária, o orçamento federal dos EUA para 2026, prevê já mais de mil milhões de dólares destinados ao sector privado, através do programa Commercial Mars Payload Services, que inclui o desenvolvimento de tecnologias de colonização, veículos de aterragem e sistemas de comunicação interplanetários (Phys.Org).
Simultaneamente, após aprovação no Senado norte-americano a 1 de Julho de 2025, por margem mínima (51‑50), do polémico One Big, Beautiful Bill de Trump — pacote legislativo marcado por despesa massiva, militarização e desmantelamento de programas sociais e ecológicos — Musk, que foi o maior financiador da campanha republicana de 2024, anunciou a criação de um novo partido político, o America Party (Time). O OBBBA consolida cortes fiscais e elimina progressivamente os créditos aos veículos elétricos e à energia solar e eólica — medidas que, segundo The Atlantic, poderão elevar em 50 % os custos dos projetos renováveis, conduzindo os EUA a uma das crises de acessibilidade energética mais graves desde a crise petrolífera dos anos 70 (The Atlantic, Barron´s), enquanto canaliza verbas gigantescas para segurança fronteiriça, drones, IA militar e construção de muralhas (New York Post).
O que antes era mera especulação distópica está agora em curso, patrocinado por fortunas privadas, interesses corporativos e governos coniventes, tirando Marte do domínio da metáfora — numa espécie de plano B simultâneo ao declínio dos ecossistemas da Terra.
Os temores de que o contexto neo-colonialista da exploração de Marte, tenda a replicar padrões históricos do colonialismo terrestre [iii], parecem cada vez mais justificados. O neo-colonialismo espacial em curso, aponta para um sério risco de apropriação e domínio do espaço com benefício apenas para alguns, apesar do Tratado do Espaço Exterior de 1967, assinado por 100 países, proibir qualquer nação de reivindicar soberania sobre corpos celestes como Marte. Podemos interrogar se o neo-colonialismo marciano pretende ser a continuação do pós-colonialismo terrestre, e que objectivos se pretende alcançar. Perante as dificuldades cientificamente reconhecidas que a atmosfera de Marte coloca à sobrevivência da vida humana, apenas a existência de robots se consegue compaginar facilmente nesse território, e o sonho de estabelecimento de uma vida elegante e faustosa para elites não é exequível num futuro próximo. Apesar destas evidências, o grandioso investimento e dispêndio de recursos e de sustentabilidade terrestre prossegue, como se de uma caprichosa teimosia de rapazinhos mimados se tratasse. Os beneficios e objectivos efectivos almejados por esta elite de bilionários permanece na penumbra, fora da órbita da hubris humanóide de registar grandes feitos históricos.
No entanto, a hipótese de segregação interplanetária, onde apenas algumas elites acedem a passar a fronteira marciana, lembra muitos filmes de ficção científica que passaram nas últimas décadas nos nossos ecrãs. Na verdade, o nosso imaginário está povoado destes futuros espaciais distópicos, situados no colapso da sustentabilidade ecológica dos habitats terrestres originais. Quem não se recorda de Blade Runner, de Ridley Scott (1982), Total Recall, de Paul Verhoeven (1990), Elysium, de Neil Blomkamap (2013) ou Interstellar, de Christopher Nolan (2014)? Embora, na literatura, desde 1909, E. M. Forster com Machine Stops, tenha iniciado esta previsão futurista de segregação social, dependência tecnológica e colapso de civilizações tecnologicamente avançadas, é com The Moon is a Harsh Mistress, publicado em 1966, por Robert A. Heinlein, e seguido de perto por Do Androids Dream of Electric Sheep, de Philip K. Dick, em 1968 — adaptado por Ridley Scott, em Blade Runner (1982) — que a ideia de colonização espacial para elites com o abandono dos pobres em situações de sobrevivência degradante, passa a ser uma narrativa de referência na ficção científica. Supostamente, apenas como entretenimento.
Ora, o que se tomava como mero entretenimento ficcionado, tornou-se de repente prioridade promovida por um dos governos mais poderosos do planeta Terra, em articulação com as maiores fortunas deste mesmo mundo — mundo que no mesmo tempo histórico se apresenta ética e moralmente esventrado por actos inomináveis perpetrados no Médio Oriente, com a violação ostensiva do direito internacional, e testemunhados diariamente por audiências em todo o mundo através dos media, sem solução à vista, mau grado a indignação quase global. O panorama não poderia ser mais sinistro.
Somado a tudo isto, uma transversal e cada vez mais global alienação da maior parte da população mundial, mergulhada nos domínios tecnológicos e nas “realidades alternativas” das redes sociais e congéneres, onde a verdade é relativa, contribui para um cenário propiciador de distopias inquietantes — em fevereiro de 2025, havia 5,56 mil milhões de utilizadores de Internet em todo o mundo, o que correspondia a 67,9 % da população global e desse total, 5,24 mil milhões, ou 63,9 % da população mundial, eram utilizadores de redes sociais (Statista). Essas redes, dispositivos de sociabilidade e entretenimento que deveriam promover a informação, a educação e o conhecimento, têm sido manifestamente direccionadas numa lógica de apropriação de dados pessoais e exploração do tempo, para incrementar o lucro de gigantes das finanças tecno-capitalistas. Pior ainda, para conspirar a favor de governos totalitários. Está comprovado o papel desempenhado pelos algoritmos no controle de narrativas políticas, moldando o comportamento dos eleitores através de fake news e da manipulação de emoções (Harari, 2024). As redes sociais têm acelerado a transição da humanidade para um estádio de “pós-verdade”, onde a percepção importa mais do que a realidade. São frequentemente usadas como armas políticas, por interesses contrários à sustentabilidade planetária e à preservação das espécies, como ocorre no governo de Trump, tanto no seu uso quanto nos seus objectivos — ver abaixo nesta página, o artigo O novo normal da pós-verdade, de Luis Balula (2017).
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A título de curiosidade, a pandemia criou pelo menos 40 novos milionários na indústria farmacêutica e embora não exista um número exacto publicado, desde o início da guerra na Ucrânia e em Gaza, o boom da indústria do armamento produziu centenas de novos milionários entre executivos, accionistas e investidores da defesa, com particular incidência em empresas dos EUA. Megamovimentações financeiras mostram que estas guerras estão a ser convertidas em lucros colossais de uns poucos, alimentando uma nova burguesia armamentista que prospera com a instabilidade global e totalmente alheia também aos impactos ecológicos que desencadeia.
Se em 2018-19, na época das manifestações estudantis desencadeadas pelo movimento Greta Thunberg se vislumbrava uma possibilidade de mudança global no sentido de evitar um colapso ambiental, agora, num volte-face de 180º, caminhamos a passos largos para um ponto de não retorno, apesar das evidências comprovadas durante a pandemia.
No cenário actual, as grandes corporações e os ultra-ricos (The Economic Times) utilizam vastos recursos para moldar as regras globais a seu favor e planeiam continuar a enriquecer à custa da destruição das condições de vida na Terra, enquanto parecem querer garantir um lugar para as suas descendências em solo marciano num futuro longínquo e em guetos de luxo terrestres num futuro imediato. Nesta via, o aquecimento continuará a aumentar tornando grandes partes do planeta inabitáveis, extinguindo milhares de espécies, deslocando biliões de refugiados climáticos e acelerando mudanças irreversíveis. A elite global ocupará zonas climáticas seguras e cidades muradas. Entre o colapso total com a colonização espacial e a regeneração sustentável, há um terceiro caminho já em construção: o Business as Usual, onde a degradação ambiental e social avança sem grandes mudanças estruturais. Neste cenário, não há fuga interplanetária, apenas uma adaptação desigual à crise. O aquecimento global ultrapassará os 2°C antes de 2050, tornando irreversível o colapso de ecossistemas e sociedades. Enquanto isso, megacorporações continuarão a expandir-se, beneficiando da falta de regulamentação ambiental num mundo cada vez mais desigual e hostil. Comunidades de ultra-ricos viverão isoladas do caos climático e social, em zonas exclusivas e fortificadas, à imagem dos “bunkers de luxo” e das cidades inteligentes que já existem e a que só os mais privilegiados têm acesso. Zonas exclusivas e fortificadas, como os “bunkers de luxo” nos EUA, Nova Zelândia e Europa ou em cidades climatizadas e inteligentes altamente seguras, projectos semelhantes ao NEOM na Arábia Saudita. Com purificação de água e de ar, enquanto o resto da população sofre com poluição extrema; agricultura vertical e alimentação laboratorial, enquanto a fome alastra; energia renovável e casas climatizadas, enquanto o mundo enfrenta apagões, desertificação e desastres naturais. Acesso a cuidados médicos, biotecnologia e terapias de longevidade, enquanto milhões morrem sem assistência. Tudo isto protegido por exércitos privados enquanto os conflitos emergem devido à escassez de recurso. Este cenário miserabilista está em construção. Por muito abjecto que seja, ele existe na conjuntura actual como possibilidade.
Nesta visão distópica, se no fim desses tempos, por fim, a Terra sobreviver com alguns vírus, bactérias, répteis e insectos, até que eventualmente alguns milhares de anos depois, outras espécies menos letais do que a humana possam existir, a probabilidade de o colapso se repetir em Marte num futuro pós-colonial humanóide, é enorme. Um cenário que já em 1801, nos seus piores pesadelos Humboldt tinha temido, antevendo um futuro sombrio em que os humanos em expansão espacial, espalhariam as suas piores características por outros planetas, deixando-os estéreis e devastados, tal como observava estarem então já a fazer na Terra.
O caminho que aparece como menos provável mas o único que permite salvaguardar a vida como a conhecemos, implica uma transição acelerada para práticas sustentáveis — com adopção global de energias renováveis, acordos multi-laterais para aplicação de regulamentações rigorosas — exatamente o oposto do aprovado pelo OBBBA com o fim dos incentivos à energia limpa —, e participação activa da sociedade civil para fiscalizar os governos. É crucial ainda, a justa tributação sobre mega-corporações e sobre os 10% mais ricos da população — conforme recomendado pela Oxfam — para gerar os recursos necessários à transição verde e à redução substancial da pobreza. Pelo contrário, OBBBA corta drasticamente nos programas sociais afectando milhões de norte-americanos em situação vulnerável (Daily Beast, Vox), e reduz os impostos para megacorporações, empresas e grandes fortunas (Time).
Embora pouco se fale no assunto, estudos recentes priorizam a imperiosa necessidade de forte acção sobre as práticas abusivas de quem detém as maiores fortunas. Tomando como exemplo o caso dos EUA, está provado que a divida da tributação dos impostos dessa elite, representa um valor superior ao que é necessário para erradicar a pobreza no país: por ano, perdem cerca de 1 bilião em fraude e evasão fiscal, e o necessário para erradicar a pobreza seriam 177 mil milhões de dólares. Certamente a grandeza de valores será igualmente muito significativa no resto do mundo. Em termos de benefícios governamentais os mais ricos estão, inclusive, a receber cerca de quarenta por cento mais, do que os mais pobres (Desmond, 2023). Nada disto faz sentido. É imprescindível impor seriedade na justiça económica mundial.
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riqueza escondida em paraísos fiscais atinge valores absolutos recorde (Tax Justice Network)
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Se os mais ricos pagarem os impostos que lhes são devidos, se abandonarmos o novo colonialismo espacial insustentável e altamente poluente na Terra e no espaço, se for valorizado o trabalho da mesma forma que se valoriza o capital, e se assumirmos medidas sérias na preservação da sustentabilidade terrestre, com envolvimento civil e nova legislação, há esperança. Será possível a recuperação de ecossistemas terrestres em falência, um mundo movido por energia limpa, cidades inteligentes auto-sustentáveis e a erradicação da pobreza, que é um factor-chave na ascensão de movimentos extremistas e de governos totalitários e populistas, letais para o pensamento ecológico e preservação da vida multi-espécies no planeta em que vivemos.
Precisamos de mudar as práticas e hábitos antigos comprovadamente letais para a sustentabilidade. E é essencial romper com a lógica do medo, da resignação e da alienação que muitas vezes nos mantém paralisados. A mudança nunca virá apenas de cima — tem de ser construída também de baixo para cima. Precisamos de agir localmente, mas com um olhar global; usar o conhecimento como ferramenta de resistência contra a desinformação, mas também como um motor de consciência crítica e mobilização colectiva; desafiar a ideia de que progresso significa crescimento económico ilimitado. No fundo, a luta não é apenas pela sobrevivência do planeta mas também pela redefinição do que significa viver nele. Sobretudo em tempos tão dramaticamente radicalizados no que isso significa de pior.
Nas últimas semanas e dias, face ao retrocesso climático imposto pelo OBBBA, vários países e blocos reforçaram medidas ecológicas com acções substantivas. A Dinamarca que assume a presidência rotativa de seis meses da UE em julho, vai liderar as negociações sobre um novo objectivo que visa reduzir até 2040, as emissões da UE em 90% em relação aos níveis de 1990 (Reuters), embora inclua a opção de 3% de compensações por créditos de carbono (The Guardian). A China terá manifestado ao governo brasileiro intenções de investir no fundo global Tropical Forests Forever Facility, que financia a conservação de florestas ameaçadas (Reuters). Mesmo nos EUA surgem alertas para os riscos financeiros da suspensão de investimentos em energia limpa já em curso. Em Nova Iorque, a surpreendente vitória do socialista Zohran Mamdani nas primárias democratas à presidência da câmara reforça o sinal político de uma nova vaga ecológica e redistributiva mesmo dentro dos EUA. Uma concertação entre ecologia, finanças e diplomacia tem assinalado e reagido contra o retrocesso norte-americano.
É fundamental re-situarmo-nos a meio de tamanhas convulsões e orientarmos o foco para o essencial. Regresso a 2020 e ao que escrevi então, em “O Que É Preciso Mudar Para Continuarmos Vivos” (Animalia Vegetalia Mineralia), cujas palavras ressoam agora ainda com maior premência:
“É necessário desacelerar a economia, a produção e o consumo. É necessário produzir local e consumir local. Reduzir a exploração das matérias-primas e recursos terrestres. Reduzir o consumo de energia. Reduzir o investimento em tecnologias e altas tecnologias cada vez mais dependentes de energia. Reduzir os aeroportos, as auto-estradas, as viagens. Suspender novos consumos, novas modas, novos gadgets, novos gastos. Substituir o automóvel pela bicicleta e pela marcha. Substituir o avião pelo comboio. Reutilizar. É preciso regressar ao básico e ao essencial. Inventar soluções, mecanismos, objectos e estruturas com gasto energético zero. Regressar à terra, ao cultivo e consumo de alimentos locais. Regressar a modos de vida sustentáveis. Ensinar nas escolas como é que isso se faz realmente, ao invés de esboços fantasistas. Ensinar também fora das escolas como é que isso se faz porque nunca aprendemos ou já esquecemos. É preciso pensar local para pensar global e vice-versa. É necessário aliar a ciência e a tecnologia, e a arte e a cultura, no ajustamento das mecânicas adequadas às necessidades reais com base em esforços concretos na resolução dos problemas. É necessário mudar a Economia. É necessário mudar a nossa zona de conforto. É necessário seriedade, responsabilidade e honestidade com a situação que enfrentamos. Criar novas regras de comportamento são. E passar da teoria à prática.”
A pandemia demonstrou transversalmente que um outro mundo é possível. Se aguardávamos por um momento de revelação, o confinamento serviu de laboratório para a solução. Vivemos agora um segundo momento de charneira — no sentido oposto e pelos piores motivos. Sentimo-nos a avançar a passos largos para o colapso. O colapso deixou de ser uma ameaça distante, e passou a ser cada vez mais o nosso presente. Um presente assombrado por retrocessos civilizacionais até há pouco tempo inimagináveis. Mas a escolha é simples: agir em vez de assistir ao fim. Essa acção está também em curso e somos imprescindíveis. É imperativo salvar as formas de vida terrestres que ainda subsistem e os ambientes físicos e químicos que sustentam a vida — animais, plantas, microrganismos, oceanos, florestas, desertos, atmosfera… a Biosfera [iv]. É tempo de nos salvarmos enquanto espécie, salvando em simultâneo muitas outras.
Uma parte significativa de nós age nesse sentido. Amamos este planeta e a experiência de o habitar conscientemente, com ética e empatia. Amamos as outras formas de vida e o que as sustenta. Amamos os pássaros, as árvores, as nuvens — e a dignidade de sermos seres conscientes, capazes de elevar a vida acima da crueldade, da indiferença e da destruição.
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foto Ahmed Jihad Al-Arini
Por último, é impossível não nomear a revoltante e abjecta situação a que assistimos em Gaza, com a fome a ser utilizada como arma de extermínio contra o povo palestiniano — incluindo crianças, bebés e recém-nascidos — num cenário que remete para os períodos mais sombrios da história da humanidade. A palavra que se quer evitar pronunciar “genocídio” e os métodos desumanos usados, trazem à memória o holocausto nazi, que é sem qualquer pudor proclamado como exemplo a aplicar em Gaza por alguns membros do parlamento israelita. É o caso de Moshe Feiglin, entre outros, que o apregoou em junho de 2024 (Aljaazera) e um ano depois em maio de 2025 (News.com.au).
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Também na impunidade deste governo israelita, cujo presidente está desde novembro de 2024 sob um mandado de captura por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, emitido pelo Tribunal Penal Internacional, mas contudo, continua a governar, está presente o envolvimento de bilionários, sobretudo dos EUA, com o Estado de Israel. Estes laços incluem financiamento político, tecnológico e militar, bem como a normalização mediática de crimes de guerra em nome de interesses geo-estratégicos e económicos. Tal como na catástrofe climática, também aqui vemos a elite global a sustentar um modelo de violência que quebra todas as regras do direito internacional, viola toda a dignidade colectiva, desresponsabiliza e desumaniza numa escala sem precedentes. O silêncio cúmplice também dos governos europeus, cuja inércia diplomática e omissão activa envergonham a História da Europa e o seu propósito, é também um sinal de submissão a esse domínio. Gaza é um espelho da nossa falência moral enquanto civilização — e do modo como o poder absoluto, quando aliado ao capital extremo, promove a aceitação do inaceitável. O caso de Gaza está a violar o direito internacional da forma mais horrenda, à vista de todos, sem consequências — porque é sustentado por grupos economicamente poderosos.
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[i] Castro, Ilda Teresa de. «Alienação Civilizacional, Arte e Melancolia», 2011.
[ii] A White House declarou no início de fevereiro que Elon Musk foi nomeado Special Government Employee, permitindo-lhe actuar como conselheiro especial de Trump, sem integrar oficialmente o gabinete presidencial. Tornou-se consultor e líder no Department of Government Efficiency (DOGE), orgão criado especificamente para a sua acção, com influencia directa no corte a políticas ambientais, e o investimento na militarização do espaço e na colonização de Marte.
[iii] Eski, Y. (2023); Garasic, M.D. & Di Paola, M. (2024).; Munro, I.; Boussebaa, M.; Rhodes, C. (2025).
[iv] A Biosfera é o conjunto de todas as formas de vida da Terra e ambientes onde vivem. Inclui os organismos vivos (animais, plantas, microrganismos), ambientes físicos e químicos que sustentam a vida (como oceanos, florestas, desertos e a atmosfera), e interações ecológicas entre os seres vivos e o meio ambiente. A Biosfera abrange desde as bactérias nas fossas oceânicas, até as aves que voam na estratosfera.
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Referências
Castro, Ilda Teresa de.
(2011) «Alienação Civilizacional, Arte e Melancolia», in Arte & Melancolia, Margarida Acciaiuoli e Maria Augusta Babo (coord.), Instituto de História de Arte / Estudos de Arte Contemporânea/Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens, Lisboa, 2011, pp.179-191.
(2020) «O Que É Preciso Mudar para Continuarmos Vivos», in Animalia Vegetalia Mineralia_ecomedia ecocriticismo ecocinema. Ano VI. Número XI. 2020-2021.
Desmond Matthew. (2023). Poverty, By America, Crown.
Eski, Y. (2023). «Space, the Final Frontier to Exploit and Annihilate: Space Exploration, Inhabitation and Settlement», in A Criminology of the Human Species. Springer Nature Switzerland, p.71-98.
Garasic, M.D. & Di Paola, M. (2024). The Philosophy of Outer Space: Explorations, Controversies, Speculations. Routledge.
Harari, Yuval Noah. (2024). Nexus – História Breve das Redes de Informação. Penguin Random House Grupo Editorial.
Munro, I.; Boussebaa, M.; Rhodes, C. (2025). «Transnational Corporate Power, Neo-colonialism, and Investigative Journalism». Emerald Publishing.
Wulf, Andrea. (2015). A Invenção da Natureza: as aventuras de Alexander Von Humboldt, o herói esquecido da ciência. Temas e Debates – Círculo de Leitores.
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*Ilda Teresa de Castro é música, cineasta, artista visual, curadora e investigadora. Formada em Cinema e Arte, Doutorada em Ecocinema e Ecocritica, Pós-doutorada em Arte e Ecologia. No domínio ecocritico é autora dos livros Ecofeminismos e o ecofeminismo da bruxa – cinema e ecologia (2023), e Eu Animal — argumentos para uma mudança de paradigma – cinema e ecologia (2015). Enquanto eco-artista tem apresentado instalações e ecofilmes em diversos países. Fundadora (2014) e editora da plataforma e revista digital Animalia Vegetalia Mineralia ecomedia_ecocriticismo_ecocinema. É autora dos libretos das eco-óperas Descartes Nunca Viu Um Macaco (2017) e Virino Kaj Naturo# (Mulher & Natureza) (2023). Em 2025, lançou o álbum triplo Eu Planta_Eu Animal_Eu Pedra e o álbum Intelligentia Liquida.
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The Hidden Impact of the “Global Elite” : Between Collapse and Regeneration — expanded edition
by Ilda Teresa de Castro
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This article was originally published on March 14, 2025, in interact – Online Magazine of Art, Culture and Technology, under the title “Between Collapse and Regeneration: The Hidden Impact of the Global Elite”, offering a critical reading of the geopolitical and economic role of elites and their covert strategies in the face of environmental collapse. However, the succession of international developments since then — notably the approval of the One Big Beautiful Bill in the U.S., the dismantling of global climate policies, and the worsening of ecological conditions on a planetary scale — justifies its update and republication in Animalia Vegetalia Mineralia. This expanded version deepens and updates the original analysis, incorporating new data, actors, and consequences that make the reflection on the environmental crisis, systemic inequality, the future of life on the planet, and the hidden impact of the global elite on the ongoing civilizational crisis even more urgent.
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Avant-propos
In this article, I use the term “global elite” not in the sense of what is best or most admirable in a society, but to designate an extremely wealthy social minority with disproportionate power and influence, whose actions and decisions are often driven by greed, a lack of ethics, and indifference toward life and the planet.
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Major civilizational catastrophes can also become moments of revelation. The impact of the COVID-19 pandemic (2020–2022) revealed a possibility previously deemed utopian: the suspension of the paradigm of relentless production and predatory consumption, marked by the deceleration of the industrial machine and the resulting temporary regeneration of ecosystems. Within just a few weeks, air pollution levels dropped dramatically, allowing skies over China and Europe to become visibly clear once again. Marine wildlife resurfaced in long-degraded areas, while urban noise gave way to a primordial silence in which birdsong could once again be heard. The Earth was breathing.
As if we had stepped into a vortex in space-time, the global standstill that ensued offered us a glimpse of what a sustainable world could be.
But the logic of the system quickly reasserted itself, and there was no strength to sustain the essential revelations of that moment. In a world immersed in a structure beyond our grasp, we increasingly live within a logic of consumption and time occupation that exceeds our capacity for choice, and the hegemony of business shapes not only the economy but also our perception of what is possible to change[i]. Even so, there are moments of rupture that force us to question that structure — like the glimpse of a sustainable world that the lockdown briefly offered.
Yet the economic recovery disregarded that experience.
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The so-called “return to normality” quickly revealed itself to be a euphemism for a brutal environmental setback. CO₂emissions reached a historic record in 2023, surpassing pre-pandemic levels (International Energy Agency). The suspension of global supply chains should have been an opportunity to reassess our structural dependence on fossil fuels. Instead, the political and economic response was one of compensatory growth, reactivating the same extractivist and destructive systems, while neglecting the opportunities for a transition to renewable energy. War and geopolitics accelerated the devastation. The numbers are alarming. In just three years, CO₂ emissions hit historic highs: over 230 million tonnes in Ukraine, and 281,000 tonnes in Gaza in just two months — a figure that exceeds the annual carbon footprint of 20 countries ((UN environment programme, Emirates Center for Strategic Studies and Research, The Guardian). The planet is burning. The hottest year on record was 2024, with a global average temperature of 1.55°C above pre-industrial levels (World Meteorological Organization). And January 2025 set a new record, reaching 1.75°C above the pre-industrial average (Copernicus Climate Change Service), when the critical threshold to avoid extreme and irreversible climate impacts is 1.5°C (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).
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Meanwhile, between June and August 2025, Europe experienced successive episodes of extreme heat, with several historic records. At the end of June, El Granado in Huelva (Spain) reached 46.0 °C — the highest temperature ever recorded in the country for that month, surpassing the 45.2 °C registered in Seville in 1965 — while in Portugal, the town of Mora recorded 46.6 °C, a new national June record. According to the Copernicus Climate Change Service, June was the warmest ever in Western Europe, at 2.81 °C above the 1991–2020 average (Copernicus). July continued the trend, ranking as the third warmest globally, while Turkey broke its national record with 50.5 °C (Reuters). In August, an unprecedented heatwave struck the Nordic countries, with temperatures exceeding 30 °C for more than twenty consecutive days, including areas above the Arctic Circle (France24). Still in August 2025, a wave of wildfires of tragic proportions is sweeping across Europe. These records make it clear that the climate crisis is no longer expressed in subtle oscillations but through frequent and increasingly intense extreme weather events.
The signs are unequivocal: we are witnessing the imminent collapse of critical ecosystems in the Amazon and the Arctic, while wildfires, floods, tsunamis, earthquakes, and heatwaves intensify. We are in free fall toward devastation.
In a steep dive into the darkest abyss, the return of the Trump administration in early 2025 implemented devastating environmental policies — including the repeal of the Wetlands Protection Act, expansion of oil extraction in Alaska and the Gulf of Mexico, and withdrawal from international climate commitments such as the Paris Agreement and COP30 negotiations — lifting restrictions on the exploitation of vital biomes, mocking and sabotaging international climate commitments, and signalling colonial ambitions over Canada, the Gaza Strip, Greenland, and the Gulf of Mexico.
Most species are being pushed past the point of no return by a capitalo-techno-totalitarian force — a recent fusion of extreme capitalism, technocracy, and totalitarianism. This is the same power structure that envisions an extraterrestrial (multi-planetary) survival plan for those with exceedingly high “net-(co)worth” — the sphere of influence of the 1% who own more wealth than 95% of the population (Oxfam), and who remain indifferent to the fate of the rest of humanity and more-than-human species.
Indeed, just one month after taking office, the current Trump administration cut funding for NASA’s climate research and redirected it toward space exploration; it now proclaims a desire to colonize Mars before China and actively encourages private investment in that direction. The involvement of far-right billionaire Elon Musk (CNN)— a proponent of multi-planetary expansion and transhumanism — alongside powerful corporations and wealthy nations, raises serious ethical and environmental concerns about how this new form of colonialism will be carried out.
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In recent months, the elite’s plans for Martian colonisation have taken on more concrete — and dangerously ambitious — contours. Just days after stepping down from the Trump administration in late May 2025, Elon Musk announced the launch of an unmanned mission to Mars as early as 2026, aiming to pave the way for the creation of a self-sustaining colony on the Red Planet (Reuters). SpaceX plans to build a fleet of 500 Starship spacecraft by 2033, turning interplanetary transport into a logistical and commercial reality. To achieve this, Musk has transformed the village of Boca Chica, Texas, into the so-called Starbase City — a private industrial enclave that will serve as the main testing platform (News). Meanwhile, other billionaires, such as Jared Isaacman, are competing for influence in the process, positioning themselves as potential future NASA leaders with a Mars-first agenda (AP). Luxury space tourism is progressing in parallel, with suborbital experiences priced at obscene levels of exclusivity, such as the SpaceVIP programme led by “Mr Intergalactic,” offering journeys starting at $495,000 per passenger (The U.S. Sun). To sustain this planetary escape engineering, the U.S. federal budget for 2026 already earmarks over one billion dollars for the private sector through the Commercial Mars Payload Services programme, which includes the development of colonisation technologies, landing vehicles, and interplanetary communication systems (Phys.Org).
Simultaneously, after the U.S. Senate narrowly approved Donald Trump’s controversial One Big, Beautiful Bill (OBBBA) on July 1, 2025 (by a 51–50 vote), Elon Musk — who had been the largest donor to the Republican campaign in 2024 — announced the creation of a new political party, the America Part (Time). The OBBBA consolidates tax cuts and progressively eliminates credits for electric vehicles and for solar and wind energy — measures that, according to The Atlantic, could increase the cost of renewable projects by 50%, potentially plunging the U.S. into its worst energy accessibility crisis since the oil shock of the 1970s (The Atlantic, Barron´s). Meanwhile, it redirects massive funds toward border security, drones, military AI, and wall construction (New York Post).
What was once mere dystopian speculation is now underway — funded by private fortunes, corporate interests, and complicit governments — taking Mars out of the metaphorical realm and turning it into a kind of Plan B amid the collapse of Earth’s ecosystems.
Fears that the neo-colonial context of Mars exploration will replicate historical patterns of terrestrial colonialism seem increasingly justified [iii]. The ongoing spatial neo-colonialism points to a serious risk of appropriation and control of space for the benefit of a few, despite the 1967 Outer Space Treaty — signed by 100 countries — prohibiting any nation from claiming sovereignty over celestial bodies such as Mars. One must ask whether Martian neo-colonialism is intended as a continuation of terrestrial post-colonialism, and what goals are actually being pursued. Given the scientifically acknowledged difficulties that Mars’ atmosphere poses to human survival, only robotic existence is realistically compatible with that environment — and the dream of establishing a refined, luxurious life for elites is unfeasible in the near future. Despite this, the colossal investment and depletion of Earth’s resources and sustainability continues, as if it were the whimsical stubbornness of pampered boys. The true benefits and objectives sought by this billionaire elite remain in the shadows — far beyond the orbit of humanoid hubris to etch grand historical feats.
However, the hypothesis of interplanetary segregation — in which only certain elites gain access to the Martian frontier — evokes many science fiction films that have played across our screens over recent decades. Indeed, our collective imagination is populated with such dystopian space futures, rooted in the collapse of ecological sustainability on Earth.
Who doesn’t recall Blade Runner by Ridley Scott (1982), Total Recall by Paul Verhoeven (1990), Elysium by Neill Blomkamp (2013), or Interstellar by Christopher Nolan (2014)? In literature, as early as 1909, E. M. Forster’s The Machine Stops first envisioned this future of social segregation, technological dependence, and the collapse of highly advanced civilizations. But it is with The Moon is a Harsh Mistress, published in 1966 by Robert A. Heinlein, and soon after Do Androids Dream of Electric Sheep by Philip K. Dick in 1968 — adapted by Ridley Scott in Blade Runner (1982) —, that the idea of space colonisation by elites — leaving the poor behind in degraded survival conditions — becomes a central narrative in science fiction. Supposedly, only as entertainment.
What was once taken as mere fictional entertainment has suddenly become a priority promoted by one of the most powerful governments on planet Earth, in coordination with the wealthiest fortunes of this same world — a world that, in the very same historical moment, finds itself ethically and morally gutted by unspeakable acts committed in the Middle East, in blatant violation of international law, and witnessed daily by global audiences through the media, with no resolution in sight despite widespread outrage.
The picture could not be more sinister.
Adding to all this is a growing and increasingly global alienation of much of the world’s population, immersed in the technological domains and “alternative realities” of social media and similar platforms, where truth becomes relative, contributing to a scenario ripe for unsettling dystopias — as of February 2025, there were 5.56 billion internet users worldwide, 67.9% of the population; 5.24 billion (63.9%) were social media users.”(Statista). These networks, which should serve as tools for sociability, entertainment, education and knowledge, have instead been repurposed into mechanisms for harvesting personal data and exploiting time, in order to increase the profits of techno-capitalist financial giants. Worse still, they have become instruments in favour of totalitarian regimes. The role of algorithms in controlling political narratives, shaping voter behaviour through fake news and emotional manipulation, is well-documented (Harari, 2024). Social media has accelerated humanity’s transition into a “post-truth” stage, where perception matters more than reality. These platforms are frequently used as political weapons by actors hostile to planetary sustainability and species preservation — as seen in both the use and aims of the Trump administration — see below on this page the article The new normal of post-truth, by Luis Balula (2017).
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As a point of curiosity, the pandemic created at least 40 new millionaires within the pharmaceutical industry, and although no exact number has been published, since the start of the wars in Ukraine and Gaza, the boom in the arms industry has produced hundreds of new millionaires among defence executives, shareholders and investors — particularly in U.S.-based companies. Major financial shifts show that these wars are being converted into colossal profits for a select few, fuelling a new armaments bourgeoisie that thrives on global instability, entirely indifferent to the ecological impacts it triggers.
If in 2018–19 — during the wave of student protests sparked by the Greta Thunberg movement — there was a glimpse of possible global change aimed at preventing environmental collapse, we now face a full 180-degree reversal, marching steadily toward a point of no return, despite the evidence confirmed during the pandemic.
In the current scenario, major corporations and the ultra-wealthy (The Economic Times) are deploying vast resources to shape global rules in their favour, planning to continue enriching themselves at the expense of Earth’s habitability — all while seemingly securing a place for their descendants on Martian soil in the distant future, and in terrestrial luxury enclaves in the immediate one. On this path, global warming will continue to rise, rendering vast areas of the planet uninhabitable, driving thousands of species to extinction, displacing billions as climate refugees, and accelerating irreversible changes. The global elite will occupy safe climate zones and walled cities. Between total collapse via space colonisation and sustainable regeneration, there is a third path already under construction: Business as Usual — where environmental and social degradation continues without major structural change. In this scenario, there is no interplanetary escape, only an unequal adaptation to crisis. Global warming will surpass 2°C before 2050, rendering ecosystem and societal collapse irreversible. Meanwhile, megacorporations will continue expanding, profiting from the absence of environmental regulation in an increasingly unequal and hostile world. Ultra-wealthy communities will live shielded from climate and social chaos in exclusive, fortified zones — reminiscent of the luxury bunkers and smart cities that already exist and remain accessible only to the most privileged. Fortified enclaves such as luxury bunkers in the U.S., New Zealand and Europe, or in climate-controlled, high-security smart cities like the NEOM project in Saudi Arabia. They will have purified water and air, while the rest of the population breathes pollution; vertical farming and lab-grown food, while hunger spreads; renewable energy and temperature-controlled homes, while the world suffers blackouts, desertification and natural disasters. Access to healthcare, biotechnology and longevity treatments, while millions die without assistance. All of this protected by private armies, as resource scarcity triggers conflict. This dystopian scenario is under construction. However abject, it exists as a possibility in the current global landscape.
In this dystopian vision, if — at the end of those times — Earth ultimately survives with a few viruses, bacteria, reptiles and insects, until eventually, thousands of years later, new species less lethal than the human one may come to exist, the likelihood of collapse repeating itself on Mars in a future post-colonial humanoid era is immense.
A scenario that, as early as 1801, haunted Humboldt in his darkest nightmares — foreseeing a grim future in which humans, expanding through space, would spread their worst traits to other planets, leaving them sterile and ravaged, just as he already observed them doing to Earth.
The path that appears least likely — yet is the only one capable of safeguarding life as we know it — requires a rapid transition to sustainable practices, global adoption of renewable energy, and multilateral agreements enforcing strict regulations. This is precisely the opposite of what was approved under the OBBBA, which ended clean energy incentives.
It also demands active civic engagement and pressure on governments, and — crucially — fair taxation of mega-corporations and the world’s wealthiest 10%, thus securing the resources needed for a green transition and the substantial reduction or eradication of poverty. Instead, OBBBA enacts drastic cuts to social programmes, affecting millions of vulnerable Americans (Daily Beast, Vox), while reducing taxes for megacorporations, companies, and large fortunes (Time).
Though rarely discussed, recent studies highlight the urgent need to act forcefully against the abusive practices of those who hold the greatest fortunes. Taking the United States as an example, it is proven that the amount lost in unpaid taxes by this elite exceeds what would be needed to eradicate poverty in the country: each year, roughly $1 trillion is lost to fraud and tax evasion, while eradicating poverty would require $177 billion. It is likely that the figures are similarly staggering across the rest of the world. In terms of government benefits, the richest are in fact receiving around forty percent more than the poorest (Desmond, 2023). None of this makes sense. Imposing economic justice on a global scale is imperative.
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hidden wealth in tax havens reaches record absolute values (Tax Justice Network)
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If the wealthiest pay the taxes they owe, if we abandon the unsustainable and highly polluting new space colonialism — both on Earth and beyond — if labour is valued as highly as capital, and if we commit to serious measures for preserving terrestrial sustainability through civic engagement and new legislation, then there is hope.
It will be possible to restore collapsing ecosystems, build a world powered by clean energy, develop self-sustaining smart cities, and eradicate poverty — a key factor in the rise of extremist movements and totalitarian, populist governments that are lethal to ecological thinking and to the preservation of multi-species life on the planet we inhabit.
We must change old habits and practices that have been proven lethally unsustainable. And it is essential to break free from the logic of fear, resignation, and alienation that so often keeps us paralysed. Change will never come from the top alone — it must also be built from the ground up. We need to act locally, but with a global perspective; to use knowledge as a tool of resistance against disinformation, and also as a driver of critical awareness and collective mobilisation; to challenge the notion that progress means unlimited economic growth. Ultimately, the struggle is not only for the planet’s survival, but also for the redefinition of what it means to live on it. Especially in times as dramatically radicalised as ours — in all the worst senses of that word.
In recent weeks and days, in response to the climate rollback imposed by the OBBBA, several countries and blocs have reinforced environmental measures with substantive actions. Denmark, which assumes the rotating six-month presidency of the EU in July, will lead negotiations on a new target aiming to reduce EU emissions by 90% by 2040 compared to 1990 levels (Reuters) — although it includes the option of 3% carbon credit offsets (The Guardian). China is reported to have expressed to the Brazilian government its intention to invest in the global Tropical Forests Forever Facility, which finances the conservation of endangered forests (Reuters). Even within the United States, warnings have emerged about the financial risks of suspending ongoing clean energy investments. In New York City, the surprising victory of socialist Zohran Mamdani in the Democratic primaries for mayor further reinforces the political signal of a new ecological and redistributive wave emerging even within the U.S.
An alignment between ecology, finance, and diplomacy is taking shape in response to the American regression.
It is essential that we reposition ourselves amidst such upheaval and refocus on what truly matters. I return to 2020 and to what I wrote then, in “What Needs to Change for Us to Stay Alive” (Animalia Vegetalia Mineralia), whose words now echo with even greater urgency:
“We must slow down the economy, production, and consumption. We must produce locally and consume locally. Reduce the exploitation of raw materials and Earth’s resources. Reduce energy consumption. Reduce investment in technologies and high-tech systems increasingly dependent on energy. Reduce airports, highways, and travel. Suspend new consumption, new fashions, new gadgets, new expenditures. Replace the car with the bicycle and walking. Replace the airplane with the train. Reuse. We must return to what is basic and essential. Invent solutions, mechanisms, objects, and structures with zero energy expenditure. Return to the land, to cultivating and consuming local food. Return to sustainable ways of living. Teach in schools how to truly do this, instead of fanciful sketches. Teach outside of schools as well, because we never learned or have already forgotten. We must think local to think global and vice versa. We must align science and technology, art and culture, to adjust mechanics to real needs through concrete efforts to solve real problems. We must change the economy. We must change our comfort zone. We need seriousness, responsibility, and honesty about the situation we face. Create new rules for sound behaviour. And move from theory to practice.”
The pandemic demonstrated, across the board, that another world is possible. If we had been waiting for a moment of revelation, confinement served as a laboratory for the solution. Now, we are living through a second turning point — in the opposite direction, and for the worst reasons. In recent times, we have felt ourselves advancing rapidly toward collapse. Collapse is no longer a distant threat; it is increasingly our present. A present haunted by civilisational setbacks that, until recently, were unimaginable. But the choice is simple: to act instead of witnessing the end. That action is already underway, and we are indispensable. It is imperative to save the Biosphere [iv] — the terrestrial life forms that still remain and the physical and chemical environments that sustain life: animals, plants, microorganisms, oceans, forests, deserts, atmosphere… It is time to save ourselves as a species, while saving many others in the process.
A significant part of us acts accordingly. We love this planet and the experience of inhabiting it consciously, with ethics and empathy. We love other forms of life and all that sustains them. We love the birds, the trees, the clouds — and the dignity of being conscious beings, capable of elevating life above cruelty, indifference, and destruction.
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photo Ahmed Jihad Al-Arini
Lastly, it is impossible not to name the revolting and abject situation we are witnessing in Gaza, where hunger is being used as a weapon of extermination against the Palestinian people — including children, babies, and newborns — in a scenario that evokes the darkest periods of human history. The word that many try to avoid — “genocide” — and the inhumane methods employed recall the Nazi Holocaust, which some members of the Israeli parliament have, without shame, cited as a model to apply in Gaza. This is the case with Moshe Feiglin among others, who made such proclamations in june 2024 (Aljaazera) and again in may 2025 (News.com.au).
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Also in the impunity of this Israeli government—whose president has, since November 2024, been under an arrest warrant issued by the International Criminal Court for war crimes and crimes against humanity, yet continues to govern—there is the involvement of billionaires, particularly from the United States, with the State of Israel. These ties include political, technological, and military funding, as well as the media normalisation of war crimes in the name of geo-strategic and economic interests. Just as with the climate catastrophe, here too we see the global elite upholding a model of violence that breaks all rules of international law, violates all collective dignity, and dehumanises on an unprecedented scale. The complicit silence of European governments — whose diplomatic inertia and active omission shame the history of Europe and its very purpose — is also a sign of submission to that domination. Gaza is a mirror of our moral collapse as a civilisation — and of how absolute power, when allied with extreme capital, fosters the acceptance of the unacceptable. The case of Gaza is violating international law in the most horrific manner, in plain sight, without consequences — because it is sustained by economically powerful groups.
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[i] Castro, Ilda Teresa de. ‘Civilizational Alienation, Art and Melancholy’, 2011.
[ii] In early February, the White House announced Elon Musk as a Special Government Employee, allowing him to serve as a Trump advisor without formally joining the cabinet. He became head of the Department of Government Efficiency (DOGE), influencing environmental policy cuts and investments in space militarization and Mars colonization.
[iii] Eski, Y. (2023); Garasic, M.D. & Di Paola, M. (2024).; Munro, I.; Boussebaa, M.; Rhodes, C. (2025).
[iv] The Biosphere includes all life forms and the environments in which they live — animals, plants, microorganisms, oceans, forests, deserts, and the atmosphere.
References
Castro, Ilda Teresa de.
(2011) «Alienação Civilizacional, Arte e Melancolia», in Arte & Melancolia, Margarida Acciaiuoli e Maria Augusta Babo (coord.), Instituto de História de Arte / Estudos de Arte Contemporânea/Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens, Lisboa, 2011, pp.179-191.
(2020) «O Que É Preciso Mudar para Continuarmos Vivos», in Animalia Vegetalia Mineralia_ecomedia ecocriticismo ecocinema. Ano VI. Número XI. 2020-2021.
Desmond Matthew. (2023). Poverty, By America, Crown.
Eski, Y. (2023). «Space, the Final Frontier to Exploit and Annihilate: Space Exploration, Inhabitation and Settlement», in A Criminology of the Human Species. Springer Nature Switzerland, p.71-98.
Garasic, M.D. & Di Paola, M. (2024). The Philosophy of Outer Space: Explorations, Controversies, Speculations. Routledge.
Harari, Yuval Noah. (2024). Nexus – História Breve das Redes de Informação. Penguin Random House Grupo Editorial.
Munro, I.; Boussebaa, M.; Rhodes, C. (2025). «Transnational Corporate Power, Neo-colonialism, and Investigative Journalism». Emerald Publishing.
Wulf, Andrea. (2015). A Invenção da Natureza: as aventuras de Alexander Von Humboldt, o herói esquecido da ciência. Temas e Debates – Círculo de Leitores.
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*Ilda Teresa de Castro is a musician, filmmaker, visual artist, curator and researcher. She holds degrees in Cinema and Art, a PhD in Ecocinema and Ecocriticism, and a postdoctoral degree in Art and Ecology. In the field of ecocriticism, she is the author of the books Ecofeminismos e o ecofeminismo da bruxa – cinema e ecologia (Ecofeminisms and the Witch’s Ecofeminism – Cinema and Ecology) (2023), and Eu Animal — argumentos para uma mudança de paradigma – cinema e ecologia (I Animal — Arguments for a Paradigm Shift – Cinema and Ecology) (2015). As an eco-artist, she has presented installations and eco-films in several countries. She is the founder (2014) and editor of the digital platform and journal Animalia Vegetalia Mineralia – ecomedia_ecocriticism_ecocinema. She authored the librettos for the eco-operas Descartes Nunca Viu Um Macaco (Descartes Never Saw a Monkey) (2017) and Virino Kaj Naturo# (Woman & Nature) (2023). In 2025, she released the triple album Eu Planta_Eu Animal_Eu Pedra (I Plant_I Animal_I Stone) and the album Intelligentia Liquida.
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O novo normal da pós-verdade
por Luis Balula*
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Alguns dias após a eleição presidencial norte-americana de 8 de Novembro de 2016, o Oxford Dictionaries elegeu “pós-verdade” (post-truth) como a palavra do ano. No entanto o conceito tem sido usado desde há pelo menos vinte cinco anos, primeiro em referência à manipulação da cobertura mediática do escândalo Irão-Contra (administração Reagan) e da primeira guerra do Golfo (administração George Bush) e, mais tarde, em referência às declarações enganosas que levaram à invasão do Iraque (administração George W. Bush). Actualmente o conceito ganhou particular relevância, tendo-se tornado de uso corrente no contexto das últimas eleições presidenciais norte-americanas, que elevaram a fasquia do abuso da verdade a novos limites. Curiosamente, ou talvez não, também no quadro de mais uma administração Republicana.
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Evolução da frequência do uso da palavra ‘pós-verdade’
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De acordo com a definição do Oxford Dictionaries, “pós-verdade” é um adjectivo que “qualifica as circunstâncias em que os factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que o apelo à emoção e às crenças pessoais”. Frequentemente associado ao substantivo “política” na expressão “política pós-verdade” (post-truth politics), é usado para exprimir a condição de um momento histórico – que é o nosso – em que a opinião pessoal e o facto científico se confundem, não só na formação de atitudes individuais e comportamentos sociais, como também nos processos de tomada de decisão política.
A origem epistemológica da noção de “pós-verdade” – hoje associada a um tipo de política capaz de rejeitar evidências científicas quando estas contradizem dogmas sectários – radica-se na corrente intelectual que exprime e define a condição relativizante da pós-modernidade, em que “tudo é relevante” e em que “Shakespeare e o Pato Donald têm igual valor”. Efectivamente, no actual ecosistema mediático das redes sociais tudo é relativo e igualmente “i-relevante” – há histórias a ser fabricadas a todo o momento, há factos e evidências para todos os gostos – e não existe uma verdade estável, a não ser aquela que cada um de nós constrói a partir do mosaico de informações a que acede e do ecosistema mediático que escolhe habitar. Como Barack Obama afirmou numa entrevista à revista The New Yorker, dias após a eleição de Trump, no novo universo mediático dominado pelas redes sociais,
“tudo é verdade e nada é verdade (…) numa página do Facebook a explicação das alterações climáticas de um prémio Nobel surge exatamente igual à negação das alterações climáticas de alguém pago pelos irmãos Koch. E a capacidade de disseminar a desinformação [e] teorias de conspiração delirantes (…) acelerou de tal forma que não só polarizou extremamente o eleitorado como chega até a tornar difícil manter uma conversa normal”.
Na tradição iluminista, de que somos herdeiros, a esfera pública – ou, se quisermos, o lugar onde a opinião pública se torna, potencialmente, acção política – constitui um dos elementos essenciais da democracia participativa tal como hoje a entendemos. O filósofo e sociólogo alemão Jurgen Habermas, que desenvolveu o conceito, sugeriu que os meios de comunicação de massas têm particular importância na formação e manutenção da esfera pública. No entanto, advertiu que constituem também um veículo privilegiado de controlo dos fluxos de informação (por exemplo, ao seleccionar aquilo que constitui, ou não, notícia) e podem facilmente ser usados para manipular a opinião pública e alterar comportamentos sociais.
Em 1992, Habermas referia-se à imprensa escrita e televisiva, produzida por jornalistas e profissionais da comunicação ainda relativamente enquadrados por uma ética reguladora do meio profissional. Hoje, no universo mediático online das redes sociais, a fronteira entre cobertura jornalística profissional e conteúdos gerados por utilizadores já quase não existe. E se por um lado esta grande abertura pode significar uma esfera pública mais democrática, de livre acesso a um leque mais amplo de pontos de vista e de fontes de informação, permitindo a criação de comunidades de interesses e alianças estratégicas, por outro lado a esfera pública virtual está igualmente a contribuir para uma cultura em que factos e ficções, evidências e opiniões, se combinam em formações variáveis e aleatórias. Neste novo ambiente cultural, mediado pelos fluxos de comunicação da chamada web 2.0, falta-nos sobretudo uma base de certezas estáveis (um “patamar de factos”) capaz de constituir um referencial comum para uma acção efectiva em questões fundamentais. Ainda nas palavras de Obama, na mesma entrevista:
“Idealmente, em democracia, todos concordariam que as alterações climáticas são consequência do comportamento humano, já que é isso que 99% dos cientistas nos dizem. E então teríamos um debate sobre os meios para resolver o problema. Foi assim que nos anos setenta, oitenta e noventa, os Republicanos apoiaram o Clean Air Act e avançaram com uma solução de mercado para a chuva ácida, em vez de prosseguirem uma abordagem de comando e controlo. Discutiam-se os meios, mas havia um patamar de factos a partir do qual se podia trabalhar. Agora, muito simplesmente, isso não existe”.
A opinião pública é hoje alimentada por múltiplas narrativas sobre os mesmos factos mas dirigidas a públicos diferenciados, muitas delas contraditórias e competindo pelo estatuto de autenticidade. As redes sociais são verdadeiras “câmaras de eco” destas narrativas, ampliando o impacto na esfera pública quer de informação fidedigna, quer de desinformação e propaganda facciosa. “A minha opinião vale mais que os factos!” parece ser o mote da nova realpolitik – e basta possuir um telemóvel, uma doutrina musculada e uma conta no Twitter para conseguir propagá-la. É tudo uma questão de números: a quantidade de “seguidores” determina o grau de factualidade da opinião. Tal como nas crenças das religiões dogmáticas, quantos mais são os fiéis, mais a fé na verdade da crença é confirmada pelos grandes números. E quando os números são suficientemente grandes, opiniões e crenças transformam-se, efectivamente, em “factos alternativos” que justificam decisões pessoais e orientações políticas universais.
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Posicionamento político e credibilidade relativa das notícias de alguns dos principais canais de informação em língua inglesa
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De acordo com o académico britânico Jayson Harsin, a emergência deste novo “regime pós-verdade” deve-se à convergência de uma série de factores. São eles: (1) a fragmentação dos meios de comunicação de massa centralizados da era Moderna, que tendiam a difundir o mesmo leque de notícias, repetindo-se uns aos outros; (2) a proliferação de conteúdos gerados por utilizadores e a escassez de autoridades fidedignas em que todos confiem, capazes de descriminar o que é verdade do que é mentira; (3) um novo tipo de comunicação de massas profissional informada pela ciência cognitiva, que procura influenciar a percepção de determinados grupos populacionais (microtargeting), inclusivamente através do uso estratégico de rumores e falsidades; (4) os algoritmos que governam o que aparece nos motores de busca de cada utilizador, baseados nas preferências individuais e não necessariamente no que é factual; (5) a sobrecarga de informação (information overload) que leva as pessoas a ignorar notícias importantes mas que não lhes dizem directamente respeito; (6) um ambiente político e social inquinado por escândalos e suspeitas de corrupção e fraude, que leva ao descrédito das instituições; e ainda (7) um jornalismo que tende cada vez mais para a difusão de notícias e reportagens sensacionalistas estilo tablóide e/ou de pura propaganda sectária.
Tudo isto são más notícias para a esfera pública. O projecto Iluminista possibilitou a transição de um sistema de valores baseado na fé religiosa e no direito divino para um outro sistema baseado na razão e na universalidade da objectividade científica. Ao mesmo tempo, atribuiu ao indivíduo a responsabilidade de pensar e julgar por si próprio acerca de factos empíricos e valores morais. Por outro lado, a crítica pós-estruturalista dos últimos trinta anos é unânime ao considerar que o Iluminismo introduziu diversas formas de “imperialismo cultural”, ao substituir uma crença religiosa por uma nova crença, também ela essencialista e dogmática, na objectividade científica e no progresso tecnológico. O “relativismo cultural” da pós-modernidade, no entanto, apesar de procurar acomodar os diversos posicionamentos identitários da sociedade contemporânea (ou precisamente por causa disso), determina uma hiper-fragmentação do corpo político-social e, consequentemente, da esfera pública. E, neste aspecto, chegámos a um impasse difícil de ultrapassar.
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Factos incontornáveis encontram-se rodeados do ‘ruído’ de rumores e inverdades veículados pelas redes sociais

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Contrariando este relativismo fragmentador, as recentes formações de poder ditas “populistas”, que têm vindo a ocupar o lugar das reivindicações de classe deixado vazio pela Esquerda tradicional, encontraram, entretanto, o seu tema unificador na globalização. Questões como a emigração e os tratados de comércio entre grandes blocos económicos constituem um referencial comum – um “patamar de factos” – capaz de mobilizar o descontentamento não apenas de chauvinistas e fanáticos mas também de largos sectores da classe média das democracias ocidentais que vêem na globalização uma ameaça à soberania das nações, à diversidade das culturas locais, às oportunidades de trabalho e aos direitos sociais conquistados desde o pós-guerra.
A impensável vitória de Trump, o inesperado Brexit, o crescente poder da oligarquia de Putin e a ascenção da direita radical na Europa são, no entanto, fenómenos indissociáveis dos novos regimes de pós-verdade, que se infiltraram na democracia e que parecem anunciar o advento de uma nova era anti-Iluminista e pós-democrática. São também fenómenos que nos levam a interrogar sobre o que leva um número significativo de pessoas, supostamente cultas e inteligentes, a rejeitar factos acerca dos quais há um alargado consenso científico. Procurando explicar esta questão, sociólogos americanos têm vindo a conduzir estudos que permitem concluir que as pessoas seleccionam as notícias que confirmam aquilo em que já acreditam e consideram mais relevantes os factos que corroboram as suas opiniões. Quando os factos contrariam as suas opiniões, elas não negam necessariamente os factos, mas tendem a minimizá-los, dizendo que são menos relevantes.
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No actual ecosistema mediático, facto e ficção, evidência e opinião, combinam-se em formações aleatórias
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Agravando o problema, também a objectividade científica é posta em causa no novo regime da pós-verdade. Dada a actual profusão de comunicações científicas, muitas delas contraditórias, os factos da ciência são hoje usados selectivamente num confronto pela supremacia cultural, que passa pela manipulação e controlo da opinião na esfera pública. Determinadas conclusões científicas – por exemplo sobre alterações climáticas, direitos humanos ou segurança nuclear – estão cada vez mais associadas a afiliações políticas ou sociais. No entanto, estas são matérias demasiado importantes para estarem sujeitas a critérios de opinião ou preferências partidárias. Quando o que está em causa é a possibilidade ou não de um futuro viável para a humanidade e para o planeta, há factos e verdades que são universais e incontornáveis. Para refutar e combater a deriva totalitária dos regimes da pós-verdade, cumpre aos jornalistas e repórteres, mas também aos investigadores e cientistas, encontar formas de veicular mais efectivamente esta mensagem.
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* Luis Balula (PhD. Urban Planning & Public Policy) é consultor e investigador independente na Universidade de Lisboa. Arquitecto urbanista e investigador, dedicado ao estudo dos temas da sustentabilidade e do desenvolvimento urbano. Na intercepção interdisciplinar dos temas da geografia urbana e do planeamento com os do urbanismo e da arquitetura, os seus actuais interesses incluem futuros urbanos e planeamento estratégico, cenarização e técnicas de prospectiva, smart cities e transições tecno-culturais. Consultor de planeamento nos sectores público e privado, tem igualmente leccionado em diversas faculdades portuguesas e nos EUA. Ph.D. in planning and public policy (Rutgers University); M.Sc. in urban affairs (Boston University); Mestre em arquitectura e planeamento urbano e regional (Universidade de Lisboa).
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The new normal of post-truth
by Luis Balula*
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A few days after the US presidential election of November 8, 2016, Oxford Dictionaries chose “post-truth” as the word of the year, calling the world’s attention to the new concept. However, the concept that has been in use for the last twenty five years, first in reference to the media coverage manipulation of the Iran-Contra scandal (Reagan administration) and the first Gulf War (George Bush administration), and later in reference to the misleading statements that led to the invasion of Iraq (George W. Bush administration). The concept has gained particular relevance and became commonplace in the context of the last US presidential elections, which have raised the bar of abuse of truth to new limits. Curiously, or perhaps not so, also within the framework of yet another Republican administration.
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According to Oxford Dictionaries, “post-truth” is an adjective that relates to “circumstances in which objective facts are less influential in shaping public opinion than appeals to emotion and personal belief.” Often associated with the noun “politics” in the expression “post-truth politics,” it is used to express the condition of a historical moment – which is ours – in which personal opinion and scientific fact are mixed up, not only in the formation of individual attitudes and social behavior, but also in political decision-making processes.
The epistemological origin of the notion of ‘post-truth’ – nowadays associated with a kind of policy that rejects scientific evidence when it contradicts sectarian dogmas – is rooted in the intellectual current that expresses and defines the condition of post-modernity, in which “everything is relevant” and “Shakespeare and Donald Duck have equal value.” In the current social media ecosystem everything is indeed relative and equally “i-relevant” – stories (and tall-stories) are fabricated all the time, there are facts and evidences for all tastes – and there is no stable truth, except the one that each one of us constructs from the mosaic of information of the media ecosystem that one chooses to inhabit. As Barack Obama stated in an interview with The New Yorker magazine, a few days after the election of Trump, in the new media universe dominated by social networks,
“everything is true and nothing is true. An explanation of climate change from a Nobel Prize-winning physicist looks exactly the same on your Facebook page as the denial of climate change by somebody on the Koch brothers’ payroll. And the capacity to disseminate misinformation and wild conspiracy theories (…) has accelerated in ways that much more sharply polarize the electorate and make it very difficult to have a common conversation.”
In the Enlightenment tradition, which we inherited, the public sphere – or, if we will, the place where public opinion potentially becomes political action – is one of the key elements of participatory democracy as we understand it today. The German philosopher and sociologist Jurgen Habermas, who developed the concept, suggested that the mass media are particularly important in shaping and maintaining the public sphere. However, he warned that they are also a privileged vehicle for controlling information flows (for example, by selecting what constitutes news, or not) and can easily be used to manipulate public opinion and change social behavior.
In 1992, Habermas was referring to television and the written press, produced by journalists and communications professionals still relatively bounded by an ethics that regulated the professional milieu. Today, in the online media universe of social networks, the boundary between professional journalistic coverage and user-generated content is almost non-existent. And if on the one hand this greater openness can mean a more democratic public sphere, freer access to a wider range of points of view and sources of information, allowing the creation of communities of interests and strategic alliances, on the other hand the virtual public sphere is also contributing to a culture in which facts and fiction, evidence and opinions, are combined in random variable formations. In this new cultural environment, mediated by the communication flows of the so-called web 2.0, we all lack, above all, a base of stable certainties (“a baseline of facts”) providing a common reference for effective action on fundamental issues. Still in the words of Obama, in the same interview:
“Ideally, in a democracy, everybody would agree that climate change is the consequence of man-made behavior, because that’s what ninety-nine per cent of scientists tell us. And then we would have a debate about how to fix it. That’s how, in the seventies, eighties, and nineties, you had Republicans supporting the Clean Air Act and you had a market-based fix for acid rain rather than a command-and-control approach. So you’d argue about means, but there was a baseline of facts that we could all work off of. And now we just don’t have that.”
Today’s public opinion is fed by multiple narratives about the same facts, many of them contradictory and competing for the status of authenticity, with different narratives directed at different audiences. Social networks act as “echo chambers” of these narratives, expanding the impact in the public sphere of both reliable information and disinformation or factional propaganda. “My opinion is worth more than the facts!” seems to be the motto of the new realpolitik – and it is enough to have a cell phone, a rugged doctrine and a Twitter account to get it widely broadcast. It is a matter of numbers: the amount of “followers” determines the validity of the opinion. Just like the beliefs of dogmatic religions, the more believers there are, the more such beliefs are confirmed by the large numbers. And when the numbers are large enough, opinions and beliefs actually become “alternative facts” that justify personal decisions and universal policy orientations.
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Political standing and relative credibility of the news on some major media channels in English language
According to British scholar Jayson Harsin, the emergence of this new “post-truth regime” is due to the convergence of a number of factors. These are: (1) the fragmentation of the centralized mass media of the Modern era, which were likely to deliver the same spectrum of news and to reiterate each other; (2) the proliferation of user-generated content and the scarcity of trustworthy authorities, recognized by everybody and capable of telling apart what is true and what is false; (3) a new type of mass communication informed by cognitive science, which seeks to influence the perception of certain population groups (‘microtargeting’), including strategies such as the use of rumors and falsities; (4) the algorithms that rule what appears in the search engines of users based on individual preferences and not necessarily on what is factual; (5) information overload that leads people to ignore important news which do not concern them directly; (6) a political and social environment tainted by scandals and suspicions of corruption and fraud, leading to the discrediting of institutions; and (7) a type of journalism that increasingly tends to spread tabloid-style news and/or pure sectarian propaganda.
All this is bad news for the public sphere. The Enlightenment project set in motion the transition from a system of values based on religious faith and divine law to a system based on reason and the universality of scientific objectivity. At the same time, it attributed to the individual the responsibility to think and judge for him/herself about empirical facts and moral values. On the other hand, the post-structuralist critique of the last thirty years is unanimous in considering that the Enlightenment introduced various forms of “cultural imperialism” which replaced religious belief with another essentialist and dogmatic belief, this time in scientific objectivity and technological progress. The “cultural relativism” of post-modernity, however – despite seeking to accommodate the various identitarian positions of contemporary society (or precisely because of this) – has been responsible for an hyper-fragmentation of the political-social body and, consequently, the public sphere. In this regard, we have reached a deadlock particularly hard to overcome.
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Hard facts are surrounded by the ‘noise’ of rumors and untruths channeled by social media

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Opposing this shattering relativism, the recent so-called “populist” power formations – which are now reclaiming the political grounds of class struggle abandoned by the traditional Left – have found their unifying theme in globalization. Issues such as emigration and trade treaties between economic blocs are a common frame of reference – “a baseline of facts” – capable of mobilizing the discontent not only of chauvinists and fanatics but also of broad sectors of the middle class in Western democracies: regular citizens who see globalization as a threat to the self-government of nations, to the diversity of local cultures, to job opportunities, and to the social rights conquered since the post-war period.
The unthinkable victory of Trump, the unexpected Brexit, the growing power of Putin’s oligarchy, and the rise of the radical right in Europe are inseparable phenomena from the new post-truth regimes that have infiltrated democracy and seem to announce the advent of a new anti-Enlightenment and post-democratic era. They also make one wonder what drives a significant number of supposedly cultured and intelligent people to reject facts about which there is a broad scientific consensus. In order to explain this question, American sociologists have been conducting studies that allow us to conclude that people simply tend to select the news that confirm what they already believe and to consider as more relevant the facts that corroborate their opinions. When the facts contradict their opinions, they do not necessarily deny the facts, but tend to minimize them by saying that they are less relevant.
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In the current media ecosystem, fact and fiction, evidence and opinion, are combined in random formations
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Exacerbating the problem, in the new post-truth regime scientific objectivity is also called into question. Given the current profusion of scientific communications, many of them contradictory, the facts of science are being selectively used in a struggle for cultural supremacy, involving the manipulation and control of the public sphere. Certain scientific conclusions – for example on climate change, human rights or nuclear safety – are increasingly associated with particular political or social affiliations. However, such matters are far too important to be dependent on opinion criteria or party preferences. When what is at stake is the possibility (or not) of a viable future for humanity and the planet, there are facts and truths that are universal and inescapable. In order to refute and combat the totalitarian drift of post-truth regimes, it is the responsibility of journalists and reporters, but also researchers and scientists, to start conveying this message more effectively.
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* Luis Balula (PhD. Urban Planning & Public Policy) is an independent consultant and researcher at the University of Lisbon. Architect, urban planner and researcher. Merging disciplinary themes from urban geography and planning with those of urbanism and architecture, his current research interests include urban futures and strategic urban planning, scenario building and foresight techniques, sustainability and urban development, smart cities and techno-cultural transitions. Planning consultant for the public and private sectors, he has also taught in several Portuguese universities and at the Bloustein School of Planning, New Brunswick, USA. Ph.D. in planning and public policy (Rutgers University); M.Sc. in urban affairs (Boston University); Master in architecture and planning (University of Lisbon).
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A Normalização do Impensável
(26.03.2015)
Mais de uma centena e meia de acadêmicos, intelectuais e escritores, incluindo o Prêmio Nobel JM Coetzee, apoiaram um novo relatório que pede o cancelamento da normalização da experimentação animal. Intitulado “A Normalização do Impensável”, o relatório é o resultado de um trabalho do Centro Oxford para a Ética Animal.
O relatório conclui que “O abuso deliberado e rotineiro de animais sencientes inocentes, envolvendo dano, dor, sofrimento, confinamento stressante, manipulação, comércio e morte deve ser impensável. No entanto, a experimentação animal é apenas isso: a “normalização do impensável”. “Estima-se que 115.300.000 animais são utilizados em experiências em todo o mundo, por ano. Em termos de dano, dor, sofrimento e morte, isto constitui uma das principais questões morais de nosso tempo”.
O grupo de trabalho (composto por 20 líderes, especialistas em ética e cientistas), concluiu que as experiências com animais são moral e cientificamente uma falha. O relatório de mais de 50.000 palavras é provavelmente a crítica mais abrangente de experiências com animais já publicada. Encomendado como revisão ética independente pelo BUAV e Cruelty Free International, os membros do grupo de trabalho fazem questão de salientar que a BUAV em nada influenciou as suas conclusões.
“Os argumentos morais em favor da experimentação animal realmente não valem por si”, diz o professor Andrew Linzey, co-editor do relatório e um teólogo da Universidade de Oxford. “Observámos os argumentos centrais dos relatórios oficiais e encontrámos-lhes falhas. Nos casos em que algum era moralmente válido, também justificaria experiências com seres humanos”.
O relatório conclui que a “normalização” das experiências com animais:
não é sustentável em face do que hoje se sabe sobre a extensão e variedade de como os animais podem ser prejudicados. A questão da complexidade da consciência animal, especialmente a senciência dos animais (a capacidade de sentir dor e prazer), não pode ser ignorada. Ao contrário dos nossos antepassados, sabemos agora, tão razoavelmente quanto podemos saber dos seres humanos, que os animais (nomeadamente, mamíferos, aves e répteis) experienciam não apenas dor mas também choque, medo, pressentimento, trauma, ansiedade, stresse, angústia, antecipação, e terror.
baseia-se na ideia desacreditada de que os animais são apenas ferramentas para uso humano, meios para fins humanos, itens fungíveis e comodidades que podem ser tratadas e dispensadas, consoante o interesse humano.
é desafiada por um novo pensamento moral que sustenta que os seres sencientes não são apenas coisas, objetos, máquinas ou ferramentas, e têm valor em si mesmos e merecem respeito.
é aumentada por uma série de regulamentações e controles que, na realidade, fazem muito pouco para proteger os animais e muitas vezes fazem o inverso.
é justificada pela afirmação tantas vezes repetida de que o interesse humano exige tais experiências, enquanto deve ser questionado se os seres humanos beneficiam do abuso de animais.
BUAV e Cruelty Free CEO International, Michelle Thew, disse: “Congratulamo-nos muito com este novo relatório, que deve impulsionar um novo pensamento ético sobre os animais e questionar alguns dos pressupostos preguiçosos sobre como a pesquisa com animais beneficia os seres humanos. Este relatório independente é um marco no pensamento ético sobre animais e coloca a ética da pesquisa em animais de volta à agenda. “
Os investigadores e académicos são convidados a debater o relatório numa Escola Especial de Verão sobre a Ética do Uso de Animais em Pesquisa na Universidade de Oxford de 26 a 29 julho de 2015.
O relatório completo, o sumário executivo, a lista completa dos signatários e os detalhes sobre a Escola de Verão podem ser encontrados aqui.
Os detalhes sobre a Escola de Verão pode ser encontrada aqui.
O relatório completo pode ser encontrado aqui.
O sumário executivo pode ser encontrada aqui.
A lista completa dos signatários pode ser encontrada aqui.
Para mais informação, contactar Martin Mallon em +44 (0) 20 7619 6978 / +44 (0) 7850 510 955 ou email martin.mallon@buav.org
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Oxford Centre for Animal Ethics
Press Release on Centre´s Report on the Ethics of Animal Experiments de 26.03.2015.
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Normalising the Unthinkable
(26.03.2015)
More than a hundred and fifty academics, intellectuals, and writers, including Nobel Laureate J. M. Coetzee, have backed a new report calling for the de-normalisation of animal experimentation. Titled ‘Normalising the Unthinkable’, the report is the result of a working party of the Oxford Centre for Animal Ethics.
The report finds that ‘The deliberate and routine abuse of innocent, sentient animals involving harm, pain, suffering, stressful confinement, manipulation, trade, and death should be unthinkable. Yet animal experimentation is just that: the ‘normalisation of the unthinkable’. ‘It is estimated that 115.3 million animals are used in experiments worldwide per annum. In terms of harm, pain, suffering, and death, this constitutes one of the major moral issues of our time.’
Comprised of 20 leading ethicists and scientists, the working party concluded that animal experiments are both morally and scientifically flawed. The report of more than 50,000 words is probably the most comprehensive critique of animal experiments ever published.
Commissioned by the BUAV and Cruelty Free International as an independent ethical review, members of the working party are keen to point out that the BUAV in no way influenced its conclusions.
‘The moral arguments in favour of animal testing really don’t hold water’ says Professor Andrew Linzey, co-editor of the report and a theologian at Oxford University. ‘We have looked at the central arguments in official reports and found them wanting. If any of them were morally valid, they would also justify experiments on human beings.’
The report concludes that the ‘normalisation’ of animal experiments:
- flies in the face of what is now known about the extent and range of how animals can be harmed. The issue of the complexity of animal awareness, especially animal sentience (the capacity to experience pain and pleasure), cannot be ignored. Unlike our forebears, we now know, as reasonably as we can know of humans, that animals (notably, mammals, birds, and reptiles) experience not only pain, but also shock, fear, foreboding, trauma, anxiety, stress, distress, anticipation, and terror.
- is based on the discredited idea that animals are just tools for human use, means to human ends, fungible items, and commodities who can be treated and dispensed with as humans think fit.
- is challenged by new moral thinking which holds that sentient beings are not just things, objects, machines, or tools, but have value in themselves and deserve respect.
- is augmented by a range of regulations and controls, which in reality do very little to protect animals and indeed often do the reverse.
- is justified by the oft-repeated assertion that human interest requires such experiments, whereas it has to be questioned whether humans are ever benefited by the abuse of animals.
BUAV and Cruelty Free International CEO, Michelle Thew, said: “We greatly welcome this new report, which should spur on new ethical thinking about animals and question some of the lazy assumptions about how animal research benefits humans. This independent report is a milestone in ethical thinking about animals and puts the ethics of animal research back on the agenda.”
Academics are invited to debate the report at a special Summer School on the Ethics of Using Animals in Research at Oxford on 26-29 July 2015. Details about the Summer School can be found here.
The full report can be found here.
The executive summary can be found here.
The full list of signatories can be found here.
ENDS
For further information, please contact Martin Mallon on +44 (0) 20 7619 6978 / +44 (0) 7850 510 955 or email martin.mallon@buav.org
Notes to editors
- The Oxford Centre for Animal Ethics, founded in 2006 by its director Professor Andrew Linzey, is an independent Centre with the aim of pioneering ethical perspectives on animals through academic research, teaching and publication. The Centre has more than 90 Fellows drawn from a variety of academic disciplines from throughout the world. See www.oxfordanimalethics.com.
- The Centre is an independent think tank, and is not under the aegis, control, or sanction of the University of Oxford.
- Founded in 1898, the BUAV is the world’s leading organisation working to create a world where nobody wants or believes we need to experiment on animals.
- Established by the BUAV, Cruelty Free International is the leading organisation working to end animal testing for consumer products worldwide.
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Oxford Centre for Animal Ethics
Press Release on Centre´s Report on the Ethics of Animal Experiments de 26.03.2015.
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As mais recentes descobertas nas neurociências cognitivas e na pesquisa científica etológica convocam uma nova atitude perante a condição animal.
A “Cambridge Declaration on Consciousness in Non-Human Animals”, proclamada em 7 Julho de 2012, na First Annual Francis Crick Memorial Conference, reconhece “consciência em animais humanos e não-humanos”
A declaração foi escrita por Philip Low, editada por Jaak Panksepp, Diana Reiss, David Edelman, Bruno Van Swinderen, Philip Low e Christof Koch, e assinada pelos participantes na presença de Stephen Hawking, no Churchill College, University of Cambridge.
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Declaração de Cambridge sobre a Consciência
Neste dia, de 7 de julho de 2012, um proeminente grupo internacional de neurocientistas cognitivos, neurofarmacologistas, neurofisiologistas, neuroanatomistas e neurocientistas computacionais, reuniu na Universidade de Cambridge para reavaliar os substratos neurobiológicos da experiência consciente e os comportamentos relacionados em animais humanos e não-humanos. Embora a investigação comparativa sobre este tema seja naturalmente prejudicada pela incapacidade dos animais não-humanos, e muitas vezes humanos, em comunicar de forma clara os seus estados internos, as seguintes observações podem ser afirmadas de forma inequívoca :
— o campo de pesquisa da consciência está em rápida evolução. Foram desenvolvidas em larga escala novas técnicas e estratégias na pesquisa animal humana e não- humana. Consequentemente, os novos dados que se têm tornando disponíveis exigem uma reavaliação periódica de preconceitos anteriormente detidos neste domínio. Os estudos sobre os animais não-humanos têm demonstrado que os circuitos cerebrais homólogos correlacionados com a experiência consciente e a percepção pode ser facilitados seletivamente e interrompidos para avaliar se são de fato necessários para essas experiências. Além disso, novas técnicas não invasivas estão disponíveis para humanos, com vista ao levantamento dos correlatos da consciência.
— os substratos neurais das emoções não parecem limitar-se a estruturas corticais . Na verdade, as redes neurais subcorticais activadas durante os estados afetivos em humanos são também extremamente importantes para a geração de comportamentos emocionais em animais. A excitação artificial das mesmas regiões do cérebro gera comportamento correspondente e estados de sentimento em ambos: seres humanos e animais não-humanos. Onde quer que no cérebro se evoquem comportamentos emocionais instintivos em animais não-humanos, muitos dos comportamentos que se seguem são consistentes com estados de experiência de sentimentos, incluindo os estados internos de gratificação e punição. A estimulação cerebral profunda desses sistemas em seres humanos também podem gerar estados afetivos semelhantes. Os sistemas associados aos afectos estão concentrados em regiões subcorticais onde as homologias neurais abundam. Os animais jovens humanos e não-humanos sem neocórtices mantêm essas funções cérebro-mente . Além disso, os circuitos neurais que suportam estados comportamentais/eletrofisiológico de atenção, sono e tomada de decisões, parecem ter surgido tão cedo na evolução quanto a radiação de invertebrados, sendo evidente em insetos e moluscos cefalópodes ( ex., o polvo) .
— os pássaros no seu comportamento neurofisiológico e neuroanatómico parecem oferecer um caso notável de evolução paralela da consciência. A evidência de níveis de consciência semelhantes à humana tem sido observada de forma mais dramática nos papagaios cinzentos africanos. As redes emocionais e os microcircuitos cognitivos dos mamíferos e das aves parecem ser muito mais homólogos do que se pensava anteriormente. Além disso, foi descoberto que certas espécies de aves exibem padrões de sono neurais semelhantes aos dos mamíferos, incluindo o sono REM e, como foi demonstrado em tentilhões-zebra, padrões neurofisiológicos que previamente se pensou exigirem um neocórtex de mamíferos. Magpies em particular, têm apresentado semelhanças com os seres humanos, os grandes macacos, golfinhos e elefantes em estudos de auto – reconhecimento e espelho.
— nos seres humanos, o efeito de determinados alucinogéneos parece estar associado com uma perturbação do feed-foward cortical e processamento de feedback . As intervenções farmacológicas com compostos com reconhecida capacidade na alteração do comportamento consciente de humanos pode conduzir a perturbações semelhantes no comportamento de animais não- humanos. Nos humanos, há evidências que sugerem que a consciência está relacionada com a atividade cortical, o que não exclui possíveis contribuições do processamento subcortical ou cortical, como na consciência visual. A prova de que os sentimentos emocionais em animais humanos e não-humanos surgem de redes cerebrais subcorticais homólogas, fornecem evidências convincentes para a partilha evolucionária da qualia afectiva primitiva.
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Declaramos o seguinte: “A ausência de um neocórtex não parece impedir um organismo de experimentar estados afectivos. A evidência convergente indica que os animais não- humanos têm os substratos neuroanatómicos , neuroquímicos e neurofisiológicos de estados de consciência, juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. Por conseguinte, o peso da evidência indica que os humanos não são os únicos que possuem os substratos neurológicas que geram consciência. Os animais não- humanos, incluindo todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas , incluindo polvos, também possuem estes substratos neurológicos.”
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Christof Koch (director científico) do Allen Institute of Brain Science durante a proclamação da declaração em 7 de Julho de 2012, na First Annual Francis Crick Memorial Conference que decorreu no Churchill College, Universidade de Cambridge, comenta:
“Talvez a visão mais surpreendente que saiu dos últimos 20 anos de investigação académica sobre a natureza da consciência é que ela pode ser muito mais amplamente compartilhada entre todos os filhos da Natureza do que a maioria de nós pensa. Por consciência, quero dizer a capacidade de sentir algo, qualquer coisa — seja a sensação de um céu azul, uma dor de dentes, o sentimento de tristeza ou a preocupação com um prazo que termina daqui a duas semanas. Na verdade, pode ser possível que todos os animais compartilhem uma certa quantidade mínima de sensibilidade com as pessoas, que todos os animais tenham alguns sentimentos, ainda que primitivos. Os que vivem com animais domésticos, afirmam vigorosamente que os seus cães e gatos experimentam as dores e prazeres da vida. Qualquer pessoa que tenha observado um chimpanzé a fazer caretas ao espelho e em seguida a inspecionar os dentes e a parte traseira, irá conceder-lhe pelo menos uma forma limitada de auto-reconhecimento e de sentimentos de si. (…) Investigações detalhadas de biólogos comportamentais têm demonstrado que muitas outras espécies têm habilidades cognitivas complexas como as que ocorrem em seres humanos, e que estariam associadas com a consciência. Os polvos podem aprender uns com os outros; os corvos, gralhas, papagaios e outras aves podem realizar proezas de resolução de problemas, de percepção e de memorização, e até mesmo as abelhas (com menos de um milhão de células nervosas) podem reconhecer rostos individuais, aprender a navegar com marcas, e escolher um novo local para a colmeia por deliberações e vários dias de dança.”
(tradução ildateresacastro)
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The Cambridge Declaration on Consciousness
On this day of July 7, 2012, a prominent international group of cognitive neuroscientists, neuropharmacologists, neurophysiologists, neuroanatomists and computational neuroscientists gathered at The University of Cambridge to reassess the neurobiological substrates of conscious experience and related behaviors in human and non-human animals. While comparative research on this topic is naturally hampered by the inability of non-human animals, and often humans, to clearly and readily communicate about their internal states, the following observations can be stated unequivocally:
The field of Consciousness research is rapidly evolving. Abundant new techniques and strategies for human and non-human animal research have been developed. Consequently, more data is becoming readily available, and this calls for a periodic reevaluation of previously held preconceptions in this field. Studies of non-human animals have shown that homologous brain circuits correlated with conscious experience and perception can be selectively facilitated and disrupted to assess whether they are in fact necessary for those experiences. Moreover, in humans, new non-invasive techniques are readily available to survey the correlates of consciousness.
The neural substrates of emotions do not appear to be confined to cortical structures. In fact, subcortical neural networks aroused during affective states in humans are also critically important for generating emotional behaviors in animals. Artificial arousal of the same brain regions generates corresponding behavior and feeling states in both humans and non-human animals. Wherever in the brain one evokes instinctual emotional behaviors in non-human animals, many of the ensuing behaviors are consistent with experienced feeling states, including those internal states that are rewarding and punishing. Deep brain stimulation of these systems in humans can also generate similar affective states. Systems associated with affect are concentrated in subcortical regions where neural homologies abound. Young human and non- human animals without neocortices retain these brain-mind functions. Furthermore, neural circuits supporting behavioral/electrophysiological states of attentiveness, sleep and decision making appear to have arisen in evolution as early as the invertebrate radiation, being evident in insects and cephalopod mollusks (e.g., octopus).
Birds appear to offer, in their behavior, neurophysiology, and neuroanatomy a striking case of parallel evolution of consciousness. Evidence of near human-like levels of consciousness has been most dramatically observed in African grey parrots. Mammalian and avian emotional networks and cognitive microcircuitries appear to be far more homologous than previously thought. Moreover, certain species of birds have been found to exhibit neural sleep patterns similar to those of mammals, including REM sleep and, as was demonstrated in zebra finches, neurophysiological patterns, previously thought to require a mammalian neocortex. Magpies in particular have been shown to exhibit striking similarities to humans, great apes, dolphins, and elephants in studies of mirror self-recognition.
In humans, the effect of certain hallucinogens appears to be associated with a disruption in cortical feedforward and feedback processing. Pharmacological interventions in non-human animals with compounds known to affect conscious behavior in humans can lead to similar perturbations in behavior in non-human animals. In humans, there is evidence to suggest that awareness is correlated with cortical activity, which does not exclude possible contributions by subcortical or early cortical processing, as in visual awareness. Evidence that human and non- human animal emotional feelings arise from homologous subcortical brain networks provide compelling evidence for evolutionarily shared primal affective qualia.
We declare the following: “The absence of a neocortex does not appear to preclude an organism from experiencing affective states. Convergent evidence indicates that non-human animals have the neuroanatomical, neurochemical, and neurophysiological substrates of conscious states along with the capacity to exhibit intentional behaviors. Consequently, the weight of evidence indicates that humans are not unique in possessing the neurological substrates that generate consciousness. Non- human animals, including all mammals and birds, and many other creatures, including octopuses, also possess these neurological substrates.”
* The Cambridge Declaration on Consciousness was written by Philip Low and edited by Jaak Panksepp, Diana Reiss, David Edelman, Bruno Van Swinderen, Philip Low and Christof Koch. The Declaration was publicly proclaimed in Cambridge, UK, on July 7, 2012, at the Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and non-Human Animals, at Churchill College, University of Cambridge, by Low, Edelman and Koch. The Declaration was signed by the conference participants that very evening, in the presence of Stephen Hawking, in the Balfour Room at the Hotel du Vin in Cambridge, UK. The signing ceremony was memorialized by CBS 60 Minutes.
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Interessantíssimo, este ensaio, parabéns!