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Cemitérios de Cães

por Maria Esther Maciel*

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© Maria Esther Maciel

Quando contei à minha amiga Zenóbia que passaria três dias em Lisboa no final de minha viagem de julho, ela me lembrou: “Não deixe de visitar o cemitério de cães lá, um lugar sem igual”. E foi o que resolvi fazer na véspera de meu retorno ao Brasil.

O cemitério fica nos fundos do Jardim Zoológico de Lisboa. Quando eu soube disso, contive-me um pouco, pois não gosto de zoológicos. Sempre senti um inevitável mal-estar diante de jaulas, gaiolas, celas ou qualquer outro espaço de confinamento forçado de seres vivos em geral. Mas acabei indo assim mesmo. Dessa forma, eu poderia reconfirmar minha íntima recusa aos espaços de aprisionamento e a todas as práticas de exploração da vida animal.

Até chegar aos fundos do zoo, foi um longo percurso. Eu me apressava devagar, como que evitando e ao mesmo tempo querendo ver os bichos em exposição. O calor era intenso. As pessoas, ruidosas, espremiam-se diante das grades e dos vidros que as separavam dos animais. Estes, em sua maioria, pareciam indiferentes aos olhares humanos. Alguns se refugiavam em cantos distantes do lugar onde deveriam se exibir. Outros nem apareciam, acuados no meio da paisagem que estava ali para simular uma selva. Passei por rinocerontes, girafas e tigres-brancos. Parei no “Templo dos Primatas” e na “Encosta dos Felinos”, chegando ao “Bosque Encantado”, onde se veem aves, lagartos e cobras. Numa grade que serve de contorno a uma área cheia de arbustos e pedras, vi uma placa: Pantera-nebulosa. Por curiosidade, detive-me, à procura do felino. Não o vi. Outras pessoas também moviam olhos e pescoços em busca do animal que não estava lá. Ao meu lado, uma menininha, acompanhada de uma mulher e duas crianças maiores, virou-se para mim e disse com um lindo sotaque angolano: “A pantera deve estar escondida, a chorar”. Olhei para ela e perguntei: “A chorar? Por quê?” E ela: “Com saudade da floresta”. A menina sabia das coisas. Concordei com ela, me despedi e tomei meu rumo, conferindo um mapa. Aí cheguei ao cemitério dos cães.

O que vi é quase indescritível. Uma área verde, cheia de lápides, algumas revestidas de azulejos coloridos e desenhados, como aqueles que só os portugueses sabem criar. Sobre os túmulos, fotos e esculturas de cães de diversas raças ou de raça nenhuma, acompanhadas de inscrições amorosas, em verso e prosa. Em quase todos, vasos de flores e velas gastas. Vi também algumas lápides de gatos e coelhos de estimação. Vários nomes dos animais ali enterrados me encantaram: Pantufa, Mafaldinha, King-Tico, Flay, Butcha, Lara, Dog, Tansinha, Chorona. No túmulo de um cão chamado Jack, li: “Jack, amigo fiel/ a casa ficou vazia,/de ti hoje só existe / a saudade noite e dia”. Encontrei outros epitáfios comovidos, comoventes, ingênuos, singelos, de sentida sinceridade. Todos, com demonstrações efusivas de gratidão aos bichinhos que já se foram.

Percebi, então, um nítido contraste entre os dois espaços visitados: em um, a vida anestesiada, o olhar esmorecido, a distância solitária dos bichos desprovidos de sua animalidade. Como se para eles houvesse apenas grades no mundo. No outro, a memória de muitas vidas que, provavelmente, valeram a pena ser vividas e compartilhadas com a espécie humana.

Essa visita ao cemitério lisboeta acendeu-me, inclusive, o interesse por outros lugares similares em cidades diferentes. Tanto que, quando fui a Paris, algum tempo depois dessa ida a Portugal, resolvi conhecer o famoso Cemitière des Chiens, em Asnière – a noroeste da cidade, na margem esquerda do Rio Sena.

O lugar fica longe do centro, mas de metrô é possível chegar em menos de meia hora. É um cemitério bonito, com um portal em estilo art nouveau e muitas árvores. Existe desde 1899 e é considerado o primeiro cemitério do gênero. Lá estão enterrados milhares de cães, gatos e outros animais de estimação. Entre os mortos estão animais ilustres, como o cão Rin-Tin-Tin, que se tornou estrela de cinema, e um cão herói do exército de Napoleão, de nome Moustache. Há também inúmeras sepulturas de animais comuns, como as de Milou, Sherazaade, Caline, Kiki, Rita, Nini e Sophie, nas quais estão inscritas mensagens afetuosas. Até Platão, Sócrates, Ulisses e Rimbaud estão lá.

O túmulo mais impressionante, a meu ver, é o de um cachorro chamado Hector (1992-2005), que mereceu o seguinte epitáfio: “Você foi o que de mais belo aconteceu na minha vida”. Mesmo passados oito anos de sua morte, o túmulo tem velas acesas e 12 vasos de flores viçosas, que indicam visitas recentes. Outro dado curioso é a presença de gatos vivos no cemitério. Um deles, preto de olhos verdes, surpreendeu-me perto do túmulo do cão Eliot. Outro, marrom, correu por entre os ciprestes e sumiu.

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Eu soube ainda que um cachorro errante e sem nome veio a morrer na porta do cemitério, em 1958, ganhando, da direção, uma sepultura digna. Hoje, é um dos cães heróis do lugar. Ele bem que podia se chamar Baudelaire.

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* Maria Esther Maciel é escritora e Professora titular de Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil. Publicou, entre outros, os livros: A memória das coisas – ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (2004); O livro de Zenóbia (ficção, 2005); O livro dos nomes (ficção, 2008); Escrever/Pensar o Animal – ensaios de zoopoética e biopolítica (org. 2011); e Literatura e animalidade (ensaios, 2016).

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Dog Cemeteries

by Maria Esther Maciel*

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© Maria Esther Maciel

When I told my friend Zenobia I would spend three days in Lisbon at the end of my July trip, she told me: “Don’t forget to visit the pet cemetery there. It is a place like no other”. And that is what I decided to do on the eve of my return to Brazil.

The cemetery lies at the back of the Lisbon Zoo. Learning this made me grow hesitant, as I dislike zoos. Cages, pens, cells, or any kind of space set aside for the forced confinement of living beings in general have always made me feel an unavoidable discomfort. But I went anyway. That way I could reconfirm my distaste for spaces of confinement and all associated practices of animal exploitation.

Reaching the back of the zoo was an endeavour. I slowly hurried along, as if simultaneously avoiding and wanting to see the animals on display. The heat was suffocating and the noisy people squeezed each other against the fences and glass panes that separated them from the animals who, for the most part, seemed indifferent to humans and their gazes. Some took refuge in the distant corners of their exhibition areas. Others cowered and hid in their landscapes, built as imitations of jungles. I walked by rhinoceroses, giraffes and white tigers. I went through the “Temple of the Primates” and the “Felines’ Den”, arriving at the “Grove of Wonders”, where one sees birds, lizards and snakes. Perched on a railing that surrounded a pit of bushes and rocks was a sign that said Pantera-nebulosa (Clouded Leopard). Out of curiosity, I stopped and tried to find the cat. I couldn’t find it. Other people also scoured the place, searching for the beast who wasn’t there. Beside me, a little girl, who was with a woman and two older children, turned to me and said, in the loveliest Angolan accent: “The leopard must be hiding, crying”. I looked at her and asked: “Crying? Why?” She replied: “It misses the jungle”. The girl knew things. I agreed with her, said goodbye and went on my way, after checking a map. And then I reached the pet cemetery.

What I saw is almost indescribable. A green field dotted with tombstones, some covered with coloured tiles, the kind that only the Portuguese know how to make. On the tombstones, photographs and statues of dogs of many distinct breeds, or no breed at all, accompanied by loving inscriptions, both in verse and in prose. On almost all of them, flower vases and burned candles. I also saw headstones for cats and pet rabbits. Many of the names I saw delighted me: Pantufa, Mafaldinha, King-Tico, Flay, Butcha, Lara, Dog, Tansinha, Chorona. On the grave of a dog named Jack, I read: “Jack, faithful friend / the house has become empty, / of you all that remains / is longing, on night and day”. I found moved, moving, naïve, simple and sincere epitaphs. All of them, invariably, bearing demonstrations of effusive gratitude towards their departed pets.

I then realised a glaring contrast between the two adjacent spaces I visited: in one, the anaesthetised life, the waning gazes, the solitary distance of animals stripped of their animality. As if their world was limited to cages and bars. In the other, memories of many lives that were probably worth having been lived and shared with humankind.

This visit to the Lisbonite cemetery made me want to visit similar sites in different cities. So much that, when I went to Paris sometime after my trip to Lisbon, I decided to visit the famous Cemitière des Chiens, in Ansière – northwest of the city proper, on the left bank of la Seine.

The place is far from the city centre, but the subway makes it possible to reach it in less than half an hour. It is a beautiful cemetery, with an art-nouveau entry gate and many trees. As it exists since 1899, it is considered the first cemetery of its kind. Thousands of cats, dogs and other pets are buried there. Among the dead are illustrious animals, such as the dog Rin-Tin-Tin, who became a movie star, and a heroic dog from Napoleon’s army, called Moustache. There are also countless graves of common animals, like those of Milou, Sherazaade, Caline, Kiki, Rita, Nini and Sophie, onto which messages of affection are inscribed. Even Plato, Socrates, Ulysses and Rimbaud are there.

The tombstone that impressed me the most was dedicated to a dog called Hector (1992-2005), who earned the following epitaph: “You were the most beautiful thing that ever happened in my life”. Even eight years after Hector’s death, the grave is decorated with lit candles and twelve vases of thriving flowers, indicatives of recent visits. Another curious thing about this cemetery is the amount of living cats. One of them, black with vivid green eyes, surprised me near the dog Eliot’s tomb. Another, a brown tabby, ran towards the cypresses and disappeared.

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I also heard that an errant and nameless dog died at the cemetery’s gates in 1958, earning a worthy tombstone from the managers. Nowadays, he is one of the place’s famous dogs. He could very well have been called Baudelaire.

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*Maria Esther Maciel she is a writer and a full professor of Literary Theory and Comparative Literature at the Federal University of Minas Gerais, Brazil. She has published, among others, the books: A memória das coisas – ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (2004) (The memory of things – literature essays, film and visual arts); O livro de Zenóbia (ficção, 2005) (The book of Zenóbia); O livro dos nomes (ficção, 2008) (The book of names); Escrever/Pensar o Animal – ensaios de zoopoética e biopolítica (org. 2011) (Writing / Thinking the Animal – zoopoética tests and biopolitics); and Literatura e animalidade (ensaios, 2016) (Literature and animality).

translated by Ricardo Maciel dos Anjos

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A Amazónia:

Inferno Verde ou Paraíso Terrestre?

por Patrícia Vieira*

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A Amazónia tem sido muitas vezes descrita como hostil aos estranhos que se aventuram por sua conta e risco no seu espaço ameaçador. Refletindo sobre as suas viagens pela região no início do século XX, o escritor brasileiro Euclides da Cunha considerava os seres humanos “intrusos impertinentes” (Paraíso, 116) na área, de frente para um “adversário perigoso,” a “Natureza soberana e brutal” (Paraíso, 125).[i] O amigo de Euclides, Alberto Rangel, numa colecção de contos de 1908, caracterizou a Amazónia como um “inferno verde”. A última narrativa do livro descreve a agonia de um engenheiro do Sul do Brasil que vai para a região na esperança de adquirir riqueza e morre da malária na selva infernal. Mesmo Raul Bopp, cujo longo poema Cobra Norato (1931) foi fortemente influenciado pela mitologia, folclore e linguagem dos habitantes da Amazónia, afirma “a floresta é um inimigo do homem” (10).
Em todas estas formulações, a Natureza amazónica e as suas ameaças, colocam em perigo esses estranhos com ela não familiarizados. Porque é esta região considerada tão perigosa? Para Euclides, é “fácil de entender a vida vegetativa, com lazer e sem riscos” na Amazónia, mas não “a vibração delicada de espírito na dinâmica das ideias” (Paraíso, 125). Ele acrescenta que “a Natureza […] em nenhum outro território impõe sobre ele [o homem] em termos mais severos uma forma de vida animal” (Paraíso, 372). É a sua própria humanidade, a sua separação do ambiente natural, que põe em perigo aqueles que chegam à Amazónia. Nesta área, os seres humanos precisam de despojar-se das suas racionais e pensantes qualidades e de se concentrar na sua existência física. O “caminho da vida animal” que Euclides descreve, um tanto paradoxalmente, como “vegetativo”, é a única possibilidade de sobrevivência num lugar onde a Natureza reina, suprema.
Espaço atemporal – “dias passam inutilmente antes da estranha imobilidade da paisagem […], com a sensação de angústia de que a vida está parada […], a ideia do tempo que se está extinguindo” (Euclides, Paraíso, 145) -, a Amazónia resiste a todos os esforços humanos para a gerenciar, organizar e disciplinar. O seu carácter indomável é uma sinédoque para a proliferação incontrolável da própria vida: “Tudo está vivo [na Amazônia], não importa quão pequeno seja. Não se pode reduzir a vida a um indivíduo. É a solidariedade do que é infinitamente pequeno, essencial, elementar, inseparável, na república de embriões sinergéticos. O que quer que reste […] reproduz com facilidade, na pressa latente e irrestrita de sempre procriar “(Humboldt, quoted by Euclides,”Preâmbulo”, 16). Os humanos são incapazes de impôr as suas regras sobre a força incontrolável da Natureza amazónica. Na selva, as leis das polis desmoronam diante da anarquia da vida vegetal e animal que engole tudo no seu caminho, com uma força incontida semelhante à do poderoso rio Amazonas.
A visão da Amazónia como um ambiente perigoso, inóspito e indisciplinado é encapsulado no próprio nome “Amazonas”, que alude às temíveis, míticas, mulheres guerreiras da Grécia Antiga[ii]. Havendo referência a terem sido vistas por alguns dos primeiros exploradores da região, as mulheres fabulosas lutadoras encarnam o medo Europeu do desconhecido e a feminização persistente da terra americana à espera de ser dominada, embora com esforço e dificuldades consideráveis, pelos conquistadores do sexo masculino. Mesmo assim, a Amazónia está não só para os perigos terríveis mas também para as infinitas possibilidades. A lenda do El Dorado, uma cidade feita de ouro e localizada, de acordo com alguns relatos, no meio da selva amazónica, exemplifica a associação precoce da área com a riqueza prodigiosa[iii]. A ideia de que a terra possuía recursos ilimitados para serem exploradas pelos colonizadores permaneceu um esteio de reflexões sobre a região ao longo de sua história. Na segunda metade do século XVIII, o padre jesuíta João Daniel escreveu o seu Treasure Found on the Large Amazon River (Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas), com a intenção de ensinar o Português e o Espanhol para aproveitar o “tesouro” que Deus colocou nas suas mãos, ou seja, a bacia amazónica abundante. Daniel recomendou que o território fosse povoado e que a terra, “o relvado mais fértil de toda a terra” (vi), fosse intensamente cultivada, tornando a Amazônia uma “delícia para os homens, um prazer para a vida, e uma fonte de inveja para o resto do mundo”(vi). A destruição actual da floresta em nome do desenvolvimento agrícola, segue os passos e planos ambiciosos de Daniel para cultivar o território.
Enquanto alguns exploradores procuraram na Amazónia um bilhete para a riqueza, uma promessa que se materializou durante o boom de borracha na região, 1879-1912, quando os lucros da venda de látex foram tão altos que foi apelidado de “ouro branco”, outros equiparam-na a uma intocada Natureza pré-queda. No seu Curious and Necessary News of Things from Brazil (Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil), publicado pela primeira vez em 1668, o padre português Simão de Vasconcelos insinuava o facto de as terras brasileiras, e a Amazónia em particular, ser comparável ao Paraíso de Eva e Adão. Numa secção inédita de seu livro, que foi censurado na época pela Inquisição, Vasconcelos lista vários argumentos em favor de sua tese, incluindo o clima invariavelmente temperado e a natureza fértil da região (161-3). O historiador brasileiro Sérgio Buarque de Holanda estudou as referências frequentes ao Jardim do Éden na colonização do Brasil, no seu trabalho seminal Vision of Paradise (Visão do Paraíso, 1959). A retórica edénica dos colonizadores fez coro com a opinião defendida por muitas tribos indígenas Tupi-Guarani, de uma abundante “terra sem males”, onde os seres humanos vão um dia viver como deuses[iv]. A associação do espaço amazónico com a Natureza intocada e o facto de um grande número de grupos indígenas sobreviventes no Brasil viverem na região, contribuiu para cimentar a sua imagem de Paraíso na Terra. A visão actual da Amazónia como um território de Natureza intocada, ameaçada pela modernização e habitada por povos indígenas cujo modo de vida, em sintonia com o meio ambiente natural, está sob ameaça, retorna às conotações paradisíacas do lugar desde que os primeiros europeus chegaram a essa parte do Novo Mundo.

O desafio que enfrentamos é o de ir além dos clichês que atribuem tanto uma natureza infernal ou uma natureza paradisíaca à Amazônia e tentar ver a floresta de novo. O que nos diz a Amazónia sobre si mesma? Estamos preparados para ouvir os seus contos?

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[i] Esta e todas as outras citações de um original em português foram traduzidos para o inglês pela autora.

[ii] Para mais detalhes sobre a lenda do Amazonas e sua adaptação ao contexto americano ver Slater 81ff.

[iii] Para uma descrição do mito do El Dorado e da sua relação com a Amazónia ver Slater 29ff.

[iv] Para uma análise da crença indígena numa “terra sem males” ver Clastres.

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Obras citadas

Bopp, Raul. Cobra Norato. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.

Carvajal, Gaspar de. The Discovery of the Amazon, According to the Account of Friar Gaspar de Carvajal and Other Documents. Trans. Bertram E. Lee, ed. H. C. Heaton, New York: American Geographical Society, 1934.

Clastres, Hélène. The Land without Evil: Tupi-Guarani Profetism. Urbana: University of Illinois Press, 1995.

Cunha, Euclides da. Um Paraíso Perdido. Ensaios Amazônicos. Brasília: Senado Federal, 2000.

—, “Preâmbulo,” Inferno Verde. Cenas e Cenários do Amazonas. Alberto Rangel. Tipografia Arrault: Tours, 1927. 1-22.

Daniel. João. Quinta Parte do Tesouro Descoberto no Rio Máximo Amazonas. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1820.

Favaro, Thomas. “Transamazônica. 40 Anos de Poeira.” Veja. Sept. 2009. http://veja.abril.com.br/especiais/amazonia/40-anos-poeira-p-54.html, consulted 09.04.2014.

Sá, Lúcia. Rain Forest Literatures: Amazonian Texts and Latin American Culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.

Slater, Candace. Entangled Edens: Visions of the Amazon. Berkeley, Los Angeles and London: University of California Press, 2002.

Vasconcelos, Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001.

 

* Patrícia Vieira, Georgetown University . http://www.patriciavieira.net

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© Ilda Teresa Castro

 

The Amazon: Green Hell or Earthly Paradise?

 by Patrícia Vieira*

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.The Amazon has often been depicted as hostile to outsiders, who venture at their own risk into a threatening space. Reflecting upon his travels in the region in the beginning of the twentieth century, Brazilian writer Euclides da Cunha considered humans to be “impertinent intruders” (Paraíso, 116) in the area, facing a “dangerous adversary,” a “sovereign and brutal nature” (Paraíso, 125).[i] Euclides’s friend Alberto Rangel characterized the Amazon as a “green hell” in a collection of short stories from 1908. The last narrative of the book describes the agony of an engineer from the South of Brazil who goes to the region hoping to acquire wealth and dies of malaria in the hellish jungle. Even Raul Bopp, whose long poem Cobra Norato (1931) was heavily influenced by the mythology, folklore and language of Amazon inhabitants, states that “the forest is an enemy of man” (10).

In all of these formulations, Amazonian nature and its perceived threats imperil those outsiders not acquainted with it. Why is this region deemed so dangerous? For Euclides, it is “easy to understand a vegetative life, with leisure and without risks” in the Amazon, but not “the delicate vibration of spirit in the dynamic of ideas” (Paraíso, 125). He adds that “nature […] in no other territory imposes upon him [man] in harshest terms an animal way of life” (Paraíso, 372). It is their very humanity, their separation from the natural environment, that endangers those who arrive in the Amazon. In this area, human beings need to divest themselves of their rational, thinking qualities and focus on their physical existence. The “animal way of life” that Euclides describes, somewhat paradoxically, as “vegetative,” is the only possibility of survival in a place where nature reigns supreme.

A timeless space — “days pass uselessly before the strange immobility of the landscape […], with the anguished sensation that life is stopped […], the idea of time being extinguished” (Euclides, Paraíso, 145)—, the Amazon resists all human efforts to manage, organize and discipline it. Its indomitable character is a synecdoche for the uncontrollable proliferation of life itself: “Everything is alive [in the Amazon], no matter how small. One cannot reduce life to an individual. It is the solidarity of what is infinitely small, essential, elemental, inseparable in the republic of synergetic embryos. Whatever remains […] reproduces with ease, in the latent and unrestrained rush to always procreate” (Humboldt, quoted by Euclides, “Preâmbulo,” 16). Humans are unable to impose their rules upon the uncontainable force of Amazonian nature. In the jungle, the laws of the polis crumble before the anarchy of vegetal and animal life that engulfs everything in its path, with an unrestrained force akin to that of the powerful Amazon river.

The view of the Amazon as a dangerous, inhospitable and unruly environment is encapsulated in the very name “Amazon” that alludes to the fearsome, mythical, female warriors of Ancient Greece.[ii] Reported to have been sighted by some of the first explorers of the region, the fabled women fighters embodied the European fear of the unknown and the persistent feminization of the American land that lay in wait to be dominated, albeit with considerable effort and hardship, by the male conquistadores. Even so, the Amazon stood not only for terrible hazards but also for endless possibilities. The legend of El Dorado, a city made of gold located, according to some accounts, deep in the Amazon jungle, exemplifies the early association of the area with prodigious wealth.[iii] The idea that the land possessed unlimited resources to be exploited by colonizers remained a mainstay of reflections on the region throughout its history. In the second half of the eighteenth century, Jesuit Priest João Daniel wrote his Treasure Found on the Large Amazon River (Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas), with the intention of teaching the Portuguese and the Spanish to take advantage of the “treasure” that God had placed in their hands, namely, the bountiful Amazon basin. Daniel recommended that the territory be populated and that the land, “the most fertile turf of the whole earth” (vi), be intensively cultivated, making the Amazon a “delight for men, a pleasure for life, and a source of envy for the rest of the world” (vi). The present-day destruction of the forest in the name of agricultural development follows in the footsteps of Daniel’s ambitious plans to cultivate the territory.

While some explorers sought in the Amazon a ticket to wealth, a promise that materialized during the 1879-1912 rubber boom in the region, when the profits from the sale of latex were so high that it was dubbed “white gold,” others equated it to an unspoiled, prelapsarian nature. In his Curious and Necessary News of Things from Brazil (Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil), first published in 1668, Portuguese Priest Simão de Vasconcelos hinted at the fact that Brazilian land, and the Amazon in particular, was comparable to the Paradise of Eve and Adam. In an unpublished section of his book, which was censored at the time by the Inquisition, Vasconcelos listed various arguments in favor of his thesis, including the temperate, unvarying climate and the fertile nature of the region (161-3). Brazilian historian Sérgio Buarque de Holanda has studied the frequent references to the Garden of Eden in the colonization of Brazil in his seminal work Vision of Paradise (Visão do Paraíso, 1959). The Edenic rhetoric of the colonizers chimed in with the belief espoused by many Tupi-Guarani indigenous tribes in a plentiful “land without evil,” where human beings will one day live like gods.[iv] The association of the Amazonian space with untouched nature and the fact that a large number of the surviving indigenous groups of Brazil live in the region contributed to cementing its image as Paradise on earth. The current vision of the Amazon as a territory of pristine nature endangered by modernization and inhabited by indigenous people whose way of life, in tune with the natural environment, is under threat, goes back to the Paradisiac connotations of the area in place ever since the first Europeans reached that part of the New World.

The challenge we face is to move beyond the clichés that attribute either a hellish or a paradisiac nature to Amazon and attempt to see the forest anew. What does the Amazon tell us about itself? Are we prepared to listen to its tales?

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[i] This and all other citations from a Portuguese original have been translated into English by the author.

[ii] For more details about the legend of the Amazons and its adaptation to the American context see Slater 81ff.

[iii] For a description of the myth of El Dorado and its relation to the Amazon see Slater 29ff.

[iv] For an analysis of the indigenous belief in a “land without evil” see Clastres.

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Works Cited

Bopp, Raul. Cobra Norato. Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.

Carvajal, Gaspar de. The Discovery of the Amazon, According to the Account of Friar Gaspar de Carvajal and Other Documents. Trans. Bertram E. Lee, ed. H. C. Heaton, New York: American Geographical Society, 1934.

Clastres, Hélène. The Land without Evil: Tupi-Guarani Profetism. Urbana: University of Illinois Press, 1995.

Cunha, Euclides da. Um Paraíso Perdido. Ensaios Amazônicos. Brasília: Senado Federal, 2000.

—, “Preâmbulo,” Inferno Verde. Cenas e Cenários do Amazonas. Alberto Rangel. Tipografia Arrault: Tours, 1927. 1-22.

Daniel. João. Quinta Parte do Tesouro Descoberto no Rio Máximo Amazonas. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1820.

Favaro, Thomas. “Transamazônica. 40 Anos de Poeira.” Veja. Sept. 2009. http://veja.abril.com.br/especiais/amazonia/40-anos-poeira-p-54.html, consulted 09.04.2014.

Sá, Lúcia. Rain Forest Literatures: Amazonian Texts and Latin American Culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.

Slater, Candace. Entangled Edens: Visions of the Amazon. Berkeley, Los Angeles and London: University of California Press, 2002.

Vasconcelos, Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001.

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* Patrícia Vieira, Georgetown University . http://www.patriciavieira.net

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