fotografia / photography

português/english

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Brigitte Bauer e ‘Dogwalk’ / Brigitte Bauer and ‘Dogwalk’, João Bento

(artigo / article – no. VII . 2016)

Jo Longhurst, Julia Schlosser, Lisa Strömbeck, João Bento

(artigo / article – no. VI . 2015)

Breve História do Cão na Fotografia / A Short History of Dogs in Photography, João Bento

(artigo / article – no. V . 2015)

Pássaros Românticos / Romantic birds, João Bento

(artigo / article – no. IV . 2014)

A Artista que Parece uma Árvore mas Não É uma Árvore / The Artist that Looks Like a Tree but is Not a Tree, João Bento

(artigo / article – no. III . 2014)

A Origem do Fauna & Flora / The Origin of Fauna & Flora, João Bento

(artigo / article – no. II . 2014)

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Brigitte Bauer e ‘Dogwalk’

entrevista por João Bento*

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© Brigitte Bauer

Brigitte Bauer nasceu em 1959, na Alemanha. Vive e trabalha em Arles, França, desde 1987. Bauer trabalha com fotografia e vídeo. O seu mais recente projeto intitula-se ‘Dogwalk’ (2011-2014).

Quando é que iniciaste a tua carreira? No teu website está escrito que ‘Ostdeutschland’ foi fotografado em 1990, mas, aparentemente, as imagens estiveram de algum modo esquecidas até 2009. O teu primeiro projeto de relevo foi ‘Montagne Sainte-Victoire’, realizado entre 1992 e 1994 – concordas?

Brigitte Bauer: De facto, a minha carreira começou com ‘Montagne Sainte-Victoire’. Foi com essa série que surgiu a minha primeira exposição e as primeiras vendas para coleções públicas e privadas. As fotografias de ‘Ostdeutschland’ foram feitas em 1990 – imediatamente após ter recebido o meu diploma pela Ecole Nationale Supérieure de la Photographie em Arles – e não pertenciam a nenhum projeto elaborado. Tratavam-se somente de fotos que realizei na minha primeira viagem à antiga Alemanha de Leste no verão de 1990, no período seguinte à queda do Muro de Berlim, antes da reunificação. Tive essas imagens esquecidas durante muito tempo. Apenas regressei a elas em 2012, quando a Ecole Nationale pediu a alguns dos seus antigos alunos uma contribuição para o livro ‘Qu’avez-vous fait de la photographie’, publicado para a comemoração do 30.º aniversário da escola.

Como descreverias a tua prática artística?

O meu trabalho incide sobretudo na exploração do mundano e de lugares não espetaculares. Após ‘Montagne Sainte-Victoire’ apercebi-me de que não tinha interesse por lugares de grande beleza e significado especial (‘Montagne Sainte-Victoire’ possui uma longa tradição na pintura). Eu procuro ir a lugares que são verdadeiramente banais e onde posso descobrir algo interessante, como jogadores de paintball na floresta (‘Jeu de forêt’, 2008) ou casais nas ruas de Alexandria, no Egipto (‘Fragments d’intimité – Alexandrie’, 2005-07). Uma outra vertente do meu trabalho é mais pessoal, como o questionar da identidade cultural em ‘D’Allemagne’ (2001-2002) ou o recente ‘Dogwalk’, que diz respeito a um aspeto da minha vida do dia a dia. No geral, a minha abordagem parece documental, mas penso que cada fotografia se trata de uma construção de algum tipo e por vezes existem elementos de ‘mise en scène’ no meu trabalho que poderão não ser muito óbvios ou identificáveis. Por exemplo, nos projetos ‘Aller aux jardins’ (2010-2011) e ‘AlexWest’ (2009 / 2012 / em curso).

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© Brigitte Bauer

Qual é a relação entre o projeto coletivo ‘France(s) Territoire Liquide’, Paul Wombell e o teu projeto ‘Dogwalk’?

A ideia por trás de France(s) Territoire Liquide (FTL) era a de reunir vários fotógrafos – de diferentes contextos, de origens diversificadas e várias idades – e investigar coletivamente a paisagem francesa dos dias de hoje, seguindo o exemplo de projetos coletivos anteriores como DATAR, da década de 1980. Os quatro fotógrafos que deram início ao FTL desejavam trabalhar com um curador independente e escolheram Paul Wombell, pela sua extensa experiência e excelente competência. Eu fui então convidada a participar, como um dos fotógrafos. Não havia dinheiro e cada um tinha de realizar o seu trabalho pelos seus próprios meios. Essa foi uma das razões pelas quais decidi fazer um projeto em “casa”. Além disso, nunca antes tinha levado a cabo um trabalho em Arles e já me encontro a viver aqui há 26 anos. Iniciei o ‘Dogwalk’ no final de 2011 e parei em março de 2014, de modo a estar pronto para a exposição coletiva no TriPostal em Lille, em junho desse mesmo ano. Paul validou todos os projetos, esteve fortemente envolvido na apresentação das obras na exposição e redigiu todos os textos introdutórios.

Quanto deste projeto aborda a natureza da atividade de passear cães e quanto é acerca das coisas que observas enquanto passeias o cão. Consideras apropriado fazer-se esta distinção?

Ambas as coisas são dependentes uma da outra, de modo que é difícil fazer uma distinção. Todos os passeios tiveram lugar em áreas onde não haviam carros e onde fosse seguro a minha cadela, Charo, mover-se à vontade. De certo modo, adaptei-me ao ritmo dela e apercebi-me de coisas em que não teria reparado se me encontrasse a passear sozinha. Por exemplo, quando a Charo me trazia de volta um pau, eu tinha de me baixar para o apanhar, o que me proporcionava uma nova perspetiva e permitia ver as coisas de um angulo diferente. Prestei atenção a coisas que normalmente não noto, como coisas espalhadas pelo chão, pedaços de lixo ou pequenas flores. Quando vejo a Charo a erguer o nariz no ar, pergunto-me o que será que ela está a farejar e como poderá ser tal cheiro. “Dog walking” também significa “rotina” e “repetição”, e ambas podem ser muito úteis para reparar em coisas. Normalmente eu não regresso dezenas de vezes aos mesmos lugares, mas desta vez foi isso que fiz. Tirei muitas fotos do mesmo local ou do mesmo objeto em diferentes ocasiões. Decidi não guardar mais do que 12 imagens de cada passeio. Ainda assim, terminei o projeto com aproximadamente 3000 fotografias.

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© Brigitte Bauer

Podes falar-me sobre o uso duma câmara de telemóvel para desenvolver o projeto?

Foi a primeira vez que usei uma máquina fotográfica de telemóvel (um Samsung Galaxy S) para um trabalho “sério” e fiquei verdadeiramente impressionada com a qualidade das imagens. Claro, não poderei imprimir grandes ampliações, mas isso não é um problema, pois considero que não têm a necessidade de ser muito ampliadas. 30×40 cm é óptimo. Usando o menu da câmara, é possível fazer alguns ajustes, como o modo de focagem por exemplo, o que é útil. Aquilo de que senti falta foi uma alça para pendurar o telemóvel no pescoço! Teria sido muito útil, especialmente quando a Charo me pedia para apanhar e lhe lançar o pau!

Partindo das imagens que apresentaste, poderemos imaginar que apenas passeaste a Charo durante o dia e que não saíam se estivesse a chover. Tentaste fazer fotografias em ocasiões em que fizesse mau tempo e durante a noite?

Por vezes chovia e eu tirava fotografias, mas há apenas umas poucas imagens com mau tempo porque não é frequente esse tipo de clima aqui no sul de França. Eu nunca saio durante a noite para estes passeios – na maioria dos sítios em que fotografei não existem postes de iluminação, de modo que não seria capaz de ver nada. Eu vivo numa casa com um enorme jardim e, portanto, não há a necessidade de sair com a Charo logo cedo pela manhã ou à noitinha.

A Charo que tipo de cão é?

É um cruzamento, Border collie e Malinois (Pastor-belga).

Charo é um nome interessante – de onde é que surgiu?

É um nome espanhol, é o diminutivo de “Rosario”, e é também a personagem principal de uma série de livros do autor espanhol Manuel Vázquez Montalbán, na qual Charo é a namorada prostituta de Pepe Carvalho.

Que idade é que tem?

Tem 14 anos, nasceu em abril.

Como é que a Charo surgiu na tua vida?

A Charo veio de um refúgio para animais. Foi lá que ela nasceu e está comigo desde as 6 semanas de idade.

Já tinhas tido outros cães antes?

Não. Teria adorado, mas quando era mais jovem o meu estilo de vida tornava isso difícil (viagens constantes, viver sozinha em apartamentos minúsculos). Mas os meus pais tinham uma quinta e eu cresci com diversos tipos de animais.

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© Brigitte Bauer

Alguns fotógrafos realizaram obras com ou acerca dos seus cães de forma a reconhecer a sua importância. Poderia esta ser uma dimensão oculta no teu trabalho?

Ao princípio não era. Quando comecei a refletir acerca do FTL limitei-me a pensar sobre onde e como poderia eu fazer um trabalho de paisagem de longa duração. Então, rapidamente, tomei consciência de que a Charo é verdadeiramente o coração deste trabalho e alegra-me mostrar desta forma o quão importante é ela na minha vida. Ver como vivemos com os nossos cães, observar os nossos amigos com os seus cães, eu considero-os membros da família a 100%. Não como filhos, claro – jamais chamaria a Charo de “minha bebé” ou coisa do género – mas como verdadeiras companhias.

Em Lille apresentaste três grupos de imagens (‘Classements’, ‘Promenades’ e ‘Poteau rouge’), e ainda um vídeo feito na perspetiva da Charo (‘Charo’s video’) e uma única imagem da Charo (‘2014-02-23 15.51.37’). Qual foi a intenção em apresentar uma fotografia isoladamente? Para mim tem o efeito de uma foto determinadora, a qual afirma “isto trata-se de um projeto acerca de passear este cão, nesta paisagem concreta, num momento particular da minha vida.”

Sim, é isso mesmo. Para mim era importante mostrar uma imagem isolada da Charo, mas não numa situação específica. Esta pretende ser uma espécie de foto “genérica” (representativa) de todas as outras. Além disso, cada fotografia que tirei durante este projeto poderia ser apresentada isoladamente.

Em ‘Classements’ observamos diferentes objetos, vistas e situações que encontraste durante os passeios. A série ‘Promenades’ mostra os vários locais em que passeaste com a Charo. ‘Poteau rouge’ é uma peça que mostra um local particular de diversas formas…

O passeio ao longo do rio é um dos meus caminhos favoritos. Existe uma estrutura vermelha situada mais ou menos a meio do caminho em que reparei de todas as vezes. É um objeto visualmente forte na paisagem, que eu já conhecia ainda antes de ter a Charo. Para a exposição combinei imagens de vários passeios ao longo do rio numa só peça e posicionei sempre as imagens do “poteau rouge” de modo a que, no final, criassem uma linha vertical de estruturas vermelhas.

Qual foi a reação inicial das pessoas ao teu trabalho na exposição?

Pelo que pude observar, as reações foram muito variadas. Algumas pessoas não mostraram qualquer interesse, limitavam-se a passar em frente das molduras, enquanto que outras prestavam uma atenção cuidadosa a cada peça do trabalho. Houve questões frequentes acerca do número de imagens, da frequência dos passeios e as pessoas tiveram curiosidade em saber como é que selecionei as fotos de entre as 3000 com que terminei. Algumas pessoas acharam divertido e outras mostraram sincero interesse no facto de um animal ter sido um verdadeiro colaborador nesta obra.

Brigitte Bauer tem patente a exposição ‘Dogwalk’ com France(s) Territoire Liquide no MAPRAA em Lyon até 25 de maio, e terá em breve uma exposição no Parcours de l’Art em Avignon de 1 a 23 de outubro de 2016.

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*João Bento é editor de Fauna & Flora, uma plataforma de investigação sobre animais e plantas na fotografia (www.faunaandflora.org). No domínio fotográfico, investiga e desenvolve trabalho artístico, organiza e lecciona workshops, e é colaborador regular da revista Four&Sons.

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Brigitte Bauer and ‘Dogwalk’

interview by João Bento*

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© Brigitte Bauer

Brigitte Bauer was born in 1959 in Germany. She has been living and working in Arles, France, since 1987. Bauer works with photography and video. Her most recent project is called ‘Dogwalk’ (2011-2014).

João Bento: When did you start your artistic career? On your website it is written that ‘Ostdeutschland’ was photographed in 1990 but, apparently, the images were somewhat forgotten until 2009. Your first significant project was ‘Montagne Sainte-Victoire’, made between 1992 and 1994 – would you agree?

Brigitte Bauer: Indeed, my career started with ‘Montagne Sainte-Victoire’. With that series I had my first exhibitions and first purchases for public and private collections. The photographs from ‘Ostdeutschland’ were made in 1990 – just after my diploma at the Ecole Nationale Supérieure de la Photographie in Arles – and they were not part of an elaborate project. They were just pictures that I made on my first trip to former East Germany in the summer of 1990, in the period after the fall of the Wall, before the reunification. I forgot about these images for a long time. I only came back to them in 2012 when the Ecole Nationale asked some of their former students for a contribution to the book ‘Qu’avez-vous fait de la photographie’, published to commemorate the 30th anniversary of the school.

How do you describe your artistic practice?

My work is mostly about the exploration of the mundane and unspectacular places. After ‘Montagne Sainte-Victoire’ I realised that I was not interested in places of significant beauty and special meaning (‘Montagne Sainte-Victoire’ has a long tradition in painting). I often go to places that are really ordinary and where I might discover something interesting, like paintball players in the forest (‘Jeu de forêt’, 2008) or couples in the streets of Alexandria, Egypt (‘Fragments d’intimité – Alexandrie’, 2005-07). Another part of my work is more personal, as the questioning of cultural identity in ‘D’Allemagne’ (2001-2002) or the recent ‘Dogwalk’, that is concerned with an aspect of my everyday life. In general, my approach looks documentary but I think that every photograph is a construction of some sort and sometimes in my work there are elements of ‘mise en scène’ that might not be so obvious to identify. For example, in the projects ‘Aller aux jardins’ (2010-2011) and in ‘AlexWest’ (2009 / 2012 / ongoing).

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© Brigitte Bauer

What is the relationship between the collective project ‘France(s) Territoire Liquide’, Paul Wombell and your project ‘Dogwalk’?

The idea behind France(s) Territoire Liquide (FTL) was to gather many photographers – from different backgrounds, various locations and different ages too – and collectively investigate the French landscape(s) of today, following the example of previous group projects such as DATAR in the 1980’s. The four photographers that started FTL wanted to work with an independent curator and chose Paul Wombell, for his long experience and excellent skill. I was then invited to participate, as one of the photographers.There was no money and everybody had to do the work within his or her own means. That is one of the reasons why I decided to do a project ‘at home’. Also, I have never created work in Arles before and I have been living here for 26 years now. I started ‘Dogwalk’ at the end of 2011 and I stopped in March 2014 to be ready for the big group exhibition at TriPostal in Lille in June of that year. Paul validated every project, he was heavily involved in the presentation of the work at the exhibition and he wrote all the introductory texts.

How much of this project is about the nature of dog walking and how much is about the things you saw while dog walking? Do you think it is appropriate to make a distinction?

The two depend on each other so it is hard to make a distinction. All the walks took place in areas where there were no cars and where it was safe for my dog Charo to move around. I more-or-less adapted to her rhythm and I noticed things that I would not have seen if I had been walking alone. For example, when Charo brought her stick back to me, I had to bend to collect it, so I got a new perspective and saw things from a different angle. I paid attention to stuff I usually do not notice, like things lying on the ground, pieces of garbage or little flowers. When I see Charo putting her nose in the air, I wonder what she is smelling and how such a smelling world could be. “Dog walking” also means “routine” and “repetition”, both of which can be very useful for seeing things. Normally I don’t go back dozens of times to the same places but this time I did. I took many pictures of the same place or the same object on different occasions. I decided to keep no more than 12 images from each walk. Still, I finished the project with nearly 3000 photographs to choose from.

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© Brigitte Bauer

Can you tell me about using a mobile phone camera to develop the project?

It was the first time that I used a mobile phone camera (a Samsung Galaxy S) for ‘serious’ work and I was really surprised by the quality of the images. Of course, I will not be able to make big prints, but that is not a problem because I consider that these images do not need to be enlarged. 30×40 cm is OK. Using the camera menu, it is possible to make some adjustments, like the way it focuses for example, which is useful. What I missed was a shoulder strap to have it around my neck! It would have been useful, especially when Charo asked me to pick up and throw the stick!

From the kind of images that you have shown, one could imagine that you only walked Charo during the day and that you did not go out if it was raining. Did you experiment making photographs during bad weather and at night?

Sometimes it was raining and I took pictures, but there are only a few images with bad weather because the weather does not get like that so often, here in the South of France. I never go out at night for these walks -­ in most places where I photographed there are no streetlights so I would not be able to see anything. I live in a house with a big garden and therefore I do not need to go out with Charo early in the morning or late at night.

What kind of dog is Charo?

A crossbreed, Border Collie and Malinois (Belgian Shepherd).

Charo is an interesting name – where does it come from?

Her name is Spanish, it is the diminutive from “Rosario”, and is also the main character from a series of books by Spanish writer Manuel Vázquez Montalbán, where Charo is the prostitute girlfriend of Pepe Carvalho.

How old is she?

She is 14, born in April.

How did Charo come into your life?

Charo came from an animal refuge. She was born there and we got her when she was 6 weeks old.

Have you had dogs before?

No, I would have loved to, but when I was younger my lifestyle (travelling a lot, living alone, in little flats) made it difficult. But my parents had a farm and I grew up with many kinds of animals.

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© Brigitte Bauer

Some photographers have made work with or about their own dogs as a way to recognise their importance. Could this be a hidden dimension in your work?

In the beginning it was not. When I started thinking about FTL I just thought about where and how I could do a long-term landscape project. Then, quickly, I became conscious that Charo is really at the heart of this work and I am glad to show in this way how important she is in my life. Seeing how we live with our own dogs, and observing friends with their dogs, I consider them 100% to be family members. Not like children of course – I would never call Charo “my baby” or such a thing – but as real companions.

In Lille you showed three groups of images (‘Classements’, ‘Promenades’ and ‘Poteau rouge’), plus a video from Charo’s perspective (‘Charo’s video’) and a single image of Charo (‘2014-02-23 15.51.37’).

What was your intention for presenting a photograph in isolation? It works for me as an establishing shot, one that says “this is a project about walking this dog, in this particular landscape, at a particular moment in my life.”

Yes, you are right. For me it was important to show a single image of Charo, but not in a specific situation. This one is meant to be a kind of “generique” (representative) photo that stands for all the others. Also, every photograph that I took during this project could be shown as a single image.

In ‘Classements’ we see different objects, views and situations that you found during the walks. The series ‘Promenades’ shows several locations where you walked with Charo. ‘Poteau rouge’ is a piece showing one particular place on different days…

The promenade along the river is one of my favourite walks. It has a red structure located more-or-less in the middle of the walk that I noticed every time. It is a strong visual object in the landscape that I knew even before I had Charo. For the exhibition I combined images from many of these walks in one piece and I always positioned the “poteau rouge” images so that, in the end, they made a vertical line of red structures.

What was people’s initial response to your work in the exhibition?

As far as I observed, the reactions were very different. Some people were not interested at all, they just passed by the different frames, while others paid great attention to every piece of the work. Frequent questions were about the number of pictures, the frequency of the walks and people wanted to know how I chose the pictures out of the 3000 that I took. Some found it amusing and others were really interested in the fact that an animal was a real partner in this work.

Brigitte Bauer is currently showing ‘Dogwalk’ with France(s) Territoire Liquide at MAPRAA in Lyon until the 25th of May and has an upcoming exhibition at Parcours de l’Art in Avignon from the 1st to the 23rd of October 2016.

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*João Bento is the editor of Fauna & Flora, a research platform about animals and plants in photography (www.faunaandflora.org). In the photography domain, Bento researches and develops artistic work, organizes and gives workshops, and is regular collaborator of magazine Four&Sons.

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Jo Longhurst, Julia Schlosser, Lisa Strömbeck

por João Bento*

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JJL01© Jo Longhurst

Em ocasiões raras, econtramos trabalhos artísticos com os quais sentimos imediata conexão. Foi isto que me aconteceu quando descobri o trabalho de Jo Longhurst, Julia Schlosser e Lisa Strömbeck. Três artistas do sexo feminino, de diferentes países, que utilizam a fotografia como forma de expressão, sendo os cães um dos seus temas favoritos. A Jo, a Julia e a Lisa, viveram com cães que lhes mudaram as vidas e as inspiraram a criar obras que reflectem sobre o que é ser cão e sobre o relacionamento humano com estes.

A primeira vez que vi o trabalho da Jo foi numa apresentação que ela fez em Newport (País de Gales, Reino Unido) em 2009. ‘The Refusal’ é um projecto contínuo composto por várias peças que examinam diferentes aspectos do “British show Whippet”. As minhas peças favoritas são ‘Portrait of a dog’, com Vincent, e uma imagem de ‘It’s all in my mind’, com Terence. Vincent e Terence são os cães da Jo.

Em ‘Portrait of a dog’ um homem nu e um cão encontram-se estendidos num sofá. Nenhum deles detém poder sobre o outro, o cão possui um estatuto de igualdade para com o homem. Mais ainda, o homem está de costas voltadas, permanecendo anónimo, enquanto que o cão desafia o observador olhando directamente para a câmara. Aqui podemos ver o cão como um sujeito independente, enquanto o homem adormecido revela o seu corpo animal.

JJL02© Jo Longhurst

‘It’s all in my mind’ centra-se nas cabeças dos cães. Numa das imagens, um cão dorme de boca aberta, como que sonhando, ou mesmo ladrando. É-nos assim proporcionada uma espreitadela para o interior da mente rica e complexa dos cães, a qual, tal como a dos humanos, possui também processos inconscientes.

Recomendo a quem tiver interesse em considerações éticas de artistas contemporâneos quando realizam trabalhos sobre animais, o livro ‘Artist | Animal’, de Steve Baker, publicado em 2013. Foi neste livro que descobri a Julia Schlosser.

JJL03© Julia Schlosser

Os trabalhos mais recentes da Julia debruçam-se sobre o viver com os seus animais de estimação. ‘Roam’ é uma colecção de Polaroids realizada no Sepulveda Basin Off Leash Dog Park, em Los Angeles, onde a Julia costumava passear a sua cadela adoptada, Tess. As imagens seguem Tess e outros cães praticando exercício e socializando entre si, temporariamente livres das limitações do espaço doméstico e dos seus donos. A suave qualidade material das imagens, sobreposta a uma câmara próxima do chão, apontada a uma altura aproximada do olhar dos cães, altera a vulgar perspectiva do observador para a de um cão que vagueia pelo parque.

JJL04© Julia Schlosser

À medida que Tess foi envelhecendo e a sua saúde se foi deteriorando, as corridas pelo parque foram gradualmente atingindo um final. Segundo Julia, “agora, em vez de ela me dirigir a mim, sou eu quem a dirige nos seus lentos e arrastados passeios, numa fracção da distância que ela estava acostumada a percorrer.” Estas caminhadas pela vizinhança podem ser observadas em ‘Tether’.

JJL05© Lisa Strömbeck

Durante um período difícil da minha vida, descobri a série da Lisa, ‘Vacation in Goa’. A Lisa travou amizade com uma matilha de cães vadios numa praia de Goa, coisa que, confidenciou-me, acontece onde quer que ela vá. As brincadeiras meigas, as caricias e a companhia relaxante, são uma demonstração da ligação instantânea entre o ser humano e o cão. Acho estas imagens extremamente calorosas e comoventes.

JJL06© Lisa Strömbeck

A Lisa reflete sobre várias formas de relacionamentos no seu trabalho. Em casa, na Suécia, a Lisa tem o seu cão. ‘In Bed’ explora o acto de humanos e cães dormindo juntos, uma atividade que Lisa identifica como “crucial” para muitas pessoas nos tempos que correm. Pessoas que vivem sozinhas, solidão, desordens do sono, depressão e ansiedade, são algumas das razões pelas quais cada vez mais e mais pessoas permitem a companhia dos seus cães na cama. As fotografias retratam sentimentos de relaxamento e calma que a proximidade física com os cães pode permitir. Ivan, fonte de inspiração e participante em tantos dos projetos de Lisa, surge extremamente confortável com as patas viradas para o ar, entre pernas humanas.

Admiro imenso o trabalho da Jo, da Julia e da Lisa. É uma fonte de inspiração que me tem ajudado a pensar sobre o mundo e influenciado o meu trabalho com cães.

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*João Bento é editor de Fauna & Flora, uma plataforma de investigação sobre animais e plantas na fotografia http://www.faunaandflora.org

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Jo Longhurst, Julia Schlosser, Lisa Strömbeck

por João Bento*

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JJL01© Jo Longhurst

Every now and then, we happen to come upon an artist or a piece of art that we immediately resonate with. This is what happened to me with projects made by Jo Longhurst, Julia Schlosser and Lisa Strömbeck. Three female artists, from different countries, using photography (although not exclusively) as a form of expression, and dogs are one of their most important subject matters. Jo, Julia and Lisa lived with dogs that changed their lives, inspiring them to create artwork which questions what it means to be a dog, as well as the dynamics of the human-canine relationship.

My first encounter with Jo’s work was at an artist talk that she gave in Newport (Wales, UK) in 2009. ‘The Refusal’ is an ongoing project made up from various bodies of work that examine different aspects of the British show Whippet. My favourite pieces are ‘Portrait of a dog’, with Vincent, and an image from ‘It’s all in my mind’, with Terence. Vincent and Terence are Jo’s dogs.

In ‘Portrait of a dog’, a naked man and a dog lay together on a couch. Neither of them appears more powerful than the other, the dog has equal status with the man. Moreover, the man has his back to the camera, remaining anonymous while the dog challenges the viewer looking directly at the lens. Here we see the dog as an independent subject, while the sleeping man shows his animal body.

JJL02© Jo Longhurst

The cosy ‘It’s all in my mind’ focuses on the dog’s heads. In one of the images a dog sleeps with his mouth open as he is dreaming and possibly barking. This gives a glimpse into the rich and complex mind of dogs which, just as in the human mind, also operates with unconscious processes.

Steve Baker’s book ‘Artist | Animal’, published in 2013, is highly recommended for those interested in the ethical considerations of contemporary artists when working with animals or representing them. It was here that I serendipitously found Julia Schlosser.

JJL03© Julia Schlosser

Julia’s most recent projects are about living with her own pets. ‘Roam’ is a collection of Polaroids made at Sepulveda Basin Off-Leash Dog Park in LA, where Julia used to take her rescued dog, Tess. The images follow Tess and other dogs having plenty of exercise and socializing with each other, temporarily free from the constraints of the domestic space and their owners. The soft material quality of the images juxtaposed with a low tilted camera viewpoint, alters the usual perspective of the viewer to that of dogs wandering through the park.

JJL04© Julia Schlosser

As Tess grew older and her health started to deteriorate, running in the park came to a gradual end. According to Julia, “now instead of leading me, I lead her on slow, meandering walks, a fraction of the length that she was previously accustomed to taking.” These walks in the neighbourhood can be seen in ‘Tether’.

JJL05© Lisa Strömbeck

While going through some hardships of my own, I came across Lisa’s series ‘Vacation in Goa’. Lisa befriended a pack of free-ranging dogs at the beach in Goa, which, she tells me, happens everywhere she goes. The gentle play, strokes and relaxing company are demonstrative of the instant bond between humans and dogs. I find these images quite warm and moving.

JJL06© Lisa Strömbeck

Lisa looks at many forms of relationships in her work. At home in Sweden, she has her own dog. ‘In Bed’ explores dog-human co-sleeping, something that Lisa identifies as “crucial” for many people nowadays. Single-person households, loneliness, sleeping disorders, depression and anxiety are among the reasons why more and more people allow their dogs to get in bed. The photographs portray feelings of relaxation and calmness which close physicality with dogs can bring. Ivan, muse and participant of so many of Lisa’s projects, appears quite comfortable with four legs up, in between human legs: quite comical.

I highly admire the work of Jo, Julia and Lisa. It’s a source of wonder that has helped me to think about the world and influenced my own work with dogs.

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*João Bento é editor de Fauna & Flora, uma plataforma de investigação sobre animais e plantas na fotografia http://www.faunaandflora.org

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Breve História do Cão na Fotografia

por João Bento*

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Desde há milhares de anos que os cães partilham a sua vida connosco com os humanos, e assim o continuam a fazer nas actuais sociedades pós-industrializadas. Eles são enormemente valorizados como animais de trabalho e desempenham, cada vez mais, um papel importante como companheiros fiéis.

O papel e o estatuto do cão na sociedade, têm sido bem documentados e analisados através da fotografia, desde que esta foi inventada. Contudo, o modo como nós olhamos para o cão através da câmara, não tem sido sempre o mesmo.

Henry Fox Talbot, um pioneiro da fotografia, foi um dos primeiros a captar uma imagem de um animal vivo. Ele registou aquele que se acredita ser o cão da poetiza inglesa Elizabeth Barret Browning. “Flush”, inspiração da poetiza, foi fotografado enquanto dormia.

Até à segunda metade do séc. XIX, era efectivamente impossível registar sujeitos em movimento. Assim que surgiu a possibilidade de usar tempos de exposição mais rápidos, popularizou-se entre os estúdios fotográficos a prática de retratar cães, quer sozinhos ou juntamente com os seus donos. Tradicionalmente, o cão pousava numa posição elevada, sentado numa cadeira ou sobre qualquer outra peça de mobiliário, enquanto o seu dono deixava uma mão repousada sobre o seu corpo – muito provavelmente para evitar que o cão se movesse. Ainda assim, as ditas imagens demonstram uma grande afectividade e admiração pelos cães por parte dos seus donos.

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© Jacques-Henri Lartigue

Durante as primeiras décadas do séc. XX, Jacques-Henri Lartigue (em França) e August Sander (na Alemanha) criaram várias fotografias icónicas. Ambos trabalhavam fora do estúdio, no exterior, com câmaras de grande formato.

Lartigue viria a ficar conhecido pelas suas fotografias de desporto. Ele tirou partido da nova possibilidade de congelar com a sua câmara os movimentos rápidos. A mesma tecnologia garantiu-lhe a possibilidade de captar, por exemplo, a senhora rica passeando com dois cães na Avenida du Bois de Bologne.

Sander foi um tipo de fotógrafo diferente. Ele decidiu criar uma colecção de retratos do povo alemão classificados por ordem. De entre as 431 imagens que ele criou, muitas incluem cães, como o retrato do notário de Colónia, de aspecto rígido e vazio de qualquer emoção, acompanhado por um ameaçador Doberman Pinscher.

Nem Lartigue, nem Sander viam o cão como o sujeito principal, apesar da capacidade que os seus trabalhos possuem de demonstrar a ascensão do estatuto social do cão e do quão bem estabelecido ele se tornou. De um modo geral, este tipo de fotografia com cães, opostamente / em contraponto com a fotografia sobre cães, é até hoje o mais comum.

Entretanto, com a introdução das câmaras portáteis e do filme de 35mm, surgiu a oportunidade de desenvolvimento do fotojornalismo e da fotografia documental. Em 1953, o fotógrafo francês Elliot Erwitt, uniu-se à agência Magnun Photos. Erwitt criou a sua reputação ao captar imagens espontâneas, a preto e branco, de situações irónicas e absurdas em contextos do dia-a-dia, entre as quais, inúmeras fotografias com cães. Estas possuem um forte arranjo formal, encontrando-se o cão frequentemente numa composição relativamente a nós, aos humanos. Algumas das suas fotografias foram feitas próximas do chão, na perspectiva visual de um cão, permitindo recriando aquilo que poderia ser um olhar directo do que é ser-se um cão a viver no nosso mundo do cão sobre o mundo. Ainda assim, as imagens de Erwitt sugerem uma maior compreensão dos donos humanos que posam do que dos cães.

Um novo género de fotografia, mais inclinado para as artes, veio a desenvolver-se nas décadas de 70 e 80. Este período viu o estúdio ressurgir como um local para criar trabalho. Cedo na sua carreira e inicialmente trabalhando com vídeo, William Wegman deu consigo a partilhar o seu espaço com o cão da sua namorada, um Weimaraner chamado Man Ray, cuja incómoda presença viria eventualmente a imiscuir-se no seu trabalho. Wegman gosta de afirmar que as suas imagens não são acerca de cães. Ele fez polaroids enormes, imagens antropomórficas de Man Ray vestido com roupas humanas e em outras cenas bem humoradas.

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© Peter Hujar

Outro fotógrafo com base em Nova Iorque na mesma altura, Peter Hujar, fotografou um amplo leque de assuntos e sujeitos. No livro “Animals and Nudes” publicado após a sua morte, os cães que aí figuram são retratados com a mesma dignidade que os nús que os acompanham, sugerindo igualdade. O trabalho de Hujar deverá ser creditado pelo respeito com que ele os representou.

Trazendo-nos até ao fim do século, à decada de 1990, Tony Mendoza registava a cadela Leela, da sua namorada, brincando em cenários domésticos. Este conjunto de trabalhos é uma das primeiras tentativas de representar o cão tal como ele é, de um modo sistemático e intencional, ao contrário de o usar como um acessório, um símbolo, uma metáfora ou somente um sujeito ocasional e invulgar.

Uma nova geração de fotógrafos com interesse pelo cão surge no séc. XXI. Estes focam-se sobre animais domésticos, enfatizando as suas características únicas e necessidades específicas.

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A Short History of Dogs in Photography

by João Bento*

Dogs have been living with us for thousands of years and continue to do so in current post-industrial societies. They are highly valued as working animals and increasingly, play an important role as loyal companions.

The role and status of dogs in society has been well documented and analysed through photography since its invention. Although, the way we look at dogs with the camera hasn’t been always the same.

Photographic pioneer, Henry Fox Talbot was one of the first to create an image of a living animal. He captured what is believed to be the dog of English poet Elizabeth Barrett Browning. “Flush”, the muse of the poet, was photographed asleep.

Until the second half of the 19th century it was effectively impossible to record moving subjects. When faster exposure times became available, it was a popular thing within photographic studios to make portraits of dogs, either alone, or with their owners. Usually the dog was posed in an elevated position such as sitting on a chair or another piece of furniture, while the owner rested the hand upon the dog – most likely to prevent the dog from moving. Nevertheless, the images show a great deal of affection and admiration from the part of the owners about their dogs.

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© Jacques-Henri Lartigue

In the first decades of the 20th century, Jacques-Henri Lartigue (in France) and August Sander (in Germany) made several iconic photographs. They both operated outside the studio with large format cameras.

Lartigue became best known for his sports photography. He took advantage of the new capacity to freeze fast movement with the camera. The technology also allowed him to develop his techniques and capture, for example, the rich woman walking with two dogs in the Avenue du Bois de Boulogne.

Sander was a different kind of photographer. He decided to create a rank ordered portrait collection of the German people. Among the 431 images that he made, many included dogs, like the portrait of the notary from Cologne, looking stiff and emotionless, accompanied with a menacing Doberman Pinscher.

Neither Lartigue nor Sander looked at dogs as primary subjects, however, their work is capable of demonstrating the rise of status in society and how well established they have become. By large, this kind of photography with dogs instead of about dogs, is the most common until today.

Meanwhile, the introduction of hand-held cameras and 35mm film allowed the development of photojournalism and documentary photography. In 1953, French photographer Elliott Erwitt joined the agency Magnum Photos. Erwitt established his reputation with black and white candid shots of ironic and absurd situations within everyday settings, these include countless photographs with dogs. These have a strong formalistic arrangement, with the dog being most often composed in relation to us humans. Some of his photographs were made close to the ground from a dog’s perspective, allowing a direct view into what it might be like being a dog living in our world. However, Erwitt’s images suggest a better understanding of the owners than of the dogs.

A new kind of photography leaning more toward art developed in the 70’s and 80’s. This period saw the studio re-emerging as a place for making work. Early in his career and initially working with video, William Wegman found himself sharing his space with his girlfriend’s dog, a Weimaraner called Man Ray, who’s annoying presence eventually found its way into his projects. Wegman likes to say, his images are not about dogs. He made large, anthropomorphic polaroids of Man Ray wearing human clothes and in other humourous scenes.

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© Peter Hujar

Also a New York based photographer at this time, Peter Hujar photographed a broad spectrum of subject matter. In the book ‘Animals and Nudes’ published after his death, the dogs that appear are portrayed with the same dignity as the nudes that accompany them, suggesting an equality. Hujar’s work must be credited for the respect with which he represented them.

Bringing us up to the end of the century to the 1990’s, Tony Mendoza depicted his girlfriend’s dog Leela at play in domestic settings. This body of work is one of the first to attempt to represent the dog as it is, in a systematic, intentional way, instead of using it as a prop, a symbol, metaphor, or just an occasional whimsical subject.

A new breed of photographers that focused on the dog has emerged in the 21st century. They have focussed upon domestic animals emphasizing their unique characteristics and specific needs.

*João Bento is the editor of Fauna & Flora, a research platform about animals and plants in photography http://www.faunaandflora.org

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Pássaros Românticos

por João Bento*  .

1. Pássaros muito coloridos, adquiridos numa loja de artesanato, descansam nos ramos das árvores em várias paisagens naturais. É isto que a artista Paula McCartney mostra no livro ‘Bird Watching’ de 2010.

 

O seu trabalho anda à volta da ideia de uma paisagem construída, parcialmente natural, parcialmente artificial. McCartney explica: “Adoro fazer passeios e caminhadas. Quando o faço oiço sempre os pássaros… Os pássaros existem para si mesmos e não para o meu próprio entretenimento. Nunca se consegue vê-los muito bem, eles misturam-se com a paisagem e estão sempre muito longe. Por isso, decidi colocar pássaros artificiais precisamente onde eu queria. As minhas fotografias são fruto de um cenário idealizado.”

 

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vermilion flyeatchers © Paula McCartney

 

2. Desde que foi inventada, os pássaros e os outros animais têm sido alvo de muito interesse pelo mundo da fotografia. Até à decada de 1870, era efectivamente impossível registar objectos em movimento. A fotografia requeria longos tempos de exposição devido à velocidade lenta dos materiais fotossensíveis. Os animais mais fotografados eram aqueles que podiam permanecer quietos: gatos, cães, cavalos e pássaros em gaiolas. Os animais selvagens também podiam ser fotografados mas só enquanto dormiam, em cativeiro ou quando mortos. As composições feitas com animais sem vida eram muitas vezes representativas de um troféu ou transformadas em natureza morta.

 

Nos anos 50, John Dillwyn Llewelyn, do País De Gales tentou simular ambientes vivos fotografando taxidermia em habitats naturais. A taxidermia conferia autenticidade às imagens criadas, e de acordo com a historiadora Margaret Harker “as reacções às fotografias de Llewelyn eram fascinantes. Quando recuperadas dos arquivos depois de muitos anos e exibidas nos anos 60 no Royal Photographic Society’s House, as imagens foram aceites pelo público como fotografias de animais vivos”. Já o Professor Matthew Brower contra argumenta que “as imagens de Llewelyn não podem ser entendidas como fotografia de vida selvagem”. Bower relembra-nos que “na fotografia de paisagem Victoriana, as figuras de animais e humanas eram usadas para acentuar a composição e dar-lhe um tom emocional.”

 

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piscator no.2 © John Dillwyn Llewelyn

 

3. O artista japonês Yohei Kichiraku comprou um guia ornitológico num mercado de artigos em segunda mão. Parte das ilustrações desse livro tinham sido recortadas por alguém, incentivando Kichiraku a fazer mais recortes e a colocá-los em florestas nos ramos de árvore, os quais ele depois fotografou. O trabalho resultante, de 2012, chama-se ‘Birds’.

 

As imagens de Kichiraku não convencem ninguém de que se trata de animais verdadeiros. O trabalho de Kichiraku tem essencialmente uma qualidade estética de beleza e sedução.

 

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© Yohei Kichiraku

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Romantic birds

by João Bento* .

01. Very colourful craft store song birds resting on tree branches in various natural landscapes is what American artist Paula McCartney displays in the artist book ‘Bird Watching’ from 2010.

 

The work deals with the idea of a constructed landscape, partly natural, partly artificial. McCartney explains, “I love going on walks and hikes. When I do that I always hear birds… Birds exist for themselves not for my entertainment, you never get a good glimpse of them, they blend with the landscape or they stand too far away. So, I decided to put fake birds exactly where I wanted them. My photographs are an idealized scene.”

 

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vermilion flyeatchers © Paula McCartney

 

02. Since its invention, birds and other animals have been great subjects of interest within photography. Until the 1870’s, it was effectively impossible to record moving subjects as photographing required long exposures due to the low speed of light sensitive materials. During this period, the most frequently photographed animals were those that could stand still: cats, dogs, horses and caged birds. Wild animals could be photographed whilst asleep, in captivity, or dead. The compositions of deceased animals were often represented as trophies, or made into still life.

 

In the 1850’s, John Dillwyn Llewelyn, from Wales, attempted to simulate live environments by photographing stuffed birds and mammals in a natural habitat. The taxidermy suggested a degree of authenticity to the images created and according to historian Margaret Harker, “reactions to Llewelyn’s photographs were quite fascinating. When they were brought out of the archives after many years and exhibited in the 1960’s in the Royal Photographic Society’s House, they were accepted by most viewers as photographs of live animals.” Professor Matthew Brower argues that “Llewelyn’s images can’t be understood as wildlife photography.” Brower reminds us that “in Victorian landscape photography, animal and human figures were used for compositional accent and emotional overtone.”

 

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piscator no.2 © John Dillwyn Llewelyn

 

03. Japanese artist Yohei Kichiraku bought an old ornithological guide at a flea market. Part of the illustrations in the book had been cut-out by someone, prompting Kichiraku to make more cuttings and place them in forests and tree branches, which he then photographed. The resulting body of work, from 2012, is called ‘Birds’.

 

Kichiraku’s images won’t make anyone believe that they are looking at real birds. The work has essentially an aesthetic quality of beauty and seduction.

 

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© Yohei Kichiraku

 

*João Bento is the editor of Fauna & Flora, a research platform about animals and plants in photography http://www.faunaandflora.org

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A Artista que Parece uma Árvore

mas Não É uma Árvore

por João Bento*

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evergreen

evergreen © Paula McCartney

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sobre Book of Trees – Both Native and Introduced,

um livro de Paula McCartney & Andy Sturdevant, 2013  

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Em 2008, o British Journal of Photography publicou uma uma fotografia aparentemente normal: um pássaro colorido a descansar no ramo de uma árvore. Depois de observar com atenção percebi que o pássaro não era verdadeiro, mas sim uma imitação, um objecto decorativo. Fiquei espantado – O quê? Pássaros artificiais fotografados no meio da Natureza, quem é que terá feito isto? A resposta é: Paula McCartney.

No ano passado adquiri o ‘Book of Trees – Both Native and Introduced’, último livro de Paula McCartney. Estava curioso, seria sobre o quê? Árvores sinteticas? Uhm, mais ou menos.

Todos os projectos de Paula McCartney são sobre paisagens naturais ou parcialmente naturais. Uma das primeiras séries, o ‘Bronx Zoo’ (1998), mostra pássaros exóticos em cativeiro, mantidos em espaços onde as paredes são pintadas com paisagens, simulando o habitat natural de cada espécie. Mais recentemente, o ‘A Field Guide to Snow and Ice’ (2011), apresenta uma colecção de formas naturais (gelo e neve) e também artificiais que criam uma visão subjectiva do Inverno. O trabalho de Paula McCartney é feito de ilusões, e de humor.

O humor não é particularmente apreciado no meio da fotografia. Apesar disso, no ‘Book of Trees’, Paula McCartney aparece vestida como uma árvore: com calças castanhas e camisola verde, ou calças castanhas e camisola vermelha no Outono. As paisagens naturais são acompanhadas por legendas absurdas que descrevem Paula como “Evergreen”, “Deciduous Tree”, “Tree with Sapling” ou “Tree with Burl”.

felled tree

feelled-tree © Paula McCartney

Nesse mesmo livro as imagens são intervaladas com pequenos textos escritos por Andy Sturdevant, como os que se seguem:

They had a word in the old days for people that hung around forests, looking like trees. Often they were also described as being covered in bark and leaves. “Woodwose” was the best-known designation in medieval Europe for the so-called wild men of the woods. But there were types of wild ladies of the woods, too. In German, these wild ladies were called “Fange” or “Fanke.”

tree with burl

tree-with-burl © Paula McCartney

ou:

It is worth taking a closer look at the Victorians if we’re going to discuss people dressing  as trees. A Victorian would not dress like a tree. This isn’t conjecture; it’s a pretty well documented fact. The Victorians had many opportunities to dress like trees, and passed on every single one of them.

Estes textos providenciam um contexto cultural sobre a mudança de percepção e de atitude em relação às árvores, ao longo do tempo e em diferentes locais. Vistos de forma independente, as fotografias e as legendas confirmam aquilo que já sabiamos: Paula McCartney não é uma árvore.

tree with sapling

tree-with-sapling © Paula McCartney

Em ‘Book of Trees’ Paula McCartney aparece pela primeira vez à frente da câmera. O livro projecta uma imagem do ser humano como uma construção falhada, incapaz de se integrar completamente na natureza (como uma árvore). Isto levanta questões sobre a definição do que é natural. O que é uma árvore? E o que é o ser humano?

Na última fotografia do livro, McCartney aparece com um braço magoado. A legenda diz “Tree with Broken Limb”. Será que Paula McCartney tinha mesmo um braço partido? Eu sei a resposta… Mas não vos vou dizer!

 tree with broken limb

tree-with-broken-limb © Paula McCartney

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The Artist that Looks Like a Tree

but is Not a Tree

by João Bento*

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evergreen

evergreen © Paula McCartney

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about Book of Trees – Both Native and Introduced,

a book by Paula McCartney & Andy Sturdevant, 2013  

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I believe that it was in 2008 that The British Journal of Photography featured an article which included a photograph of a colourful bird resting on the branch of a small tree. On closer inspection, it became clear that this seemingly quiet bird was in fact a fake bird. What! Photos of fake birds in the landscape, who did this? The answer: Paula McCartney.
Last year I acquired the artist’s latest book called ‘Book of Trees – Both Native and Introduced.’ I was curious, what should I expect from this – fake trees? Well, yes and no…

McCartney has always been interested in the natural landscape. Her work is either about natural landscapes or about partly natural landscapes. One of her early projects, ‘Bronx Zoo’ (1998), shows caged, exotic birds surrounded by walls painted with foreign landscapes and treescapes. More recently, the project ‘A Field Guide to Snow and Ice’ (2011), gives us an account of snow and ice formations that might not be what they seem. The work of Paula McCartney is invested with illusion and some humour too.

Humour is not particularly popular with photographers and curators. In spite of this, in her ‘Book of Trees’, McCartney appears in the photographs minimally dressed like a tree – with brown trousers and green top, or brown trousers and red top (in the ‘autumn’). The wooded landscapes are accompanied by captions that absurdly describe Paula as ‘Evergreen’, ‘Deciduous Tree,’ ‘Tree with Sapling’ or ‘Tree with Burl’.

In the book, McCartney’s images are evenly interspaced with short texts written by Andy Sturdevant, such as:

They had a word in the old days for people that hung around forests, looking like trees. Often they were also described as being covered in bark and leaves. “Woodwose” was the best-known designation in medieval Europe for the so-called wild men of the woods. But there were types of wild ladies of the woods, too. In German, these wild ladies were called “Fange.” or “Fanke.”

Another text reads:

It is worth taking a closer look at the Victorians if we’re going to discuss people dressing
as trees. A Victorian would not dress like a tree. This isn’t conjecture; it’s a pretty well documented fact. The Victorians had many opportunities to dress like trees, and passed on every single one of them.

The texts provide a broad cultural background that speaks about our changing perception of, and attitude towards, trees – through changing time and in different places. Viewed on their own, the photographs and captions confirm what we already know – McCartney is not a tree.

‘Book of Trees’ is the first time Paula McCartney appears in front of the lens. The book projects the image of the human as a failed construction, incapable of fully integrating into the natural landscape (as a tree). This raises questions about the definition of what is natural, what is a tree and what is to be human?

In the last photograph of the book, McCartney exhibits an injured arm. The caption says ‘Tree with Broken Limb’. Do you think McCartney really had a broken arm? I know the answer… but I am not telling you!

 tree with broken limb

tree-with-broken-limb © Paula McCartney

* this text has also been published on Fauna & Flora, a research platform about animals and plants in photography http://www.faunaandflora.org

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A Origem do Fauna & Flora

por João Bento*

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© Helen Sear

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Em 2007 mudei-me para Newport, no País de Gales, para estudar fotografia.

Fui morar numa casa onde havia uma cadela. Chamava-se Izzy, uma Labrador. Era carinhosa e gostava de brincar. Uns meses depois fui viver para outra casa onde existiam dois cães, dois Jack Russell. Um deles, o George, era estranho e pouco dado. Um dia mordeu-me! Mas porquê?

Eu não sabia nada sobre cães. Nunca tinha vivido com cães até me mudar para o País de Gales. Em Portugal, no local onde cresci, a maioria dos cães vive na rua em estado semi-selvagem. Os outros vivem nos quintais, guardam as casas. Só um ou outro é que vive dentro de casa. No País de Gales a situação é completamente diferente. De acordo com as estatísticas, um terço da população tem cães dentro de casa – uau!

Um dia encontrei um poema que me ajudou a entender melhor a nossa relação com os cães:

“French-kissing my dog melts my troubles away

As if dog spelled backwards has something to say

What works for me will work for you

Get rid of the zanax and prozac too.

Why pay the therapist all that dough?

When it’s the magical doggies we really owe.”

(Excerto retirado de ‘I French Kiss my Dog’ escrito por Gail Glassman em 2004)

Depois de ler o poema deixei de ver os cães apenas como animais de trabalho, que guardam as casas ou que vivem na rua. Descobri que podia ser muito mais que isso: um companheiro ocasional, o melhor amigo, um amante. Claramente, o George não era meu amigo!

No curso de fotografia passei a interessar-me por temas relacionados com animais e descobri o trabalho de vários fotógrafos de animais: Keith Arnatt e o projecto ‘Walking the Dog’, sobre pessoas a passear os cães; ‘Grounded’ de Helen Sear, onde os corpos de animais se assemelham a paisagens fantásticas; ‘Familiar British Wildlife’ de Clive Landen, que mostra de forma trágica e bela os animais mortos nas estradas da Grã-Bretanha; ‘The Refusal’ de Jo Longhurst, um projecto que olha para a busca incessante da perfeição e a nossa ligação com os animais.

Nos últimos anos tem aumentado o interesse pelo mundo animal na fotografia. Alguns projectos adquiriram reconhecimento internacional, como o ‘The Hyena and Other Men’ de Pieter Hugo em 2005 e, mais recentemente, o ‘Paloma al aire ‘de Ricardo Cases em 2011.

O Fauna & Flora – www.faunaandflora.org – concilia todas estas experiências, desde o mal-humorado Jack Russel ao projecto do Ricardo Cases. O Fauna & Flora é uma plataforma online para discussão sobre o mundo das coisas vivas e da fotografia, onde apresento projectos fotográficos de vários géneros sobre animais e plantas. O objectivo principal é ampliar a discussão sobre animais e plantas na fotografia, com a intenção de melhorar a nossa compreensão do mundo animal e vegetal. E, em último caso, ajudar a uma mudança positiva nas nossas vidas e nas vidas de outras criaturas.

Ao desenvolver este projecto sinto-me um animal melhor.

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© Helen Sear

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The Origin of Fauna & Flora

by João Bento*

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© Helen Sear

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In 2007 I moved to Newport in South Wales to begin a photography course.

In Newport, I went to live in a house where one of the residents was a pet dog. Her name was Izzy, she was a black Labrador. She was kind and outgoing. Later that year I moved to a new home where I had the company of two Jack Russells. One of them, George, was stubborn and aggressive. On one occasion he bit my foot. Why?

I did not know much about dog behaviour. Until I moved to Wales I had never lived with dogs. Where I come from in Portugal, most dogs live on the streets in a semi-wild state while a fair number of dogs live close to humans as working animals. Only a few live as companions as part of people’s domestic lives. In the UK the situation is completely different. In Wales, according to the Blue Cross, one third of the population has a dog as a pet. Wow!

Then I came across a poem that shed some light on my recent experience:

“French-kissing my dog melts my troubles away
As if dog spelled backwards has something to say
What works for me will work for you
Get rid of the zanax and prozac too.
Why pay the therapist all that dough?
When it’s the magical doggies we really owe.”

(Excerpt from ‘I French Kiss my Dog’, by Gail Glassman. In ‘Urban Dog’, 2004)

After that I stopped seeing dogs exclusively as working animals or pets. They could be something more. Best friend, lover, an occasional companion. Clearly, George wasn’t a good companion.

In my photography course I changed my attention to the subject of animals. I discovered the work of other animal photographers: Keith Arnatt’s ‘Walking the Dog’, a project about dog walkers!; ‘Grounded’ by Helen Sear, where animals’ backs are shown as fantastic landscapes; ‘Familiar British Wildlife’ by Clive Landen, which looks at road-kill and urban development in the UK; Jo Longhurst’s ‘The Refusal’, a project that looks at our quest for perfection and our intrinsic bond with animals.

In recent years there has been a growing interest in the animal world as a primary photographic subject. Some projects of undisputed quality have acquired international recognition, like ‘The Hyena and Other Men’ by Pieter Hugo in 2005 and, more recently,‘Paloma al aire’ from Ricardo Cases in 2011.

Fauna & Flora – www.faunaandflora.org – brings together all of these recent experiences, from the feisty Jack Russell to Ricardo Cases’ project. Fauna & Flora is an online space for discussion about the world of living things and photography. I will be showing projects covering a range of photographic styles and presenting work that deals with different animal and plant issues. I aim to widen the discussion about animals and plants in photography, in order to improve our understanding of the animal and plant world and, ultimately, to support a positive change in our own lives and the lives of other creatures.

By developing this project I can clearly say that I feel myself a better animal.

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© Helen Sear

*João Bento is the editor of Fauna & Flora, a research platform about animals and plants in photography http://www.faunaandflora.org .

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