estudos animais / animal studies

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português / english

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As Metamorfoses de Kafka: Reflexões em Torno do Conceito de Animalidade / Kafka’s Metamorphoses: Reflections around the Concept of Animality, Rita Conde

(ensaio / essay – no. IX . 2017-18)

Os académicos não devem considerar-se à parte – conversa com Rod Benisson, a propósito da Minding Animals International Incorporated, da Conferência Minding Animals e dos Estudos Animais / Academics should not consider themselves as apart – interview with Rod Benisson on the Minding Animals International Incorporated, on Minding Animals Conferences and on Animal Studies, Ilda Teresa de Castro

(entrevista / interview – no. V . 2015)

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As Metamorfoses de Kafka: Reflexões em Torno do Conceito de Animalidade

por Rita Conde*

Introdução

O conto mais conhecido de Franz Kafka é provavelmente A Metamorfose. Li-o há muitos anos e nunca mais o esqueci. Os amigos, colegas e professores com quem falei sobre este trabalho partilham a mesma impressão, a de que se trata de um conto singular e sem paralelo na literatura moderna. Depois d’A Metamorfose, seguiram-se O Processo, O Covil, A Muralha da China, O Castelo, Investigações de um cão e Um Relato a uma Academia, todos eles absolutamente únicos. Como afirmou numa entrevista recente a socióloga Maria Filomena Mónica, a maior prova de que a mestria de um autor perdurou no tempo ocorre quando o seu nome dá lugar a um adjectivo, como são os exemplos de dantesco, pessoano, queirosiano, balzaquiano e kafkiano. Diz-se que uma situação é kafkiana quando possui contornos incompreensíveis e absurdos, enredando os que neles se encontram, os quais, esbracejando para se libertarem, apenas conseguem apertar mais as malhas que os prendem. Mais do que colocá-las em situações labirínticas, Kafka consegue mostrar-nos que é sempre possível que as vitimas das circunstâncias piorem voluntariamente a sua própria situação. Tal é o caso de Joseph K., o protagonista d’O Processo, que recusa chamar um advogado quando recebe a notícia da sua acusação (cujo fundamento nunca chega a ser revelado), ridiculariza violentamente o tribunal na sua primeira audiência e entrega-se a devaneios sensuais com a empregada do advogado amigo do seu tio, enquanto estes discutem, no quarto ao lado, o seu caso. Se por um lado, Joseph K. fica obcecado com o processo em que é o acusado, não conseguindo pensar em mais nada e vendo a sua vida desmoronar-se aos poucos, simultaneamente deixado em liberdade mas preso à dúvida (qual é a acusação?), por outro parece não lhe dar séria importância, agindo várias vezes contra o seu próprio interesse, de que são exemplos as atitudes atrás referidas ou quando caminha voluntária e despreocupadamente para a sua morte no final do conto. Joseph K. acaba por ser executado “como um cão”, como declaram as suas últimas palavras. De forma semelhante, Gregor Samsa, a personagem principal d’A Metamorfose, parece não ficar particularmente horrorizado com a sua transformação, mantendo ao longo de quase toda a história a preocupação de apanhar o comboio e cumprir com as suas obrigações no trabalho. Por mais tenebrosas e obscuras que sejam as circunstâncias das personagens de Kafka, elas conseguem sempre dificultar ainda mais as coisas para si próprias.

Apesar da grande popularidade dos contos de Kafka, a sua obra é tida como uma das mais complexas do século XX e tem sido o objecto de vastos estudos críticos. Albert Camus, Jean-Paul Sartre, Walter Benjamin, Theodor Adorno, Maurice Blanchot, Gilles Deleuze e Felix Guattari e Gunther Anthers são alguns dos autores que consultámos para a realização da nossa tese e que concordam unanimemente quanto à complexidade da obra literária do autor checo. Ainda que não seja nossa pretensão declarar que tenhamos conseguido extrair a interpretação mais ampla e completa do conto de Kafka, deixámo-nos conduzir pela expectativa de que ele nos traria claridade sobre os problemas que aqui nos importam – o da animalidade e do humano. Haverá poucos autores de ficção onde se possa encontrar um bestiário tão variado como em Kafka. Nos contos A Metamorfose (1915), Um relato a uma academia (1917), Investigações de um cão (1922), Josefina, a cantora ou o povo dos ratos 1924), ou na criatura Odradek do conto As preocupações de um pai de família (1917), encontramos como protagonistas criaturas híbridas que possuem traços humanos e animais, como são os casos do insecto em A Metamorfose e do macaco em Um relato a uma academia, e outras em que não é sequer claro que tipo de criatura se trata, como é o caso do Odradek.[i] Em Kafka, os animais vêm falar-nos dos humanos. Umberto Eco, em A Obra Aberta, diz-nos que a verdadeira literatura assenta na ambiguidade e na impossibilidade de ser reduzida a uma única interpretação, pois é nessa ambiguidade e nas interpretações deixadas em aberto pelo autor que o leitor constrói o seu próprio livro. É o leitor que detém a chave da obra. Uma obra sem ambiguidade pode constituir um relato factual fascinante, à maneira de uma reportagem jornalística, mas não será literatura se deixar de fora a ambiguidade. Ainda que não possamos nunca apropriar-nos do significado definitivo de uma obra, tal não nos impede de tentar compreendê-la. Cada leitor terá o seu Hamlet, o seu Quixote e o seu Gregor Samsa. Falar-vos-ei do meu, aquele que encontrei na leitura do conto, um homem simples e humilde, demasiado simples e humilde para ser humano.

A Metamorfose de Gregor Samsa

No canto XXXIII de A Divina Comédia, conhecemos Branca Doria, um homem que embora continue a comer, a beber, a dormir e a vestir roupas, está morto e tem o espírito preso no Inferno. É um pouco esta a estranha condição de Gregor Samsa.

«Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto»[ii].

Com aquela que já foi considerada uma das melhores aberturas da literatura moderna, tem inicio A Metamorfose de Franz Kafka. Esta é a história de um vendedor caixeiro-viajante e da sua transformação em insecto. Na verdade, ela não trata propriamente da metamorfose, pois quando o conto tem inicio a transformação já teve lugar. Não é o desenrolar do acontecimento que parece importar, pois sobre ele nada é dito. Nem o leitor, nem o protagonista, nem as restantes personagens sabem o que pode ter causado a metamorfose. Desde logo, o leitor começa por procurar uma causa fantástica qualquer ou sobrenatural que possa explicar este acontecimento insólito. Porém, essa explicação nunca surge e o resto do conto, excluindo o facto da personagem principal estar transformada numa espécie de escaravelho gigante, decorre sem grandes surpresas.

Aparte o incómodo causado pela presença de um animal monstruoso fechado num quarto, toda a família, incluindo Gregor, tenta a todo o custo preservar a “normalidade”, isto é, a dinâmica da vida quotidiana quer sobrepor-se a tudo. A narrativa coloca-nos assim face a dois absurdos notáveis: o primeiro é a ocorrência da metamorfose e o segundo a forma como ela é encarada pelo núcleo familiar, muito especialmente pelo próprio protagonista.

Vendo-se na sua nova condição monstruosa de insecto gigante, Gregor está deveras preocupado em apanhar o comboio e em ir trabalhar.

“Olhou para o despertador que fazia tiquetaque sobre a arca. «Deus do céu!”, pensou ele. Eram seis e meia e os ponteiros avançavam calmamente, até já tinha passado da meia hora, eram quase sete menos um quarto. (…) Mas agora o que devia fazer? O próximo comboio saía às sete; para apanhá-lo teria de se despachar numa correria, e ainda não tinha guardado a colecção na mala, e ele próprio não se sentia mesmo nada fresco nem ágil.»[iii]

Como é que Gregor pode pensar que é possível (ou sequer importante) apanhar o comboio e ir trabalhar como sempre fizera em todos os outros dias da sua vida? A hipótese que queremos defender é a de que Gregor era já, de certa forma, um insecto.

Por um mecanismo semelhante ao das metamorfoses de Ovídio, a identidade orgânica e carnal de uma personagem transforma-se para se adequar à sua identidade espiritual. Numa metamorfose, as formas físicas são livres, plásticas, e adaptam-se aos conteúdos, invisíveis e da ordem da psique, através de um processo ordenador e necessário que une o que estava separado, completando um todo. A metamorfose de Gregor traduz exteriormente um processo interior que já havia sido iniciado há muito tempo e do qual, aparentemente, nem ele próprio se teria apercebido. Ao longo do conto há mesmo uma habituação ao novo corpo estranho que se vai tornando familiar e confortável. A sua nova condição só não o choca porque o grotesco já fazia parte da sua vida e a sua transformação em insecto, um ser rastejante e repugnante aos olhos humanos, vem revelar aquilo que Gregor é.

Todos os contos e romances de Kafka giram em torno de um acontecimento chave. N’A Metamorfose ocorre a transformação de Gregor, n’O Processo Joseph K. é acusado (e executado) sem nunca saber porquê, n’O Castelo K. é chamado ao castelo sem nunca conseguir lá entrar, em Um Relato a uma academia um macaco é capturado e enjaulado no porão de um barco. O leitor acompanha as personagens na busca de um significado para tais acontecimentos, uma busca que, além de nunca produzir o resultado esperado, parece tornar-se na derradeira busca do sentido da existência. A ausência de uma causa para o acontecimento absurdo lança nesses textos uma sombra negra que o leitor contempla com horror: a terrível suspeita de que cada um de nós se encontra à mercê de forças incontroláveis, arbitrárias e inumanas.

A força desestabilizadora dos acontecimentos parece ser ainda mais amplificada pela forma como os protagonistas reagem. Todos eles procuram uma saída, como dizem Deleuze e Guattari. Gregor acaba a desejar a morte, Joseph K. procura ajuda em personagens secundárias que nada têm para lhe oferecer, K. envolve-se nas intrigas dos habitantes da aldeia, e o macaco Red Peter empenha-se em copiar os piores vícios humanos. Nas obras de Kafka não há finais felizes, heróis ou salvações. Em Novembro de 1891, o jovem Kafka escreveu no álbum de um seu amigo de infância as seguintes linhas melancólicas: «Há um vir e um ir / Uma partida e muitas vezes – nenhum regresso.»[iv] e anos mais tarde escreveria ao seu amigo e editor póstumo Max Brod um dos seus aforismos mais conhecidos: «existe esperança mas não para nós». Apesar de tudo o que é conhecido da biografia de Kafka, sempre me pareceu ser um homem de segredos e mistérios. Talvez os seus contos e romances exerçam esse fascínio sobre nós, o de um segredo que quanto mais nos aproximamos mais se distancia. A taxonomia híbrida e incognoscível da criatura Odradek, a transformação súbita de Gregor, a impenetrabilidade do Castelo apesar da sua presença tão próxima e visível (será o castelo uma alegoria sobre a morte?), o crime que impende sobre Joseph K., todos eles são como segredos não revelados e que ciclicamente voltam a ser reinterpretados pelos leitores de Kafka.

É muito significativo que a metamorfose de Gregor seja especificamente localizada na cama do quarto da casa onde vive com os pais e a irmã. Por força do seu trabalho, ele passa longas temporadas em viagem mas este acontecimento dá-se quando ele se encontra em casa. Gaston Bachelard em A Poética do Espaço considera a casa como a metáfora mais complete do que é o humano. Na casa dos Samsa não há humanidade e portanto, nesse ninho, só poderia nascer uma criatura também ela não humana – o insecto. O argumento central de Bachelard é o de que os humanos precisam do abrigo da casa para sonhar, para imaginar, para construírem uma intimidade. São dele as palavras: «A nossa casa é o nosso canto do mundo.» Se o abrigo for bom e seguro, a tempestade lá fora pode até tornar-se agradável e bela de ser contemplada. Mas Gregor não sonha, não tem intimidade, nem está protegido – lê horários de comboios nos escassos tempos livres e de pouco lhe servem as paredes se é no interior da casa que a tempestade troa. A transformação dá-se na cama, lugar de vulnerabilidade, e após «sonhos inquietos». Assoma-nos a esperança de que ele se encontre a sonhar e que tudo não passe de um terrível pesadelo, porém na primeira página chega rápida essa confirmação de que «não era um sonho».

Quem são os Samsa? Gregor Samsa (pronuncia-se Zamza) é filho de pais da classe média de Praga e tem uma irmã mais nova. Vivem num apartamento pago por Gregor que, aliás, custeia todas as despesas da família, incluindo os salários da criada e da cozinheira que servem na casa. O pai, gordo e de modos rudes, perdeu todo o dinheiro que tinha e deve somas elevadas a uma empresa, na qual Gregor é caixeiro-viajante como forma de pagar as dívidas do pai. Desde que Gregor se empregou, o pai nunca mais voltou a trabalhar. Toma longos pequenos-almoços que chegam a durar várias horas, enquanto lê os jornais do dia. A mãe de Gregor é asmática e ocupa-se apenas de pequenas tarefas com a irmã, tais como costurar, já que todo o trabalho doméstico na cozinha e no resto da casa é executado pelas duas empregadas. Grete, a irmã de Gregor, tem dezassete anos, veste com elegância, dorme até tarde e toca violino sem grande talento. Os Samsa são gente de gostos vulgares, apenas interessados no lado material da vida.

Como já referimos, o que importa neste conto não é o processo da transformação, pois esse processo ocorre antes de a história ter início. Não desejamos contudo, ao propor a hipótese de que Gregor era já um insecto antes de se transformar, enfraquecer o absurdo do acontecimento. A ausência de explicação para esse acontecimento na narrativa tem desencadeado inúmeras interpretações e não é nossa pretensão dar o assunto por encerrado. À luz da nossa leitura, o acontecimento permanece igualmente perturbador se houve alguém que se anulou e se apagou ao ponto de se tornar noutra coisa já não plenamente humana. Quanto ao que poderá significar ser-se “plenamente humano”, suspendemos essa interrogação para mais tarde.

Regressando ao fio da narrativa, eis que um dia ocorre algo espantoso: Gregor está transformado num insecto gigante. Porém, a transformação é apenas no corpo, que agora tem carapaça, patas, a voz substituída por um chiar incompreensível e um par de asas que nunca chegam a ser usadas. No seu espírito, continuam presentes as preocupações do humilde caixeiro-viajante. Gregor tem uma aparência repugnante e ninguém deseja vê-lo ou aproximar-se dele. É deixado à sua sorte. Os membros da família revezam-se para que nunca ninguém fique em casa a sós com a criatura. A preocupação de faltar ao emprego é comum a todos eles: Gregor espera que a transformação seja o resultado de uma doença passageira, que a alteração da voz se deva a uma gripe, até que finalmente, com o passar das semanas, o resto da família procura alternativas para fazer face às despesas. Ocupam-se dele apenas na medida do necessário, deixando-lhe os restos das refeições e retirando a mobília do quarto. Também o gerente da empresa vem confirmar o papel de servo obediente de Gregor, invadindo a residência do empregado, procurando justificações para a falta ao trabalho, a primeira em cinco anos. Gregor não é levado ao hospital nem chega a ser visto pelo médico que, apesar de ser chamado, é mandado sair por razões que não se chegam a perceber. Torna-se um estorvo enorme, enxotado como lixo para dentro do quarto pela bengala nas mãos do pai. À primeira vista, tudo indica que a figura mais cruel na casa é o pai, que bate à porta do quarto naquela manhã de punhos fechados, grita com o filho, e arremessa, semanas mais tarde, a maçã que ficará cravada no dorso de Gregor até ele morrer. Na realidade, é Grete quem causa mais dor ao irmão, precisamente por ser a única pessoa que até ali mostrava algum carinho por ele. Depois da metamorfose, ela culpa-o da miséria da família e decide que têm de se ver livres dele, mostrando querer substituir o irmão no papel de protectora dos pais.

«Ele tem de se ir embora», exclamou a irmã, «é a única maneira, pai. Tens simplesmente de livrar-te da ideia de que aquilo é o Gregor. (…) Se fosse Gregor, há muito que teria percebido que as pessoas não podem viver juntamente com um animal assim, e teria partido de sua livre vontade. Já não teríamos irmão mas poderíamos continuar a viver e honrar a sua memória. Mas este animal persegue-nos, expulsa os inquilinos, claramente quer tomar conta de todo o apartamento e deixar-nos a dormir na rua.»[v]

A substituição de Gregor por Grete é consumada no final do conto quando, após a morte de Gregor, os três saem para um passeio revigorante sinalizando a melhoria do humor da família. Será agora a vez de Grete ser sacrificada e casar com quem os pais determinarem, um bom marido que possa sustentá-los também. É magnífica a ironia de Kafka quando faz referência às “boas intenções” do casal Samsa, tendo em conta que nenhum dos dois demonstrou ter sido alguma vez tocado pela compaixão do amor paternal.

Se existe na opressão a possibilidade da revolta e da desobediência, esses são precisamente os ímpetos que falham em Gregor. Ele não é só oprimido, ele está indiferente a essa opressão, pelo que não existe nenhuma possibilidade de a sua condição de oprimido se converter em condição de homem livre. A indiferença é um espaço vazio de emoção e não pode ser convertida em nada. É justamente aqui que situamos a nossa hipótese de que Gregor era já um insecto antes da transformação. Ele está alheado do seu próprio alheamento. Se nos cingirmos estritamente ao conteúdo da narrativa, não há nenhum indício de que Gregor tenha alguma vez questionado a forma como era tratado antes da transformação. Não é portanto surpreendente o tratamento frio e distante que sofre após a metamorfose, porque o grotesco já estava instalado há muito na casa dos Samsa. O grotesco reproduz-se ali sem esforço, naturalmente, como um hábito de família. A transformação de Gregor vem dar uma imagem à sua essência pouca, criatura tímida e inofensiva que se alimenta de migalhas e restos como as baratas domésticas, que não deseja ser vista nem incomodar. A possibilidade de uma libertação expressa-se no seu desejo de morrer, um desejo fixado no nada e que nos parece ser a continuação natural da indiferença.

Do nosso ponto de vista, o conto de Kafka não tem de ser lido apenas como a história da metamorfose aberrante de um homem. Se na tradição mitológica clássica, muito particularmente n ́As Metamorfoses de Ovídio, as aparências do mundo natural são disfarces e máscaras de seres divinos que se metamorfoseiam a si mesmos e aos homens, em Kafka a questão é mais complexa pois a metamorfose de Gregor não é completa, ele é um ser híbrido que pensa como o Gregor de sempre num corpo novo de insecto. A metamorfose dá-se apenas no corpo e não no espírito. Como começámos por afirmar, são legítimas todas as leituras de uma obra literária e não pretendemos arruinar de forma nenhuma qualquer outra interpretação que deste conto possa ser feita. Admitimos que a metamorfose de Gregor possa ser vista de uma outra maneira, como uma questão de pele e de superfície e que embora de uma enorme violência e amplitude não conseguiu atingir o espírito humano isolado no seu interior, indestrutível e independente da circunstância da carne. Porém, a nossa análise conduz-nos a outro caminho. Gregor não necessitaria de se ver transformado em insecto para que vivesse já como tal, fosse tratado como tal, comportasse-se como tal. A transformação do seu corpo revelou finalmente a natureza do seu espírito. Gregor era uma barata sonhando que era um homem.

A Metamorfose apresenta-nos mais que uma narrativa, esta obra dá-nos uma lenda – a lenda de um homem que incorporou em si, na forma mais completa e extrema, uma das mais baixas possibilidades do humano. O’Neill exprimiu-o exemplarmente[vi]:

«O medo vai ter tudo Quase tudo
E cada um por seu caminho Havemos todos de chegar Quase todos
A ratos.
Sim
A ratos.»

Quando a hora da sua morte se aproxima, nem tão pouco nesse momento Gregor lamenta ter faltado à chamada do seu eu. O insecto apoderou-se de tudo, do espírito e da carne. A metamorfose apanha-o desprevenido, não porque Gregor ainda não realizou os seus sonhos ou porque ainda não se tinha dado o achamento metafísico de Gregor por Gregor, mas porque a transformação vem atrasá-lo na tarefa de tomar o comboio das cinco da manhã.

A pergunta que nos encaminha para a parte seguinte tem consequências íntimas e políticas: se Gregor não era plenamente humano, o que lhe faltava então para sê-lo? Atendendo às variações que já conheceu esse projecto exaltante de uma existência humana, de um lado encontrando-se uma inclinação universal e persistente para Deus e do outro a extrema violência dos bombistas-suicidas e de toda a espécie de assassinos, o humano apresenta-se como a criatura da metamorfose por excelência, o ser das muitas formas.
O que é então ser-se humano? Terminamos esta primeira parte propondo que o humano é, antes de mais, o lugar onde se formula essa pergunta.

notas

[i] Odradek é uma criatura peculiar, sem taxonomia definida, um misto de objecto e de animal, que consegue falar mas que permanece muitas vezes em silêncio. Com a forma de uma estrela plana, pode erguer-se e rolar sobre si próprio e parece ser a parte restante de um todo do qual se perdeu ou separou. Vários autores debruçaram-se sobre o significado de Odradek, tais como Slavoj Zizek ou Walter Benjamin.

[ii] Franz Kafka, A Metamorfose, Lisboa: Relógio d’Água, 2005, tradução de Isabel Castro Silva, prefácio de Vladimir Nabokov, p. 69.

[iii] Franz Kafka, A Metamorfose, p. 72

[iv] Do inglês: There is a coming and a going / A parting and often – no returning. Citado pelo Professor Hugo S. Bergman, amigo de infância de Kafka, no texto de introdução do catálogo da exposição sobre Franz Kafka na Jewish National and University Library, Israel, Abril de 1969. Aqueles álbuns eram livros oferecidos aos jovens onde familiares e amigos escreviam dedicatórias

[v] Franz Kafka, A Metamorfose, p. 132.

[vi] “O Poema Pouco Original do Medo”, in Alexandre O’Neill – Poesias Completas 1951/1983, Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1984.

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*Rita Conde – licenciada em Linguística e a terminar a tese de Mestrado em Ciências da Comunicação / Graduate in Linguistics, Post-Graduate in Information Sciences, Post-Graduate in Communication Sciences, completing her Master’s thesis about Kafka.

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Os académicos não devem considerar-se à parte

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Conversa com Rod Benisson*, a propósito da Minding Animals International Incorporated, da Conferência Minding Animals e dos Estudos Animais

por Ilda Teresa de Castro

No domínio transdisciplinar dos Estudos Animais, a Minding Animals International Incorporated trabalha para promover o desenvolvimento dos Estudos Animais a nível internacional e para ajudar a estabelecer protecções legais e morais para todos os animais não-humanos. Tem como patronos, o Professor e Prémio Nobel da literatura em 2003, John Maxwell Coetzee, autor da obra ficcional The Lives of Animals (1999), mais tarde integrada em Elizabeth Costello (2003);  Jill Robinson MBE, pioneira na defesa animal na Ásia desde 1985 e amplamente reconhecida como especialista mundial na cruel indústria dos ursos, fundou a Animals Asia em 1998; e o Professor Peter Singer, filósofo ético, autor de Libertação Animal (1975), presidente da Associação Internacional de Bioética, e do Grande Ape Project, um esforço internacional para obter os direitos básicos para os chimpanzés, gorilas e orangotangos.

A Minding Animals International Incorporated (MAI) apresenta como finalidade e objetivos principais: reavaliar a relação entre os movimentos dos animais e do ambiente à luz das alterações climáticas e de outras ameaças e preocupações conjuntas; analisar a forma como os seres humanos identificam e representam os animais não-humanos na arte, literatura, música, ciência, meios de comunicação e no filme; analisar de que modo, ao longo da história, a objectificação (coisificação) dos animais não-humanos e da Natureza, na ciência e na sociedade, na religião e na filosofia, tem levado ao abuso dos animais não-humanos e como isso tem sido interpretado e avaliado; estudar como a vida dos seres humanos e dos seus companheiros não-humanos domesticados estão interligadas, e como a ciência, a medicina humana e a veterinária, utilizam essas conexões importantes; investigar como o estudo dos animais e da sociedade pode informar melhor tanto o estudo científico dos animais e a comunidade activista e legal (advocacia); quanto como a ciência e o activismo comunitário e a advocacia, podem informar o estudo académico de animais não-humanos e a sociedade.

A Conferência Minding Animals (MAC), como conceito, pretende fazer avançar a transdisciplina emergente dos Estudos Animais (também conhecidos como Estudos Humanos Animais, Animais e Sociedade, e Estudos Críticos Animais), tanto na academia quanto na comunidade em geral. No sentido de consolidar a sua transdisciplinaridade, as conferências MAC envolvem as ciências e as humanidades, as advocacias do ambiente e dos animais, e procuram envolver estas advocacias com as burocracias governamentais e as instituições de ensino superior. Estas conferências são realizadas a cada três anos em diferentes instituições de ensino superior.

No seguimento da Conferência Minding Animals (MAC3) que teve lugar em Delhi em Janeiro último, na Jawaharlal Nehru University (JNU), coloquei algumas questões a Rod Benisson, um dos fundadores da organização.

Rod, começo por perguntar, o que é a Minding Animals International Incorporated?

A Minding Animals International Incorporated (MAI) abre caminho ao campo transdisciplinar dos Estudos Animais em todas as suas variantes – os Estudos Animais, a Antrozoologia, os Estudos Animais Criticos, e assim por diante – no sentido de sensibilizar para a protecção dos animais. Neste contexto, a protecção dos animais incorpora o ambientalismo, a libertação animal, os direitos dos animais, a protecção dos animais selvagens, o bem-estar animal e a justiça dos animais (não necessariamente por esta ordem).

Qual o principal enfoque da MAI e como funciona?

A MAI tem por objectivo facilitar o discurso entre as várias áreas deste campo transdisciplinar em rápido desenvolvimento – que integra as artes e a literatura, os estudos feministas e queer, o direito e as políticas públicas, as ciências humanas e os estudos culturais – por forma a melhorar o estatuto dos animais não-humanos e decrescer a sua exploração. Como tal, o MAI facilita a investigação em Estudos Animais enquanto condutor de políticas e acções não-governamentais.

A estrutura e a acção da MAI funcionam como uma ponte entre a academia e a advocacia …

Sim, a MAI actua como uma ponte entre a academia e a advocacia, e é uma rede de mais de 3000 académicos, artistas, activistas e advogados, dedicados ao estudo e protecção de toda a vida planetária através do avanço dos Estudos Animais. É organizada num Conselho de nove directores, e tem em funcionamento vários Comités Consultivos.

Integra também vários grupos que actuam em diferentes partes do mundo, incluindo a Austrália, a África do Sul e toda a Europa, nomeadamente a Alemanha, Dinamarca, Noruega e Itália. O MAI está também incorporado no estado norte-americano de Delaware e é isento, ao abrigo do imposto de renda federal dos Estados Unidos, sob a secção 501 (com) (3) do Internal Revue Code. Como tal, e como instituição de caridade oficial, todas as doações feitas ao MAI Inc. nos EUA se qualificam a receber dedutibilidade fiscal.

A MAC3, em Nova Delhi, tem sido muito participada, com cerca de 200 delegados de 30 países. Qual a importância da escolha da Índia para este terceiro encontro e qual a relação estabelecida com as escolhas anteriores?

É importante para a Minding Animals Internacional mover-se em redor do globo. Foi uma decisão tomada pelo Conselho do MAI que a conferência tri-anual, sendo viável, seja realizada em continentes e culturas diferentes. Newcastle foi escolhida por ser a localização do fundador da organização, Utrecht foi a escolha de 2012, e Nova Delhi a de 2015.

Durante o encontro do Conselho do MAI em Delhi, foram oficialmente aprovados grupos internacionais do Minding Animals, na China, França, México, Nova Zelândia, USA e Reino Unido. Que mais valias podem trazer aos Estudos Animais, considerando a disseminação de ideias e de actividades?

A Minding Animals Internacional considera o apoio ao desenvolvimento de grupos nacionais de Estudos Animais, parte integrante do desenvolvimento dos Estudos Animais como transdisciplina crescente e de transição.

Além destes grandes encontros tri-anuais, a MAI apoia a realização de conferências e seminários em universidades de todo o mundo. Será o caso em Abril, em Birmingham, Inglaterra, em Junho, em Erlagen, na Alemanha, em Setembro, em Stavanger, Noruega e em Outubro, em Lisboa, Portugal. Como perspectiva a evolução do interesse nos Estudos Animais por parte da academia desde a fundação do MAI?

O MAI espera ter sido essencial para o desenvolvimento dos Estudos Animais enquanto campo transdisciplinar. Temos assistido ao desenvolvimento exponencial dos Estudos Animais desde a fundação do MAI após a primeira Conferência Minding Animals, em Newcastle, em 2009 (que era, na verdade, também a 3ª Conferência de Estudos Animais na Austrália).

No domínio dos Estudos Animais, qual a importância da construção de relações entre o mundo académico e o activismo, os decisores políticos e a sociedade em geral?

Os académicos não devem considerar-se à parte da sociedade, mas sim, uma parte dela. A MAI vê o desenvolvimento dos Estudos Animais como um campo académico vital para o activismo e desenvolvimento de políticas, e para a sociedade de um modo geral.

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Dr Rod Benisson, fundador e presidente do conselho da Minding Animals, esteve envolvido na protecção animal desde o final da década de 1970, das linhas mais recuadas até à imersão profunda no activismo pelos direitos animais. Académico durante 13 anos, agora administra uma equipa dedicada de cientistas ambientais numa empresa de engenharia e consultoria ambiental, com base no Hunter Valley, na costa leste da Austrália. A sua tese de doutoramento intitulada Inclusão Ecológica examinou as inter-relações que existem entre animais humanos e não-humanos, com especial atenção para o caráter histórico dessas inter-relações. Tem um forte interesse na intersecção da protecção dos animais e do ambiente, nomeadamente na razão pela qual alguns animais humanos visualizam alguns animais não-humanos e plantas como pragas ferozes, ervas daninhas ou invasivas, como estando de algum modo “fora do lugar”.

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Academics should not consider themselves as apart

Interview with Rod Benisson* on the Minding Animals International Incorporated, on Minding Animals Conferences and on Animal Studies.

by Ilda Teresa de Castro

In the transdisciplinar domain of Animal Studies, Minding Animals International Inc. works to further the development of animal studies internationally and to help establish legal and moral protections for all nonhuman animals. They have three prominent Patrons, Professor John Maxwell Coetzee, 2003 Nobel Price in Literature, author of The Lives of Animals (1999) a fictionalized lecture, later absorbed into Elizabeth Costello (2003); Jill Robinson MBE, a pioneer of animal welfare in Asia since 1985, widely recognised as the world’s leading expert on the cruel bear bile industry, she founded Animals Asia in 1998; and Professor Peter Singer, ethical philosopher author of Animal Liberation (1975), President of the International Association of Bioethics, and of The Great Ape Project, an international effort to obtain basic rights for chimpanzees, gorillas and orangutans.

Minding Animals International Incorporated (MAI) present as main purpose and objectives: to reassess the relationship between the animal and environmental movements in light of climate change and other jointly-held threats and concerns; to examine how humans identify and represent nonhuman animals in art, literature, music, science, and in the media and on film; how, throughout history, the objectification of nonhuman animals and nature in science and society, religion and philosophy, has led to the abuse of nonhuman animals and how this has since been interpreted and evaluated; to examine how the lives of humans and companion and domesticated nonhuman animals are intertwined, and how science, human and veterinary medicine utilise these important connections; how the study of animals and society can better inform both the scientific study of animals and community activism and advocacy; and how science and community activism and advocacy can inform the academic study of nonhuman animals and society.

The Minding Animals Conference (MAC) as a concept was devised to advance the emerging transdiscipline of Animal Studies (also known as Human Animal Studies, Animals and Society, and Critical Animal Studies) both within the academy and the broader community.  To build on its transdisciplinarity, MACs engage the sciences and the humanities, environmental and animal advocacies, and each MAC will strive to engage advocacies with government bureaucracies and tertiary institutions.  Each conference is held every three years at various tertiary institutions.

Following the Minding Animals Conference (MAC3) held in Delhi last January, in the Jawaharlal Nehru University (JNU), I ask some questions to Rod Benisson, one of the founders of the organization.

Rod, thank you for this interview. May I ask you what is the Minding Animals International Incorporated?

Minding Animals International Incorporated (MAI) provides an avenue for the transdisciplinary field of Animal Studies in all its guises (Human Animal Studies, Anthrozoology, Critical Animal Studies and so on) to be more responsive to the protection of animals.  It is recognised that animal protection in this context encapsulates environmentalism, animal liberation, animal rights, wildlife protection, animal welfare and animal justice (in no particular order of importance).

Which is the main focus of the MAI and how it works?

MAI aims to enable discourse between the various interests (from the arts, literature, feminist studies, queer studies, law and public policy, to the humanities and cultural studies) within this rapidly developing transdisciplinary field in ways that will improve the status of non-human animals and alleviate nonhuman animal exploitation.  As such, MAI facilitates research in Animal Studies as a conduit of non-governmental politics and action.

The structure and action of the MAI is a bridge between academia and advocacy …

Yes. MAI acts as a bridge between academia and advocacy and is a network of more than 3,000 academics, artists, activists and advocates, dedicated to the study and protection of all planetary life through the advancement of Animal Studies. Is organised by a Board of nine Directors, and has several functioning Advisory Committees. Minding Animals also has several groups operating in various parts of the globe, including Australia, Southern Africa and across Europe, including but not limited to Germany, Denmark, Norway and Italy. MAI is also an incorporated body in the US State of Delaware and is exempt under the US Federal Income Tax under Section 501(c)(3) of the Internal Revenue Code.  As such, and as an official charity, all donations made to MAI Inc. in the USA qualify to receive tax deductibility.

The MAC3 is well attended, with about 320 delegates from 35 countries. Why the choice of India for this third meeting and what the relationship established with previous choices in Newcastle, Australia the first and in Utrecht, the second?

It is important for Minding Animals International to move around the globe – there was a decision made by the Board to move the tri-annual conference to a different continent and culture as was often feasible.  Newcastle was chosen as it was where the founder of the organisation was located, Utrecht provided the winning 2012 bid, and New Delhi won the 2015 bid.

During the meeting of the Board of MAI that occur in the MAC3, a number of Minding Animals Groups were officially approved, included India, China, France, Mexico, New Zealand, USA and UK. What kind of changes it may take to the Animal Studies considering the spread of ideas and activities?

Minding Animals International considers the development of national based Animal Studies support groups as integral to the development of Animal Studies as growing and transitional transdiscipline.

In addition to these major meetings, the MAI supports the holding of conferences and seminars in universities all over the world, as will be the case in April in Birmingham, England, in June in Erlagen, Germany, in September in Stavanger, Norway, and in October in Lisbon, Portugal. What do you think is the evolution of interest in Animals Studies by the academia since the foundation of MAI?

MAI hopes that it has been integral to the development of Animal Studies as a transdisciplinary field.  The organisation has seen the exponential development of animal studies even since its foundation after the first MA Conference in Newcastle in 2009 (which was in fact also the 3rd Australian Animal Studies Conference).

In the field of Animal Studies, how important can be to build relations between academia on one hand and activism, policy makers and society at large on the other hand?

Academics should not consider themselves as apart from society, but a part of it. MAI sees the development of Animal Studies as an academia field as vital for activism, policy development and for society, more generally.

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Dr Rod Benisson, founder and chair of the board of Minding Animals has been involved in animal protection issues since the late 1970s, from the sidelines to being deeply immersed in animal rights activism. He was a sessional academic for 13 years and now manages a dedicated and tight-knit team of environmental scientists in an engineering and environmental consulting firm based in the Hunter Valley on Australia’s eastern seaboard. His doctoral thesis was entitled Ecological Inclusion and examined the interrelationships that exist between human and nonhuman animals, with particular attention drawn to the historical nature of those interrelationships. He has a strong interest in the intersection of animal and environmental protection, particularly the rationale of why some human animals view some nonhuman animals and plants as pests, feral, weeds or invasive, as being somehow ‘out of place’.

Ano II. Número V. Primavera 2015. Year II . Number V . Spring 2015

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The Rise (and Fall) of Critical Animal Studies Ascensão (e Queda) da Crítica em Estudos Animais por / by Steven Best

“The rapid surge in animal studies programs, moving it from the margins to the mainstream, is both laudable and lamentable. For as animal studies is a potential force of enlightenment and progressive change in public attitudes and policies toward nonhuman animals, its academic proponents can only advance it within tight institutional constraints and intensive normalizing regimes that frequently demand conformity, “neutrality”, disengaged detachment, and activism within narrowly accepted limits (…)”

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Bonobos foram pela primeira vez documentados usando antigas ferramentas pré-agrícolas, quebrando ossos e usando lanças como armas de ataque.

Os biólogos documentaram grupos de bonobos realizando ações complexas para extrair alimentos – uma característica que tem sido até agora considerada como uma vantagem evolutiva exclusiva dos pré-humanos arcaicos.

Data : 30 Novembro 2015

Fonte : Universidade de Haifa

Pela primeira vez, um estudo científico observou bonobos (uma raça análoga aos chimpanzés), fazendo uso sofisticado de antigas ferramentas pré-agrícolas de um modo semelhante ao que até agora tem sido considerada prerrogativa de hominídeos pré-humanos arcaicos e outros membros do género Homo. Entre outras conclusões, um bonobo foi observado pela primeira vez a fazer e usar lanças num ambiente social com a finalidade de ataque e defesa. “Eu acredito que este estudo vai alterar os nossos preconceitos culturais sobre as capacidades inerentes e potenciais dos bonobos e chimpanzés”, diz Itai Roffman do Instituto de Evolução da Universidade de Haifa, que realizou o estudo (enquanto destinatário da Adams Fellowship da Academia Nacional de Ciências e Humanidades de Israel).

mais info aqui

video do estudo :

preparation and use of varied natural tools for extractive foraging by bonobos

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© Itai Roffman

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Bonobos documented for first time using ancient pre-agricultural tools, breaking bones, and using spears as attack weapons

Biologists have documented groups of bonobos performing complex actions to extract food — a characteristic that has hitherto been regarded as an exclusive evolutionary advantage of archaic pre-humans.

Date: November 30, 2015

Source: University of Haifa

For the first time, a scientific study has observed bonobos (an analogous race to chimpanzees) making sophisticated use of ancient pre-agricultural tools in a manner similar to that which has hitherto been considered the prerogative of archaic pre-human hominins and other members of the Homo genus. Among other findings, a bonobo was observed for the first time making and using spears in a social setting for the purpose of attack and defense. “I believe that the current study will break down our cultural hang-up as humans concerning the inherent capabilities and potential of bonobos and chimpanzees,” says Itai Roffman of the Institute of Evolution at the University of Haifa, who undertook the study (as a recipient of the Adams Fellowship from the Israel National Academy of Sciences and Humanities).

more info here

video of the study :

preparation and use of varied natural tools for extractive foraging by bonobos

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Peixes podem mostrar febre emocional: foi induzida hipertermia pelo stress em peixes-zebra

 

Saber se os peixes são seres sensíveis continua a ser uma questão não resolvida e controversa. Entre as características que se pensa reflectirem um nível baixo de sensibilidade nos peixes, está a incapacidade de mostrarem hipertermia induzida por stress (SIH) – um aumento transitório da temperatura corporal em resposta a uma variedade de factores de stress. Isto é, uma resposta de febre real, muitas vezes referida como “febre emocional’. Tem sido sugerido que a capacidade de manifestar febre emocional evoluiu apenas em amniotes (mamíferos, aves e répteis), associada com a evolução da consciência nestes grupos. De acordo com este ponto de vista, a falta de febre emocional nos peixes reflete uma falta de consciência. Neste artigo, relatamos um estudo no qual (…) peixe-zebra tem claramente a capacidade de mostrar febre emocional. Embora a ligação entre emoção e consciência ainda esteja em discussão, esta descoberta remove um argumento fundamental para a falta de consciência em peixes.

 

Publicado 25 Novembro 2015.DOI: 10.1098/rspb.2015.2266 artigo aqui . Zebrafish-aquarium.--011

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Fish can show emotional fever : stress-induced hyperthermia in zebrafish

 

Whether fishes are sentient beings remains an unresolved and controversial question. Among characteristics thought to reflect a low level of sentience in fishes is an inability to show stress-induced hyperthermia (SIH), a transient rise in body temperature shown in response to a variety of stressors. This is a real fever response, so is often referred to as ‘emotional fever’. It has been suggested that the capacity for emotional fever evolved only in amniotes (mammals, birds and reptiles), in association with the evolution of consciousness in these groups. According to this view, lack of emotional fever in fishes reflects a lack of consciousness. We report here on a study in which six zebrafish groups with access to a temperature gradient were either left as undisturbed controls or subjected to a short period of confinement. The results were striking: compared to controls, stressed zebrafish spent significantly more time at higher temperatures, achieving an estimated rise in body temperature of about 2–4°C. Thus, zebrafish clearly have the capacity to show emotional fever. While the link between emotion and consciousness is still debated, this finding removes a key argument for lack of consciousness in fishes.

 

Published 25 November 2015.DOI: 10.1098/rspb.2015.2266

 

article here

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Bird brain? Birds and humans have similar brain wiring

“A researcher from Imperial College London and his colleagues have developed for the first time a map of a typical bird brain, showing how different regions are connected together to process information. By comparing it to brain diagrams for different mammals such as humans, the team discovered that areas important for high-level cognition such as long-term memory and problem solving are wired up to other regions of the brain in a similar way. This is despite the fact that both mammal and bird brains have been evolving down separate paths over hundreds of millions of years.”

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photo Xavier Allard

You may have more in common with a pigeon than you realise, according to new research

(17 July 2013)  Imperial College London

Professor Murray Shanahan: “Birds have been evolving separately from mammals for around 300 million years, so it is hardly surprising that under a microscope the brain of a bird looks quite different from a mammal. Yet, birds have been shown to be remarkably intelligent in a similar way to mammals such as humans and monkeys.”
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Onur Güntürkün, Martin Wild, Toru Shimizu, Verner P. Bingman, Murray Shanahan. Large-scale network organization in the avian forebrain: a connectivity matrix and theoretical analysis.

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Frontiers in Computational Neuroscience, 2013; 7 DOI: 10.3389/fncom.2013.00089

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A Revolution in Our Understanding of Chicken Behavior

“What we’ve learned about the avian brain and behavior in just the last 15 years contradicts hundreds of years of misinformed views about chickens and other birds. Much of what was previously thought to be the exclusive domain of human / primate communication, brain and cognitive function, and social behavior is now being discovered in chickens and other birds. It’s nothing short of a revolution in our understanding of chickens!”

 

by Robert Grillo

 

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The Chicken Challenge – What Contemporary Studies Of Fowl Mean For Science And Ethics

by Carolynn L. Smith , Jane Jonhson (August, 2012)

“abstract – Studies with captive fowl have revealed that they possess greater cognitive capacities than previously thought. We now know that fowl have sophisticated cognitive and communicative skills, which had hitherto been associated only with certain primates. Several theories have been advanced to explain the evolution of such complex behavior. Central to these theories is the enlargement of the brain in species with greater mental capacities. Fowl present us with a conundrum, however, because they show the behaviors anticipated by the theories but do not have the expected changes in the brain. Consequently fowl present two challenges of interest to us here. One is a scientific challenge to explain their remarkable capabilities. The other is an ethical challenge regarding our treatment of animals with higher cognitive skills”

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Descobertos nas aves os fundamentos da empatia

 

The foundations of empathy are found in the chicken

 

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photo Marj Beach

 

Estudo sobre as mentes de galinhas domésticas, realizado na Universidade de Bristol, pelo grupo de pesquisa do Bem-Estar e Comportamento Animal, da Faculdade de Ciências Veterinárias, financiado pela Iniciativa Welfare BBSRC Animal, e publicada online na revista Proceedings da Royal Society B (http://rspb.royalsocietypublishing.org/)

 

Este foi o primeiro estudo a demonstrar que as aves possuem um dos importantes atributos que sustentam a empatia, e o primeiro a utilizar métodos comportamentais e fisiológicos para medir essas características nas aves.

 

A study by academics at the University of Bristol’s Animal Welfare and Behaviour research group in the School of Veterinary Sciences, funded by the BBSRC Animal Welfare Initiative, published online in the Proceedings of the Royal Society B (http://rspb.royalsocietypublishing.org/).

 

The study is the first to demonstrate that birds possess one of the important attributes that underpins empathy, and the first study to use both behavioural and physiological methods to measure these traits in birds.

 

(9 March 2011) in Bristol University

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India Bans Animal Dissecation on Universities

Índia Acaba com a Dissecação Animal nas Universidades

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“In an unprecedented move aimed at removing cruelty from higher education, India has banned dissection and experimentation on animals at the nation’s universities. Instead, students will learn about anatomy through humane alternatives, like computer simulators that replicate the experience without requiring any animals be killed.

According to an estimate from PETA India, the ban will save the lives of 19 million animals every year.

India’s University Grants Commission (UGC), which ordered an immediate end to training methods lethal to animals in both undergraduate and postgraduate programs, says the decision came about over concerns that too many animals were being taken from the wild.”

Stephen Messenger (7 August 2014) in The Dodo

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Polvo Fêmea Protege Os Seus Ovos Durante 53 Meses. Depois, Morre.

Octopus Cares For Her Eggs For 53 Months, Then Dies.

by / por Ed Yong

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Graneledone boreopacifica caring for her eggs in Monterey Canyon (MBARI, 2007)

“For many a female octopus, laying eggs marks the beginning of the end. She needs to cover them and defend them against would-be predators. She needs to gently waft currents over them so they get a constant supply of fresh, oxygenated water. And she does this continuously, never leaving and never eating.

When the eggs hatch, she dies, starving and exhausted. As biologist Jim Cosgrove says, “No mother could give more”.”

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in Deep-Sea Octopus (Graneledone boreopacifica) Conducts the Longest-Known Egg-Brooding Period of Any Animal

article research by Bruce Robison, Brad Seibel, Jeffrey Drazen

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Griffin o papagaio cinza parece entender os benefícios da partilha

Um estudo que investiga a capacidade dos papagaios cinzentos compreenderem a noção de partilha sugere que eles possam aprender os benefícios da reciprocidade.

 

publicado por Marie Daniels – PR Officer da Universidade de Lincoln, em 26 de Fevereiro de 2014.

 

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Griffin the grey parrot appears to understand benefits of sharing

 

 

A study into whether grey parrots understand the notion of sharing suggests that they can learn the benefits of reciprocity.

 

published by Marie Daniels – PR Officer, University of Lincoln on 26th February 2014.

 

The team: Franck Péron, Luke Thornberg, Brya Gross, Suzanne Gray, Irene M. Pepperberg. Human-grey parrot (Psittacus erithacus) reciprocity: a follow-up study. Animal Cognition. DOI 10.1007/s10071-014-0726-3

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Elefantes asiáticos ( Elephas maximus ) tranquilizam os outros que se encontram em perigo

“O contato direccionado de espectadores não envolvidos para com os outros em perigo, muitas vezes chamado de consolo, é raro no reino animal, e até agora só demonstrado nos grandes macacos, nos cães e nos corvos . Enquanto que o contexto agonístico típico de tal contato é relativamente raro no seio das famílias naturais elefante, outras causas de sofrimento pode desencadear respostas semelhantes na consideração pelos outros. Num estudo realizado num campo de elefantes na Tailândia, descobrimos que os elefantes se filiavam significativamente mais com os outros através de contato físico directo e de comunicação vocal após um evento angustiante do que em períodos de controle . Além disso, os espectadores filiados que manifestam correspondência ao comportamento e estado emocional do primeiro indivíduo angustiado, sugerem o contágio emocional. As respostas iniciais de socorro foram esmagadoramente dirigidas a estímulos ambíguos, tornando-se difícil determinar se os espectadores reagiram ao indivíduo angustiado ou se mostravam uma resposta atrasada ao mesmo estímulo. No entanto, a direccionalidade dos contactos e a sua natureza sugerem fortemente atenção para com os estados emocionais de indivíduos da mesma espécie. O comportamento dos elefantes é, portanto, melhor classificado, com as respostas similares de consolação em macacos, possivelmente baseado na evolução convergente de capacidades de empatia”.

Plotnik JM, de Waal FB. (2014) Asian elephants (Elephas maximus) reassure others in distress. PeerJ 2:e278

Filme Suplementar 1

Antes do início deste clip, uma vítima, JK (o primeiro em off) emite burburinhos e rugidos em resposta a um estímulo identificável (o rugido de um elefante touro num acampamento próximo não relacionado). MP, o espectador emite burburinhos em resposta e então inicia contacto correndo em direção a JK. Estabelece contato físico, tocando no rosto de JKs rosto após uma sequência de silvos. Ambos os indivíduos vocalizam enquanto com as trombas tocam um no outro. Nessa interação, as vocalizações mais notáveis são burburinhos, trombetas e silvos. Além disso, ambos os elefantes colocam as suas trombas na boca do outro.

(tradução ildateresacastro)

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Asian elephants (Elephas maximus) reassure others in distress

“Contact directed by uninvolved bystanders toward others in distress, often termed consolation, is uncommon in the animal kingdom, thus far only demonstrated in the great apes, canines, and corvids. Whereas the typical agonistic context of such contact is relatively rare within natural elephant families, other causes of distress may trigger similar, other-regarding responses. In a study carried out at an elephant camp in Thailand, we found that elephants affiliated significantly more with other individuals through directed, physical contact and vocal communication following a distress event than in control periods. In addition, bystanders affiliated with each other, and matched the behavior and emotional state of the first distressed individual, suggesting emotional contagion. The initial distress responses were overwhelmingly directed toward ambiguous stimuli, thus making it difficult to determine if bystanders reacted to the distressed individual or showed a delayed response to the same stimulus. Nonetheless, the directionality of the contacts and their nature strongly suggest attention toward the emotional states of conspecifics. The elephants’ behavior is therefore best classified with similar consolation responses by apes, possibly based on convergent evolution of empathic capacities.”

Plotnik JM, de Waal FB. (2014) Asian elephants (Elephas maximus) reassure others in distress. PeerJ 2:e278

Supplemental Movie 1

Prior to the start of this clip, a victim, JK (at first off-camera) rumbles and roars in response to an identifiable stimulus (a bull elephant roaring in a nearby, unrelated camp).MP, the bystander rumbles in response, then initiates contact by running toward JK. She makes physical contact by touching JKs face following a chirp sequence. Both individuals vocalize when within trunks reach of each other. In this interaction, the most notable vocalizations are rumbles, trumpets, and chirps. Also, both elephants put their trunks to or in each others mouths.

(published 18 February 2014)
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