2020-2021

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multilingual

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Grupo de Golfinhos há pelo menos dez dias no Tejo

(notícias)

Solstício de Verão em Stonehenge em directo online_ presença de público interdita devido a pandemia

(notícias) por English Heritage

Um Olhar Novo sobre a Ecologia

(notícias) por José Tolentino Mendonça

Juri_ Em Quarentena / Juri_ in QuarantÄne

texto Dania Neumann _ desenho André Ruivo

O Que É Preciso Mudar para Continuarmos Vivos_

Planet of the Humans_ mister Moore!!! A Verdade nas Energias Renováveis

por Ilda Teresa de Castro

Apelo Urgente Pelos Índios do Brasil _

Carta Aberta ao Presidente do Brasil e aos Líderes do Legislativo Judiciário

por Sebastião Salgado e Lélia Wanick Salgado

Menos 11000 Mortes na Europa_Menos 609 Mortes em Portugal_Nos Últimos 30 Dias

por Ilda Teresa de Castro

Louvor da Vida

por Isabel Barros

O Ecrã Na Montanha _ Ou O Levar A Ópera À Selva

por António Barros

editorial_

AGORA Dia da Terra_Urgência Climática_Covid19_Sustentabilidade

NOW Earth Day_Climate Urgency_Covid19_Sustainability

MAINTENANT Jour de la Terre_Urgence climatique_Covid19_Durabilité

por Ilda Teresa de Castro

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Golfinhos no Tejo

(notícias)

23 de Junho 2020

Desde Fevereiro que têm sido avistados grupos de golfinhos a nadar e brincar no Tejo. Identificados como sendo golfinhos comuns que nadam em águas mais profundas (20m) do que os mais habituais golfinhos roazes (2m), este  grupo foi noticiado estar no Tejo há pelo menos dez dias.

A primeira semana de Junho teve uma quantidade sem precedentes de golfinhos avistados no rio Tejo, num total de 5 avistamentos gravados em vídeo e compartilhados nas redes sociais, 4 deles em dias consecutivos.

info Golfinhos no Tejo

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Solstício de Verão em Stonehenge em directo online

(notícias)

pôr-do-sol_20 de Junho 2020

Este ano, devido à pandemia, a presença de público foi restrita a poucas dezenas de pessoas em Stonehenge ao contrário dos habituais milhares que visitam o monumento neolítico em Wiltshire, Inglaterra. Embora Stonehenge esteja encerrado devido às restrições sanitárias actuais, pela primeira vez o acontecimento foi acessível em streaming. O evento teve início com o  pôr do sol no dia 20 de Junho (20:26) e prosseguiu com o nascer do sol no dia 21 de Junho (03:53).

nascer-do-sol_21 de Junho

English Heritage

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Um Olhar Novo sobre a Ecologia

José Tolentino Mendonça

10 de Junho 2020

minuto 19:19 a 20:50

Reforçar o pacto comunitário implica também um olhar novo sobre a Ecologia.

A pandemia veio expor a urgência de um novo pacto ambiental.

Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático que tem uma raiz sistémica.

Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta ou para a existência dos outros seres vivos tem sido uma regressão.

Num dos textos centrais deste século XXI, a encíclica Laudato si´, o Papa Francisco exorta a uma ecologia integral, onde o presente e o futuro da nossa humanidade sejam pensados a par do presente e do futuro da grande casa comum.

Precisamos de construir uma Ecologia do Mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação que tenha expressão efectiva nos tratados transacionais mas também nos nossos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.

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José Tolentino Mendonça é poeta, sacerdote e professor. Doutorado em Teologia Bíblica, em Roma, e docente e vice-reitor da Universidade Católica de Lisboa. Desde 2018, é responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano. Em 2019, foi elevado a Cardeal pelo Papa Francisco. Integra a antologia de poetas portugueses, Panorama da Moderna Poesia Portuguesa, da Lacerda Editores, 1999. Tem publicado a sua poesia na Assírio & Alvim e a sua obra ensaística na Quetzal. Os seus livros têm sido distinguidos com vários prémios, entre eles o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998), o Prémio Pen Club de Ensaio (2005), o italiano Res Magnae, para obras ensaísticas (2015), o Grande Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes APE (2016), o Grande Prémio APE de Crónica (2016) e, mais recentemente, o prestigiado Prémio Capri-San Michele (2017). Acredita que «a poesia é a arte de resistir ao seu tempo».

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Juri_ Em Quarentena

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texto Dania Neumann _ desenho André Ruivo

28 Maio 2020

Por causa da propagação do vírus, as pessoas devem ficar em casa. Os cães podem ser passeados, as compras também são possíveis e também é possível fazer ginástica, o que acontece nas cidades, onde as pessoas nos parques esticam visivelmente as pernas para trás, para frente ou para os lados, duma maneira dançante ou como um exercício de Yoga, ou também fazem flexões e isso quase tocando o chão, mas sem nunca chegar totalmente a fazê-lo.

O que faz um solteiro ou uma solteira que mora sozinho ou sozinha e que não tem um animal de estimação que possa ser passeado?
Ou se cria um novo negócio, que se poderia chamar “aluguer de cão para passeio corona“ ou, como imaginei agora, vou passear o meu cão invisível, seguindo o lema “vírus invisível conhece cão invisível”.

No encontro com o primeiro polícia acontece o seguinte: “Por que razão está a dar um passeio? Está a fazer compras? Tem uma máscara? Por que está aqui no parque? Solicito-lhe que siga caminhando e não fique por aqui.”
A minha resposta: “Não posso ir para casa ainda. Não vê como o cão puxa a trela, ele ainda precisa de correr ao ar livre!”. Estico o braço para a frente, aperto a trela com os dedos e dou a entender que me é difícil resistir ao puxar do cão.
“Um cachorro forte” o meu buldogue! “Yuri, é o nome dele”, digo rindo.

O policia olha para mim como se já estivesse contaminada pelo vírus e de repente toma a distância prescrita em relação mim, algo que não fez anteriormente – tinha chegado muito perto de mim, perto demais, mesmo para os tempos antes dos tempos do Corona.
E então ele diz, um tanto triste ou confuso: ”Compreendo. Por favor, continue assim. Siga o seu cão. Se é bom para si e para a sua saúde…”
Abana a cabeça, bate com o dedo na testa e continua fazendo um alto-falante na frente da boca e anunciando em voz alta:
“Todo mundo com ou sem cão, vá, por favor, para casa … não fiquem aqui parados” assim, a voz do policia rugindo pelo parque.

Deixo-me continuar puxada pelo meu cão invisível, corro atrás de galinhas, galos e patos que estão alegremente brincando no parque, levantamos ao mesmo tempo a perna, ele para fazer chichi, eu para fazer ginástica.
Sim, sento-me debaixo de uma árvore em flor, ele deita-se no chão e estica as quatro pernas para o ar e então começo a ladrar de alegria.
De repente, o meu cão pergunta: “Estás bem? Está tudo normal contigo? Desculpa, é só para perguntar“ e bate na sua testa de buldogue com a pata, abana a cabeça e diz:”Estranho, realmente, muito estranhos, estes seres humanos.“

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Juri_ in QuarantÄne

Da sich das Virus ausbreitet, soll der Mensch zu Hause bleiben. Hunde dürfen spaziert werden, einkaufen darf man auch und es ist auch möglich gymnastisch tätig zu sein, was in Städten so auffällt, dass Menschen in Parks ihre Beine nach rückwärst, vorwärst seitwärts in Tänzermanier oder als Yogaübung ausstrecken, oder Liegestütze machend das Gras und den Boden beinahe berühren, ohne ganz anzukommen.
Was macht ein oder eine Single, der oder die alleine lebt und der oder die kein Haustier hat, das spazieren geführt werden darf ? Entweder es entsteht eine neues Geschäft, das man „Hundeverleih zum Coronaspaziergang“, nennen könnte, oder, so wie ich mir das nun vorgestellt habe, ich gehe mit meinem unsichtbaren Hund spazieren.

Nach dem Motto: „Unsichtbares Virus, trifft unsichtbaren Hund.“
In der Begegnung mit dem ersten Polizisten, passiert dann Folgendes: „Weshalb gehen sie spazieren? Waren sie einkaufen? Haben sie eine Maske? Weshalb halten sie sich hier im Park auf? Ich fordere sie dazu auf weiterzugehen und hier nicht herumzustehen.“ Meine Antwort: „Ich kann noch nicht nach Hause gehen, sehen sie nicht, der Hund zieht an der Leine, er braucht noch Auslauf !“ Ich strecke meinen Arm nach vorne, klammere meine Finger an die Leine und gebe vor dem Zug des Hundes mühsam zu widerstehen.
„ Ein kräftiger Kerl“ meine Bulldogge! „ Juri , heisst er, sage ich lachend.
Der Polizist sieht mich so an als wäre ich bereits „virusverseucht“ und nimmt plötzlich den vorgeschriebenen Abstand zu mir ein, etwas was ihm zuvor nicht geglückt war. Da kam er mir nämlich beträchlich nahe, zu nahe, auch für Zeiten vor Corona .
Dann meint er, etwas betrübt oder verwirrt: „Ich verstehe. Bitte gehen sie trotzdem weiter. Folgen sie ihrem Hund. Wenn es ihnen gut tut, für ihre Gsundheit? Er schüttelt den Kopf, tippt sich dann auf die Stirn und geht weiter, einen Lautsprecher vor seinem Mund und laut verkündend: „Alle mit oder ohne Hund, weitergehen, bitte nach Hause gehen .. nicht herumstehen..“ so dröhnt die Stimme des Polizisten durch den Park.

Ich lasse mich nun weiter von meinem unsichtbaren Hund ziehen, laufe den Hühnern, Hähnen, und Enten, die sich freudig im Park tummeln nach, hebe mit ihm gemeinsam das Bein, er pinkelt , ich turne , ja, setzte mich unter einen blühenden Baum, er legt sich auf den Boden und streckt alle vier Beine in die Luft und dann beginne ich vor Freude zu bellen.
Plötzlich fragt mein Hund: „Gehts dir denn gut? Alles ok? Entschuldige, wollte nur mal nachfragen“ und er tippt sich mit der Pfote auf die Stirn, schüttelt den Bulldoggenkopf und meint: „Seltsam, wirklich sehr seltsam diese Menschen.“

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Dania Neumann_Dançoterapeuta /Analista do Movimento. Austríaca em Portugal desde 1994, desenvolveu trabalho pioneiro na área mediante terapias individuais, workshops, seminários e cursos, nomeadamente no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e no Hospital Júlio de Matos. Organizadora da formação profissional em Portugal com o fundador do método, Cary Rick. Investiga reabilitação psiquiátrica num hospital de Doenças Psicossomáticas na Austria. Autora do livro Movimento é Acção. Orientada pela intersubjectividade no plano verbal e não-verbal, pelo “momento presente“ e pela resolução de “Conflitos de Incorporação“ através da “Nova Experiência e Percepção de Si em Movimento“. http://www.danianeumann.com

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André Ruivo, nasceu em Lisboa em 1977, tirou a licenciatura em Design de Comunicação na FBAUL e o Mestrado em Cinema de Animação no Royal College of Art em Londres. Trabalha como ilustrador (eg. Porque canta um pequeno coração, José Pedro Moreira, Lisboa, não-edições, 2019) e publicou vários livros de desenhos com as editoras Stolen Books (eg. Zzzzzzzzzz, 2019), STET (eg. Abraços, 2018), Bedeteca de Lisboa (eg. Bug, 2001), Chili Com Carne (eg. Mystery Park, 2012) e Mmmnnnrrrg (eg. Break Dance, 2015). Realizou filmes de animação com as produtoras Animanostra (A Fantasista, 2003 ; Januário e a Guerra, 2007) e Animais (Diluvio, 2011; O Campo à Beira Mar, 2015; Circo, 2017). A sua edição mais recente: O Semáforo Amarelo. The inspector cheese adventures, 2020.

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O Que É Preciso Mudar Para Continuarmos Vivos

Planet of the Humans_mister Moore!!! A Verdade nas Energias Renováveis

por Ilda Teresa de Castro

19 Maio 2020

Planet of the Humans, documentário que Michael Moore, na véspera do Dia da Terra, anunciou estar disponível no Youtube durante 30 dias — ainda restam dois —, está a provocar choques nos espectadores e uma alargada discussão sobre as energias renováveis.

O filme foi-me recomendado por um amigo que assumidamente desolado me escreveu “o Planet of the Humans diz que as energias renováveis, frequentemente apresentadas como alternativas credíveis aos combustíveis fosseis, também são altamente nocivas para o meio ambiente. Se esta informação estiver mais ou menos correcta fico muito decepcionado por me terem apresentado uma solução que não serve para nada.”

Vi o filme e também fiquei consternada.

Alertei na minha pesquisa de 2015 para o risco de manipulação política e económica dos interesses ambientais, problema que Gregory Bateson identificou na segunda metade do séc. XX como canalização das ideias ecológicas para o domínio comercial e político. Que Dave Foreman classificou de «profissionalização» do movimento ambiental. Isabelle Stengers de rentabilização económica da questão climática. E, já no séc. XXI, Pablo Sólon designou de mercantilização da Natureza em que se pode tornar a «economia verde».

Muitos têm sido os alertas para o perigo de planos estratégicos dissimulados como sanguessugas no seio dessa economia; para manobras que são logros morais, éticos e ecológicos, com o objectivo de viabilizar a continuidade das condições do sistema capitalista e dos fluxos de lucro instituídos.

Neste momento histórico, os atrasos na consciencialização e na tomada de medidas efectivas promovidos por esse tipo de estratégias, podem ter resultados irreversíveis para a vida humana e para a de muitas outras espécies, num futuro muito próximo.

Passando pelos governos, organizações e instituições, todos temos de ser pro-activos e intervenientes na prevenção desses bastidores. Já sabíamos que não basta reciclar, mas também não basta investir em energias alternativas, é preciso uma vigilância atenta sobre o modo como são desenvolvidas. Nunca poderia ser seguro uma confiança cega em estruturas económicas e políticas comprometidas com o lucro. É necessário antecipar os ardis da «economia verde».

Resumindo, não são as energias renováveis que são fraudulentas, como o filme de Jef Biggs advoga. A aliança desse projecto com os interesses capitalistas comprometidos com o crescimento contínuo e lucrativo é que é uma enormérrima fraude.

Ora, sobre isto estamos entendidos.
Estamos? Não sei se estamos.

Porque, se com a introdução de tecnologias amigas do ambiente se pretende manter a economia e o consumo em permanente crescimento, então de facto, não servem para nada. São apenas mais um embuste fatal que compromete o futuro da vida a breve prazo.

Manter esse modelo inviabiliza o re-equilíbrio e a sustentabilidade que desejamos.

E parece que é assim que se planeia a recuperação Pós-Covid19.

É assim que temos vindo a descansar à sombra do “calmante” investimento nas energias renováveis e continuamos a manter estilos de vida antigos. E assim não vamos longe. Apenas caminhamos para o mesmo fim desolador e letal mas caprichosamente equipados com tecnologias amigas do ambiente.

Não há futuro se não mudarmos o nosso estilo de vida.

Então, o que é necessário?
É necessário desacelerar a economia, a produção e o consumo.
É necessário produzir local e consumir local.
Reduzir a exploração das matérias-primas e recursos terrestres.
Reduzir o consumo de energia.
Reduzir o investimento em tecnologias e altas tecnologias cada vez mais dependentes de energia.
Reduzir os aeroportos, as auto-estradas, as viagens.
Suspender novos consumos, novas modas, novos gadgets, novos gastos.
Substituir o automóvel pela bicicleta e pela marcha.
Substituir o avião pelo comboio.
Reutilizar.

É preciso regressar ao básico e ao essencial.

Inventar soluções, mecanismos, objectos e estruturas com gasto energético zero. Regressar à terra, ao cultivo e consumo de alimentos locais. Regressar a modos de vida sustentáveis. Ensinar nas escolas como é que isso se faz realmente, ao invés de esboços fantasistas. Ensinar também fora das escolas como é que isso se faz porque nunca aprendemos ou já esquecemos.

É preciso pensar local para pensar global e vice-versa.

É necessário aliar a ciência e a tecnologia, e a arte e a cultura, no ajustamento das mecânicas adequadas às necessidades reais com base em esforços concretos na resolução dos problemas.

É necessário mudar a Economia.
É necessário mudar a nossa zona de conforto.
É necessário seriedade, responsabilidade e honestidade com a situação que enfrentamos.
Criar novas regras de comportamento são.
E passar da teoria à prática.

Quanto ao documentário Planet of the Humans: Não, mister Moore, as energias renováveis não são uma fraude! O filme anuncia que as subsidiadas em larga escala energias renováveis o têm sido apenas de nome. Mas algumas análises e artigos publicados nas últimas semanas, desmontam que aparte duas ou três coisas certas, foi construído sobre informação desactualizada e deturpação de situações.

Foi, porém, bastante eficaz em provocar uma onda de esclarecimentos sobre o assunto e isso, é necessário e é de aproveitar!

Deixo uma lista de ligaações abaixo.

– está na hora ?

– já estamos atrasados!

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LIGAÇÕES sobre a Verdade nas Energias Renováveis e o Planet of the Humans:

Films for Action Statement on Planet of the Humans
Film Review: Forget About Planet of the Humans
Skepticism Is Healthy, but Planet of the Humans Is Toxic – A Critical Review
Planet of the humans: A reheated mess of lazy, old myths
Why “Planet of the Humans” is crap
Planet of the Humans: a film review
Bill McKibben’s Response to Planet of the Humans Documentary
Responding to “Planet of the Humans”: An interview with Leah Stokes with contributions from Michael Mann and Zeke Hausfather
“Planet of the Humans” documentary misleads viewers about renewable energy
REFERÊNCIAS
Biggs, Jeff, Planet of the Humans, 100´, 2019
Castro, Ilda Teresa, Eu Animal – argumentos para uma mudança de paradigma – cinema e ecologia, Zéfiro ed., 2015

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Apelo Urgente pelos Índios do Brasil

Carta Aberta ao Presidente do Brasil e aos Líderes do Legislativo e Judiciário

por Sebastião Salgado* e Lélia Wanick Salgado*

7 Maio 2020

APELO URGENTE AO PRESIDENTE DO BRASIL E AOS LÍDERES DO LEGISLATIVO E JUDICIÁRIO

Os povos indígenas do Brasil enfrentam uma grave ameaça à sua própria sobrevivência com o surgimento da pandemia do Covid-19. Há cinco séculos, esses grupos étnicos foram dizimados por doenças trazidas pelos colonizadores europeus. Ao longo do tempo, sucessivas crises epidemiológicas exterminaram a maioria de suas populações. Hoje, com esse novo flagelo se disseminando rapidamente por todo o Brasil, comunidades nativas, algumas vivendo de forma isolada na Bacia Amazônica, poderão ser completamente eliminadas, desprovidas de qualquer defesa contra o coronavírus.
Sua situação é duplamente crítica, porque os territórios reconhecidos para uso exclusivo de populações autóctones estão sendo ilegalmente invadidos por garimpeiros, madeireiros e grileiros. Essas operações ilícitas se aceleraram nas últimas semanas, porque as autoridades brasileiras responsáveis pelo resguardo dessas áreas foram imobilizadas pela pandemia. Sem nenhuma proteção contra esse vírus altamente contagioso, os índios sofrem um risco real de genocídio, por meio de contaminações provocadas por invasores ilegais em suas terras.
Diante da urgência e da seriedade dessa crise, como amigos do Brasil e admiradores de seu espírito, cultura, beleza, democracia e biodiversidade, apelamos ao Presidente da República, Sua Excelência Sr. Jair Bolsonaro, e aos líderes do Congresso e do Judiciário a adotarem medidas imediatas para proteger as populações indígenas do país contra esse vírus devastador.
Esses povos são parte da extraordinária história de nossa espécie. Seu desaparecimento seria uma grande tragédia para o Brasil e uma imensa perda para a humanidade. Não há tempo a perder.

Respeitosamente,
Sebastião Salgado
Lélia Wanick Salgado

* Sebastião e Lélia Salgado, Brasil, Paris. Fundaram a  Amazonas images. Trabalham desde os anos 90 na recuperação do meio-ambiente de uma pequena parte da Mata Atlântica. Devolveram à Natureza uma parcela de terra que possuiam e em 1998 esta terra foi transformada numa Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN. Neste mesmo ano, criaram o Instituto Terra que tem como objetivo principal a recuperação e a preservação da floresta, educação ambiental e desenvolvimento sustentável.

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por Ilda Teresa de Castro

1 Maio 2020

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Louvor da Vida

por Isabel Barros*

30 Abril 2020

Dia 11 de Março de 2020, tinha o primeiro ensaio da nova criação. Dado o estado de pandemia, esse foi o dia de reunir a equipa e decidir que todos íamos ficar em casa sem data de regresso prevista.

Assim começou ou terminou o Louvor da Vida, nome da nova criação.

Meses antes de iniciar os ensaios dessa criação, ainda em fase de pesquisa, sentia um estado geral de tensão, como se algo estivesse próximo de explodir.
Entretanto assaltaram-me a casa e pensei que isso era o culminar do que eu sentia.
No mesmo momento, desativei a minha página do facebook e voltei a jardinar.
Os meses de Janeiro, Fevereiro até 11 de Março, foram extraordinários para mim, estava a preparar-me para mergulhar numa nova peça que refletia, do meu ponto de vista um estado geral de urgência em relação ao mundo, algo que eu estava a tentar entender e parecia-me cada vez mais urgente entender.
De um dia para o outro, o coronavírus COVID-19, foi nos apresentado e de uma forma inesperada, tudo ficou diferente.

O mundo “parou”!
Continuei a jardinar e solitariamente a ver o mar, o mar de dentro, aquele que me habita.
O Louvor da vida, tinha como sob título: vida boa não tem propósito, ou talvez seja o contrário e partia de muitas ideias e de uma necessidade imensa de as transformar com a equipa em alguma “coisa” que neste caso pudesse despertar a reflexão da passagem dos humanos na terra. Um questionamento sobre o propósito ou não propósito da vida. Questionar o que para nós tantas vezes é inquestionável.

Desta experiência por terminar, ficam peças, para já soltas e que talvez um dia voltem a encontrar lugar e sentido para se reformularem, de momento, estão soltas e por isso as deixo aqui e as lanço.
Dessas peças soltas ficam algumas palavras: muro, guerra, fronteira, arma, barreira, terra, silêncio, paz, choro, distância, tragédia, marionetas, humanos, urgência, alerta, árvore…
Ficam algumas imagens: plantar a terra, tratar um jardim zen, vento no deserto, pessoa (marioneta miniatura) a cantar dentro de uma caixa preta, a cantar uma canção de amor…

Ficam algumas frases:
– Quem começa?
– O que é que te faz feliz?
– O que pensas quando acordas?
– Cantas-me uma canção de amor?
– O que é te faz mesmo falta?

Fiquem bem!
Isabel Barros
Praia da Granja
24 de Abril de 2020

* Isabel Barros_Coreógrafa, encenadora e performer. Cofundadora do balleteatro (1983), Diretora artística do Teatro de Marionetas do Porto desde 2010 e do Museu das Marionetas do Porto inaugurado em Fevereiro de 2013. Tem um vasto percurso de criação artística, no qual destaca o cruzamento de linguagens, nomeadamente dança, teatro e marionetas. Em 2018 recebeu a Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro. O Porto é a sua cidade de origem e de eleição, na qual desenvolve o seu trabalho com sentido de urgência e forte dimensão social.

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O Ecrã Na Montanha _ Ou O Levar A Ópera À Selva.

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por António Barros*

28 Abril 2020

* António Barros_ 2019-2020: CEH_ Water Event, YOKO ONO _O jardim da aprendizagem da liberdade, Museu Serralves; com VACLAV HAVEL_Cravos e Veludo, Prague City Gallery / Museu do Chiado, Lisboa; Um outro olho da terra _para Hélder Folgado, Em viagem, Q_Magnólia, Funchal; Alvoro, MUDAS_Museu; International Symposium Joan Brossa_The Portuguese Context: Experimental Poetry With(out) Brossa, Rui Torres, Universidade de Barcelona.

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AGORA

Dia da Terra_Urgência Climática_Covid19_Sustentabilidade

editorial

por Ilda Teresa de Castro*

22 Abril 2020

Todos os dias me interrogo sobre como reter e implementar os aspectos positivos que o presente risco de contágio e confinamento infligiu às sociedades em que vivemos. Como impedir que com a retoma económica e o “regresso à normalidade”, regressem os anteriores sistemas de funcionamento — de consumo e de produção — com os mais-do-que evidentes sintomas de esgotamento dos recursos da vida planetária e das espécies. Como evitar o retorno aos mesmos e identificados erros do “passado” e aos modelos que nos conduzem em velocidade acelerada para uma distopia climática sem precedentes?

As gentes do dinheiro e do poder – os 1% que detêm 90% da riqueza e respectivos acólitos – já pressionam a tradicional retoma, receosos com a perda de lucros e com eminentes ou subreptícias mudanças na própria estrutura do sistema. Porque algumas manifestações estão à vista e jamais serão esquecidas.

A situação mundial excepcional que vivemos durante estes meses, sem igual no nosso tempo histórico, permitiu testar numa dimensão global, possibilidades que pareciam impossíveis fora de um quadro utópico: restrição da produção (e do consumo) quase só a bens essenciais; suspensão do modelo de progresso em permanente crescimento; redução da exploração de recursos com risco ambiental; e paralisação de tudo o que é supérfluo. Com isto, a poluição atmosférica baixou a níveis há muito não vistos em todo o mundo = o planeta respira e as outras espécies tranquilizam.

Todas estas medidas e menos do que estas, tantas vezes indicadas como imprescindíveis face à falência climática e à sustentabilidade do planeta e da vida, foram repetidamente negadas e apodadas de utopia impossível de concretizar. E afinal, é possível. Está a ser possível e é necessário entender o que fazer com estas possibilidades.

A abertura para uma mudança sensata e inteligente que acompanhe a mutação ecológica está aqui para ser aproveitada. Como re-orientar o sistema e retirar desta experiência trágica os ensinamentos que proporciona?

Não estamos a liderar o processo e não temos essa jurisdição nas mãos mas podemos questionar a retoma de metodologias comprovadamente erradas. Podemos questionar a validade de métodos e objectivos que foram temporariamente suspensos e não servem o futuro planetário que desejamos. Podemos pressionar com a reflexão, discussão e tomada de consciência, com dados e factos. Podemos fazer a diferença e concretizar mudanças pela palavra, pela presença, pela criação, pela acção.

Podemos fazer algo em vez de fazer nada.

É preciso começar por algum lado. Bruno Latour convida a que cada qual avance com um conjunto de auto-questões como ponto de partida (1). São questões que imediatamente assomam à ideia de quem queira pensar ou discutir o assunto. Portanto, são comprovadamente válidas. Podemos começar por aí.

Um inventário para ajudar ao discernimento:

1º quais as actividades actualmente suspensas e que gostaria que não fossem retomadas?
2º descreva : a) porque considera essa actividade prejudicial/supérflua/perigosa/incoerente ; b) em que é que a sua supressão/suspensão/substituição tornaria mais fáceis e coerentes outras actividades que vos parecem mais pertinentes? (escrever um parágrafo para cada resposta listada em1)
3º que medidas sugere para que trabalhadores/empregados /agentes/empresários que não possam continuar nas actividades que suprimiu transitem para outras actividades?
4º quais as atividades agora suspensas que gostaria que fossem desenvolvidas/retomadas ou que deveriam mesmo ser inventadas em substituição?
5º descreva : a) porque é que essa actividade lhe parece positiva ; b) porque torna mais fáceis/ harmoniosas/ pertinentes outras atividades que prefere ; c) porque permite combater as que considera desfavoráveis. (escrever um parágrafo para cada resposta listada na pergunta 4).
6º que medidas preconiza para ajudar os trabalhadores/empregados/agentes/empresários a adquirir as capacidades/meios/receitas/instrumentos para retomar/ desenvolver/criar essa actividade?

podemos acrescentar mais alguns pontos:

7º a) qual deveria ser a intervenção de cada país nesse processo de re-avaliação e mutação da retoma económica?; b) que medidas sugere para o posicionamento de cada país nesse contexto?
8º a) como gerir os conflitos de interesses com os países para quem a mudança não seja desejada/conveniente?; b) como salvaguardar os interesses dos países apostados na mudança perante os outros países?
9º a) que participação podem/devem ter as associações ambientalistas e as organizações de defesa climática?; b) que participação podem/devem ter as organizações intergovernamentais como as Nações Unidas (ONU)?
10º que acções/propostas/projectos podem ser criadas e desenvolvidas para divulgar estas ideias aos mais cépticos nas nossas sociedades?
11º descreva outras possibilidades que aqui não estejam listadas.

A comparação e cruzamento de respostas de n participantes permite desenhar linhas de conflito, alianças e controvérsias. Mapear cenários agora possíveis. E avançar para novos entendimentos e acções.

Não menos importante, permite pensar e agir sobre aquele que é, até à data, o momento mais determinante das nossas vidas em conjunto COM o planeta.

Enquanto a engrenagem monstruosa não recomeça, é agora o momento de fazer um ponto de situação por muito incrédulos que sejamos quanto à nossa capacidade de persuasão dos poderosos de que falava acima — a apatia não conduz a soluções. Na verdade, ninguém sabe o que está para vir, como o prova a actual pandemia. A possibilidade de sermos surpreendidos existe. Assim sendo, é melhor sabermos a quantas andamos, o que gostaríamos de fazer e o que queremos fazer. Para a qualquer momento percebermos o que podemos fazer.

Comemora-se hoje o Dia da Terra, uma efeméride criada para chamar a atenção de desatentos e de desinteressados. E embora confinados, podemos participar a partir das nossas casas num conjunto de iniciativas digitais globais que alertam e observam a conjuntura ambiental (2). Antevejo que muitas imagens e estudos comprovem as alterações ambientais que refiro acima e o interesse na mudança.

Esta nova edição da Animalia Vegetalia Mineralia em 2020, será temática e dedicada a reflexões sobre a experiência de viver em tempo de CoVid19 que é também tempo de repensar o presente e o futuro perante a urgência climática.

Este é um convite a propostas — escritas, visuais, sonoras ou audiovisuais — relacionadas com o tema. O desenvolvimento dos trabalhos é livre e acompanhado de nota biográfica (máx. 100 palavras) com link optativo.

Dadas as condições actuais, as obras serão publicadas ao longo dos meses, à medida que os projectos forem recepcionados e o pulso/pulmão editorial accionados.

A revista passa de bilingue a multilingue e a re(flex)(cepç)ão está aberta a partir deste momento.

Força e Saúde!

.(1) “Imaginer les gestes-barrières contre le retour à la production d’avant-crise”, Bruno Latour, A paraître dans AOC, Dimanche 29-03-2020 — http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202-AOC-03-20.pdf
(2) eg. https://www.earthday.org/earth-day-2020

* Artista, investigadora em arte & ecologia e ecomedia, e curadora em cinema e video. Post-doc em EcoMedia e Arte & Ecologia. PhD em Ciências da Comunicação/Cinema e Televisão . Autora de Eu Animal − argumentos para uma mudança de paradigma – cinema e ecologia (2015) e da trilogia de Cinema Português : Animação Portuguesa, conversas com … (2004); Cineastas Portuguesas conversas com … (2001); Curtas Metragens Portuguesas conversas com … (1999). Criadora e editora da plataforma e revista ecomedia_ecocritica_ecocinema http://www.animaliavegetaliamineralia.org. Mais infos em http://www.ildateresacastro.wordpress.com.

NOW

Earth Day_Climate Urgency_Covid19_Sustainability

editorial

by Ilda Teresa de Castro*

Every day I ask myself how to retain and implement the positive aspects that the present risk of contagion and confinement has inflicted on the societies in which we live. How can we ensure that the economic recovery and “return to normality” will not mean a return to the previous systems of functioning – consumption and production – with the more than obvious symptoms of depletion of the resources of planetary life and species? How can we avoid returning to the same already identified errors from the “past” and models that lead us at an accelerated speed towards an unprecedented climatic dystopia?

The people of money and power – the 1% that hold 90% of the wealth and their acolytes – are already pressing for the traditional recovery, fearful of the loss of profits and of imminent or surreptitious changes in the very structure of the system. Because some manifestations are in sight and will never be forgotten.

The exceptional world situation we have experienced during these months, unparalleled in our time, allowed us to test, in a global dimension, possibilities that seemed impossible outside a utopian framework: restriction of production (and consumption) almost only to essential goods; suspension of the model of progress based on permanent growth; reducing the exploitation of resources with environmental risk; and stopping all that is superfluous. As a result, air pollution has dropped to levels not seen in the world for a long time = the planet breathes and the other species are reassured.

All these measures and even less than these, so often indicated as essential in the face of climate failure and for the sustainability of the planet and of life, have been repeatedly denied and seized upon as a utopia impossible to achieve. After all, it is possible. It is possible and it is necessary to understand what to do with these possibilities.

The opening for sensible and intelligent change that accompanies ecological mutation is here to be tapped. How can the system be reoriented and draw from this tragic experience the teachings it provides?

We are not leading the process and we do not have that jurisdiction in hand, but we can question the resumption of methodologies that are proven to be wrong. We can question the validity of methods and objectives that have been temporarily suspended and do not serve the planetary future that we want. We can press with reflection, discussion and awareness, with data and facts. We can make a difference and make changes through words, presence, creation, action. We can do something instead of doing nothing.

You have to start somewhere. Bruno Latour invites everyone to come forward with a set of self-questions as a starting point. These are questions that immediately come to mind for anyone who wants to think about or discuss the subject. Therefore, they are valid. We can start here.

An inventory to aid discernment:
1. which activities currently suspended would you like not to be resumed?
2. describe: a) why you consider this activity harmful / superfluous / dangerous / incoherent; b) how would its removal / suspension / substitution make other activities that seem more pertinent to you easier and more coherent? (write a paragraph for each answer listed in 1)
3. what measures do you suggest so that workers / employees / agents / entrepreneurs who are unable to continue in the activities that you have suppressed will be able to transition to other activities?
4. Which activities that are now suspended would you like to see being resumed / developed or even invented instead?
5. describe: a) why that activity seems to you to be positive; b) how does it make other activities easier / harmonious / pertinent; c) why it allows you to combat those you consider unfavorable.
6. what measures do you recommend to help workers / employees / agents / entrepreneurs to acquire the skills / means / revenues / instruments to resume / develop / create this activity?

we can add a few more points:

7 a) what should be the intervention of each country in this process of reassessment and change in the economic recovery? b) what measures do you suggest for each country to take in this context?
8 a) how to manage conflicts of interest with countries for whom change will not be desired / convenient? b) how to safeguard the interests of countries committed to change in relation to other countries?
9 a) what participation can/should environmental associations and climate defense organizations play? b) what participation can/should intergovernmental organizations such as the United Nations (UN) play?
10. what actions/proposals/projects can be used to disseminate these ideas to the most skeptical in our societies?
11 describe other possibilities that are not listed here.

The comparison and crossing of responses from the participants engaging with these questions allows to draw lines of conflict, alliances and controversies. Map scenarios now possible. And move on to new understandings and actions.

Not least, it allows us to think and act on what is, to date, the most decisive moment of our lives together WITH the planet.

Before the monstrous machine restarts, in this pause, now is the time to make a point, however incredulous we may be, regarding our ability to persuade the people in power of which I spoke above — apathy does not lead to solutions. No one knows what is coming, as the current pandemic proves. So, it’s better to know how far we are, what we would like to do and what we want to do, so we are ready when the opportunity arises.

Today, Earth Day is celebrated, an event created to call the attention of inattentive and disinterested people. And although confined, we can participate from our homes in a set of global digital initiatives that observe and draw attention to the environmental situation. I expect there will be many images and studies showing the environmental situation we are facing and the interest in the solutions.

The edition of Animalia Vegetalia Mineralia 2020 will be thematic and dedicated to reflections on the experience of living in a time of CoVid19 which is also a time to rethink the present and the future in the face of climate failure.

This is an invitation for proposals – written, visual, sound or audiovisual – related to the theme. We encourage any type of works and they must be accompanied by a biographical note (max 100 words) or a link.

Given the current conditions, the works will be published over the months, as the projects are received and the editorial pulse / lung activated.

The magazine is now multilingual and we are accepting proposals from this moment.
Wish you strength and health!

(1) “Imaginer les gestes-barrières contre le retour à la production d’avant-crise”, Bruno Latour, A paraître dans AOC, Dimanche 29-03-2020 — http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/downloads/P-202-AOC-03-20.pdf
(2) eg. https://www.earthday.org/earth-day-2020

* Artist, eco-art media researcher, film and video curator. Post-doc in Art, Media and Ecology. PhD in Communication Sciences/Cinema and Television. Author of Eu Animal − argumentos para uma mudança de paradigma – cinema e ecologia (2015) and on Portuguese Cinema: Cinema Português : Animação Portuguesa, conversas com … (2004); Cineastas Portuguesas conversas com … (2001); Curtas Metragens Portuguesas conversas com … (1999). Founder and editor  http://www.animaliavegetaliamineralia.org. More info http://www.ildateresacastro.wordpress.com.

MAINTENANT

Jour de la Terre_Urgence climatique_Covid19_Durabilité

éditorial

par Ilda Teresa de Castro *

Chaque jour, je me demande comment conserver et mettre en œuvre les aspects positifs que le risque actuel de contamination et d’enfermement a infligé aux sociétés dans lesquelles nous vivons. Comment éviter que avec la reprise économique et le «retour à la normalité», ils reviennent les précédents systèmes de fonctionnement – consommation et production – avec aussi les plus qu’évidents symptômes d’épuisement des ressources de la vie planétaire et des espèces. Comment éviter de revenir aux mêmes erreurs identifiées du “passé” et à des modèles qui nous conduisent à une vitesse accélérée vers une dystopie climatique sans précédent?

Les gens d’argent et de pouvoir – les 1% qui possèdent 90% des richesses et leurs acolytes – font déjà pression sur la reprise, craignant la perte de profits et des changements imminents ou subreptices dans la structure même du système. Parce que certaines manifestations sont en vue et ne seront jamais oubliées.

La situation mondiale exceptionnelle que nous avons connue au cours de ces mois, sans précédent dans notre temps historique, nous a permis de tester dans une dimension globale, des possibilités qui semblaient impossibles en dehors d’un cadre utopique: restriction de la production (et de la consommation) presque uniquement aux biens essentiels; réduction de l’exploitation des ressources à risque environnemental; l´arrêt de tout ce qui est superflu; et suspension du modèle de progrès en croissance permanente. En conséquence, la pollution de l’air a chuté à des niveaux jamais vus dans le monde depuis longtemps = la planète respire et les autres espèces sont rassurées.

Toutes ces mesures et moins que celles-ci, si souvent indiquées comme essentielles face à l’insuffisance climatique et à la durabilité de la planète et de la vie, ont été à maintes reprises déniées et saisies d’une utopie impossible à réaliser. Après tout, c’est possible. C’est possible et il faut comprendre quoi faire de ces possibilités.

L’ouverture pour un changement sensible et intelligent qui accompagne le changement écologique est ici à exploiter. Comment réorienter le système et tirer les enseignements de cette tragique expérience?

Nous ne dirigeons pas le processus et nous n’avons pas cette compétence en main, mais nous pouvons remettre en question la reprise de méthodologies éprouvées. Nous pouvons remettre en question la validité des méthodes et des objectifs qui ont été temporairement suspendus et ne servent pas l’avenir planétaire que nous voulons. Nous pouvons nous appuyer sur la réflexion, la discussion et la sensibilisation, sur des données et des faits. Nous pouvons faire une différence et apporter des changements à travers les mots, la présence, la création, l’action.

Nous pouvons faire quelque chose au lieu de ne rien faire.

Il faut commencer quelque part. Bruno Latour invite chacun à un ensemble de questions comme point de départ (1). Ce sont des questions qui s’ajoutent immédiatement à l’idée de quiconque veut réfléchir ou discuter ce sujet. Par conséquent, ils ont prouvé leur validité. On peut commencer par là.

1. Quelles activités actuellement suspendues souhaiteriez-vous ne pas reprendre?
2. décrivez: a) pourquoi vous considérez cette activité nocive / superflue / dangereuse / incohérente; b) comment son retrait / suspension / substitution rendrait-il d’autres activités qui vous semblent plus pertinentes plus faciles et plus cohérentes? (écrivez un paragraphe pour chaque réponse indiquée en 1)
3. Quelles mesures proposez-vous pour que les travailleurs / employés / agents / entrepreneurs qui ne sont pas en mesure de poursuivre les activités que vous avez supprimées passent à d’autres activités?
4. Quelles sont maintenant les activités suspendues que vous aimeriez développer / reprendre ou qui devraient même être inventées à la place?
5. décrivez: a) pourquoi cette activité vous semble positive; b) pourquoi cela rend les autres activités que vous préférez plus faciles / harmonieuses / pertinentes; c) pourquoi il permet de combattre ceux que vous jugez défavorables. (écrivez un paragraphe pour chaque réponse donnée à la question 4).
6. Quelles mesures recommandez-vous pour aider les travailleurs / employés / agents / entrepreneurs à acquérir les compétences / moyens / revenus / instruments pour reprendre / développer / créer cette activité?

nous pouvons ajouter quelques points supplémentaires:

7e a) quelle devrait être l’intervention de chaque pays dans ce processus de réévaluation et d’évolution de la reprise économique? b) quelles mesures proposez-vous pour positionner chaque pays dans ce contexte?
8e a) comment gérer les conflits d’intérêts avec les pays pour lesquels le changement n’est pas souhaité / pratique? b) comment sauvegarder les intérêts des pays déterminés à changer vis-à-vis des autres pays?
9e a) quelle participation les associations environnementales et les organisations de défense du climat peuvent-elles ou devraient-elles avoir? b) quelle participation les organisations intergouvernementales comme les Nations Unies (ONU) peuvent-elles ou devraient-elles avoir?
10º Quelles actions / propositions / projets peuvent être créés et développés pour diffuser ces idées auprès des plus sceptiques de nos sociétés?
11 décrivent d’autres possibilités qui ne sont pas énumérées ici.

La comparaison et le croisement des réponses de n participants nous permettent de tracer des lignes de conflit, d’alliances et de controverses. Des scénarios cartographiques sont désormais possibles. Et passez à de nouvelles compréhensions et actions.

Non moins important, il nous permet de penser et d’agir sur ce qui est, jusqu’à présent, le moment le plus déterminant de nos vies avec la planète.

Tant que l’engin monstrueux ne recommence pas, il est temps de montrer à quel point nous pouvons être incrédules en ce qui concerne notre capacité à persuader les personnes puissantes dont j’ai parlé ci-dessus – l’apathie ne mène pas à des solutions. En fait, personne ne sait ce qui s’en vient, comme le prouve la pandémie actuelle. La possibilité d’être surpris existe. Par conséquent, il vaut mieux savoir combien nous avons marché, ce que nous aimerions faire et ce que nous voulons faire. Pour chaque fois que nous réalisons ce que nous pouvons faire.

Aujourd’hui, le Jour de la Terre est célébré, un événement créé pour attirer l’attention des gens distraits et désintéressés. Et bien que confinés, nous pouvons participer depuis nos foyers à un ensemble d’initiatives numériques mondiales qui alertent et observent la situation environnementale (2). Je prévois que de nombreuses images et études prouvent les changements environnementaux auxquels je fais référence ci-dessus et l’intérêt pour le changement.

* Artiste, chercheur en art & écologie et ecomedia, et conservateur en cinéma et vidéo. Post-doc en EcoArte, EcoMedia et Ecologia. Doctorat en sciences de la communication / cinéma et télévision. Auteur d’Eu Animal − argumentos para uma mudança de paradigma – cinema e ecologia (2015) et de la trilogie du cinéma portugais: Animação Portuguesa, conversas com … (2004); Cineastas Portuguesas conversas com … (2001); Curtas Metragens Portuguesas conversas com … (1999). Créateur et éditeur de la plateforme et magazine ecomedia_ecocritica_ecocinema http://www.animaliavegetaliamineralia.org. Plus d’informations sur http://www.ildateresacastro.wordpress.com.

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