2022

multilingual

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Esta edição é temática e dedicada a reflexões sobre a experiência de viver em pandemia que é também tempo de pensar a urgência antropocénica. Este número 2022 prossegue os propósitos do número 2020-2021 iniciado em abril 2020.

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sombras

por Lourdes Castro

sem título

texto Carlos Andrade_imagem Ana Gonçalves

suspende

por Ana Gonçalves

viver o Belo Natural_a experiência sensível do Bem

por Teresa Martins

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viver o Belo Natural_a experiência sensível do Bem

por Teresa Martins

28 janeiro 2022

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varandas pq

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Com alegria infantil, percorremos rotas pedestres sulcando o coração e as bermas da paisagem. Trilhos de terra e de cascalho. Troços a rasgarem bosques e escarpas agrestes. Monumental, poderosa e admirável beleza!

Atravessámos ribeiros de sons cristalinos em corrente graciosa sob as ramadas da folhagem, saltitantes por desníveis e pelas pedras do caminho.

Ouvimos trinados e gorjeios de passaritos. O zunir da mosquitada, cegarregas, grilos e libélulas. Na ponta dos ramos. No mato dourado. No verde da árvore.

Escutámos os murmúrios das árvores à serena carícia da brisa. PSSSSSSSsssssss Provámos os frutos da terra, perfumados. Doces.

Venerámos o silêncio dos lagos sem gente, ampliado pelo grasnar dos patos, e pela zoada das abelhas à volta das flores silvestres. Amarelas. Vermelhas. Azuis.

Aventurámo-nos por vertiginosos desfiladeiros de rochedo abrupto, feroz. Os sorvos de água a precipitarem-se no abismo, em cascatas borbulhantes, e espraiando-se com langor, ao fundo, no tocar do solo. Banhos de júbilo e deleite, e risos a ecoarem nas pedras.

Embrenhámo-nos por trechos selvagens do rio, exultantes de verde e fervilhantes de vida. Livre.

Molhámos os pés no lugar onde a corrente se apresentava mansa, ribeirinha e de delicada beleza. Transparente.

Passeámos em parques naturais de cerrados bosques e vales amenos, sob um Sol resplandecente, requebrado pela sombra dos pinheiros e dos carvalhos. Generosa. Mansa.

Ah o gozo de ser! Plenamente. Sensivelmente.

Aromas, cores, águas, rochas, vegetação, aves. Fruímos desinteressada e vividamente a paisagem, no puro regalo do espírito e do corpo, nutrindo os nossos corações, os nossos sentimentos, o nosso ânimo, as nossas emoções, os nossos pulmões, o nosso sangue, com o bem que se sentia e que persistia em toda aquela bela natureza.

Sim. Sentimos,
O Eu e o Mundo unidos no Encontro. Estético. Vital.

Sim. Sentimos,
A Presença da Beleza, da Liberdade e do Bem. Sim, sentimo-nos. Ligados.

(excerto adaptado do livro Morada de Passagem)

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Teresa Martins é doutorada em Filosofia da Natureza e afiliada à Universidade de Lisboa. É autora de obras e artigos na sua área de especialização.

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nota de editora (21 janeiro 2022):

lembram aquele tempo em que tudo parou e chegámos a pensar na possibilidade de mudanças estruturais muito, mas muito, p´ralém do acordado no Pacto Climático de Glasgow em 2021. 

não se ouviam carros, aviões, navios de cruzeiro ou motociclos.

apenas se ouviam os pássaros, os gatos e os cães.

e por vezes, não se ouvia nada.

recordam?

aquela ausência de ruído.

e a preponderante quietude, nos céus, nas terras e nos mares.

… esta proposta da Ana aporta-me esse tempo…

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suspende

por Ana Gonçalves

21 janeiro 2022

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ana2021

imagem: sem título, 2021

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suspende

suspende as tuas crenças

suspende as tuas conclusões

suspende os teus garfos

e as tuas facas

suspende as tuas construções

e as tuas ruínas

suspende-te a ti mesmo

ama

vive

mantém-te

em suspensão

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Ana Gonçalvesnasceu em 1976, em Oeiras. Licenciou-se em Pintura em 2001 e realizou uma Pós-Graduação em Curadoria e Organização de Exposições de Arte Contemporânea em 2002. Foi colaboradora do serviço educativo da Fundação Gulbenkian, da Culturgest e do Atelier Museu Júlio Pomar. Foi também assistente na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e formadora no Nextart, onde ensinou Desenho, Pintura e História de Arte. Na sua prática artística (multidisciplinar) privilegia o desenho, a pintura e o trabalho com imagens encontradas, tendo recentemente iniciado estudos na área do cinema documental no núcleo Kino-doc, em Lisboa.

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sem título 

texto Carlos Andrade_imagem Ana Gonçalves

10 janeiro 2022

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Quando ia a entrar na cozinha vi mais um, desta vez pelo canto do olho direito. Correu através do ladrilho até à entrada do armário dos frascos e aí desapareceu. Eu fiz de conta que nada tinha visto, porque desta vez era rápido demais e não valia a pena assustá-lo. Já na cozinha, tirei um latte e falei sozinho, porque ele não é pessoa, provavelmente nem indivíduo. 

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Ana Gonçalves_Da série Tu és uma combinação de todos os lugares possíveis em que podes estar até olharmos para ti, 2021

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O que eu disse, sozinho, foi: 

“… Nestas condições, é fácil prever o que ia acontecer, claro. De uma forma mais ou menos embaraçada consigo mesma mas, na hora da verdade, com embaraço zero, a nação europeia transforma a região numa colónia e estando o modo de produção capitalista a bombar, trata de explorar os recursos, até hoje. Os dominados são objectos que mexem e devem cumprir as ordens dos dominadores. Não há moral que valha a todos. A moral aplica-se entre os dominadores. Aos dominados faz-se o que se quiser. Enraba-se, queima-se, chicoteia-se, atira-se azeite a ferver para cima. 

Há também grupos que protegem, alimentam os pobrezinhos, ensinam-nos a fazer contas, etc. Como disse, aos dominados faz-se o que se quiser.” 

Sentei-me e bebi o latte, com três bolachas de chocolate que se foram gradualmente transformando em cinco. Olhei para a esquerda, sem qualquer razão, e dei com a Surya, a mãe de todas as razões, sentadinha com olhos de anjo, como a mais bem comportada das alunas à porta da cozinha, patinhas postas, que saudou o meu olhar com um “Au” inocente, em voz de adolescente. 

Tropeçando nas pernas da cadeira (que foi desenhada por Adolf Stefanssohn, arquitecto sado- masoquista que quis conceber a cadeira mais destrutiva possível da pessoa, através de um efeito subtil de escape das pernas para o exterior da projecção do assento, ou seja, vista de cima, a cadeira mostra as pontas das quatro perninhas a espreitar debaixo do dito assento, o que faz com que os dedos dos pés embatam todo o tempo nas pernas da cadeira; e também o esmaga-polegares, que é um intervalo flutuante entre o tampo e a parte debaixo deste, o que faz com que, quando se puxa a cadeira para a frente, se se tem o azar de meter os dedos nesse intervalo, fica-se com eles esborrachados ao sentar), 

enchi duas tacinhas de bolinhas renais que musicalmente transportei para a entrada, aonde a Surya saltitava e fazia “Au, Au, Au!” e veio a Pietra, serena e rápida, e ambas crocaram felizes. Dele, nem um sinal.
Dirigi-me ao computador e pus o Ferrari F40 no Youtube. Gosto do som de motores sobre o fundo anecóico de silêncio total. 

Dia 18 

Hoje um padre passeou numa carrinha de caixa aberta pelas ruas lá embaixo. 

Foi assim: Estava eu a ler, ouvi canções Marianas amplificadas por megafone; fui à varanda. O que vi, primeiro, foram os outros, nas suas varandas, curiosos como eu. Olhávamos uns para os outros de longe, que eu tenho a sorte de ter vistas amplas de um 8º andar. Por baixo de mim estava o vizinho surdo, o que dá uma ideia do volume a que o megafone cantava Avé Marias. E aproximava-se. Às tantas aparece a carrinha, ao dobrar uma esquina. Não se via o condutor. Na caixa, ia uma estátua da Nossa Senhora bem grande, branca, de mãos em oração, e por trás da estátua o padre, segurando um megafone e cantando. Cantava os louvores à Mãe de Deus e de vez em quando, entre canções, falava connosco, com os vizinhos. Dizia “coragem!” “força, Deus está convosco!”. A Ana começou a chorar, eu também mas para dentro. Todos aplaudiam. O padre cantava e acenava, a carrinha era o único veículo na rua a deslocar-se, e todos nas varandas, aplaudíamos e chorávamos a morte do mundo. Mas chorávamos juntos e éramos todos por todos, naquele momento. 

Dia 18 

Andorinhas a voar, são santas no seu cantar extasiado. Saúdam o sol e a vida. Desenham arcos velozes pelos ares e planam misteriosamente. Como é possível voarem assim, e darem aquelas curvas tão súbitas e apertadas? Brincam umas com as outras, num transe místico e sublime. E nós, trazendo para cá contentores de turistas gordos e suados, tiramos as condições às andorinhas, belíssimos e delicados seres, tiramos-lhes o local de repouso, e elas vêm da África do Sul e já não podem descansar aqui em Lisboa e arredores, e desapareceram, deixei de ver as minhas queridas andorinhas. 

Mas hoje vejo duas, três, cinco nos ares, e delicio-me a segui-las com o olhar, na varanda. Talvez haja um lado bom no confinamento. Também ouvi falar em golfinhos no Tejo, mas, embora tenha uma vista belíssima do rio daqui, não tenho telescópio. 

(E se tivesse telescópio de qualquer forma não o poderia montar na varanda porque senão a romena do 5o andar do outro lado da rua que fuma um cigarro às 7 da manhã à janela ia desconfiar.) 

Dia 18 

Mas tenho que tomar o remédio. De 3 em 3 semanas, tenho que ir a Santa Maria fazer a infusão. Faltei uma vez — isso era permitido — mas segunda vez, estava fora de questão.

Telefonaram do Centro de Investigação Clínica e disseram-me que abriram um trajecto no hospital em que não encontrarei ninguém, apenas é um trajecto um pouco complicado. Escrevi-o num papel que tinha já uns bonecos grotescos escrevinhados, mas não tive paciência de esticar o braço para tirar uma folha virgem da gaveta. O que escrevi foi: 

Entrada princ
esq
sempr frente 2a esq
pr elevad diret 11 elevador 11 subir 6o and saio dir 

1a porta dir viro logo esq sempremfr
subir 1 andr porta dir 

CIC ok 

No dia seguinte levantei-me às 5, tomei o pequeno almoço e eles, aqueles sombrios, correram outra vez à minha direita, e o café era bom, bom. Como não se sabia nada ainda, pus máscara, viseira e luvas. Era a primeira vez que saía desde o início da pandemia. Bem tentava estar calmo, mas o café mexe os nervos. Chamei o táxi. Passado este tempo todo estava quase sem andar, sentia-me fraco, frágil. Desci pelo elevador, ninguém. Ninguém à porta do prédio, apenas o taxi à minha espera na rua. Já raia o sol, está frio, muito frio. Na mão esquerda segurava freneticamente o papel com as instruções para chegar ao CIC. Não me sentia capaz de o pôr na carteira, podia perdê-lo. E assim, perder-me. Aquele papel em quadrícula, todo esfrangalhado, tremia na minha mão e era eu. 

Ao entrar no táxi cumprimentei o taxista, também de viseira e máscara. Quando lhe dei a indicação do HSM, olhou para a frente como quem mergulha em ácido sulfúrico. Arrancou, não trocamos palavra todo o trajecto. A rádio emitia anúncios absurdos, obsoletos. O modo de produção ainda não se adaptou. O marketing nestas circunstâncias era absurdo, enervante. Se calhar, para o condutor era um sossego ouvir anúncios de cortinas e formações em informática. 

Não havia trânsito senão táxis e dois carros da polícia. Nada nas ruas, ninguém. Incrível. A cidade está vazia. E eu nesta corda bamba, que preciso da infusão para viver. RNA interferencial no meio de COVID-19, como é que a minha vida se complicou de tal forma? Como é que tanto se alterou, dentro e fora de mim? O que é que permanece, se estou inclusivamente cheio de anti-depressivos? A pele? Tudo mudou radicalmente, é uma fenomenologia selvagem. Onde é que fico? 

Chegamos. O táxi vira e entramos no recinto do hospital. Chegados à entrada principal, pago (com cuidado para não deixar cair o papel), a nota cai na palma aberta do homem, as moedas caem na minha, cumprimentamo-nos e saio do carro. 

Não há absolutamente ninguém, nem seguranças à porta. Ficou combinado que absolutamente ninguém estaria no trajecto em questão àquela hora. E assim entrei no hospital vazio, já cansado, tremendo, com uma mão a apertar a bexiga. Andar foi difícil. 

Quando virei à esquerda a primeira vez, o corredor assustou de infindo que era. Ia chocando contra a parede direita, mal conseguia respirar. A viseira, claro, embaciara, e eu apenas via vagamente o que tinha à frente, que era ninguém, e pedra, estantes com alambiques e frascos antigos, casas de banho vazias, refeitório vazio, uma máquina de chocolates e afins, alegre e reluzente. Subi as escadas, fui a direito e tinha o Centro de Investigação Clínica à minha frente. Bati à porta. Até aqui não tinha tido nenhum ataque, o que era muito bom, porque o meu medo era perder-me naquele caminho complexo. Mas o que não esperava era a atitude da enfermeira. Abriu a porta, sussurrou “bom dia” e estava de máscara branca, e os olhos é que me fizeram descontrolar, porque a preocupação naqueles olhos, para não dizer o pânico naquelas sobrancelhas carregadas, foram suficientes para eu pedir para ir à casa de banho para tentar não ter o ataque. 

Não consegui, acabei no chão a tremer e a contorcer-me de dor, a tentar não gemer para ninguém ouvir (esquecendo-me que estava num hospital mas tinha medo que ao me verem assim me quisessem internar). Entretanto, a viseira toda torta, já tinha posto as mãos no chão da casa de banho. O que vale é que o CIC é local mais asséptico do Hospital. De seguida, a enfermeira mascarada enfiou-me a agulha no braço e começou a moca anti-histamínica e a infusão do ALk0900897i durante um total de uma hora e meia. Desta vez, tiraram-me 11 pipetas de sangue. 

Dia 18 

Hoje hoje hoje
quê quê quê
que que uuuuuu
uuuuuuuuuuuu
A Surya corre atrás dele, a Pietra majestosa esfinge contempla o Bugio. E 

eu eu euuuuuuuuuuuuu

Ana Gonçalves_Da série Tu és uma combinação de todos os lugares possíveis em que podes estar até olharmos para ti, 2021

imagem: fotomontagem da série “tu és uma combinação de todos os lugares possíveis onde podes estar até olharmos para ti”, 2021

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Carlos Andrade, nasceu em 1970, em Lisboa. Licenciou-se em Matemática Aplicada e Computação pelo IST em 1994 e doutorou-se em Ciências da Motricidade (especialidade Análise Matemática) na FMH em 2001. Estudou composição com Vítor Rua. Amante de música, história e literatura, colaborou em vários projectos musicais (Kromleqs, Presidente Drogado, Bernardo Devlin). Concebeu música para coreografias da autoria do bailarino Pedro Ramos (e.g. Coniunctio, Culturgest, 2017). Compôs diversas obras (música, literatura, performance) não publicadas nem interpretadas. No seu dia-a-dia dedica-se à leitura, à escuta musical e, mais recentemente, ao estudo da Filosofia e das línguas clássicas (Grego e Latim).

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Ana Gonçalvesnasceu em 1976, em Oeiras. Licenciou-se em Pintura em 2001 e realizou uma Pós-Graduação em Curadoria e Organização de Exposições de Arte Contemporânea em 2002. Foi colaboradora do serviço educativo da Fundação Gulbenkian, da Culturgest e do Atelier Museu Júlio Pomar. Foi também assistente na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e formadora no Nextart, onde ensinou Desenho, Pintura e História de Arte. Na sua prática artística (multidisciplinar) privilegia o desenho, a pintura e o trabalho com imagens encontradas, tendo recentemente iniciado estudos na área do cinema documental no núcleo Kino-doc, em Lisboa.

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sombras

por Lourdes Castro

8 janeiro 2022

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Lourdes Castro_ nasceu em 9 dezembro 1930, no Funchal e faleceu hoje, 8 janeiro 2022, também no Funchal. É uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas. Foi uma das criadoras da revista KWY (1958-1963) _ o título Ka Vamos Yndo, surge como referência à situação existencial, social e política vivida na época. A sua forte ligação à Natureza está também patente na abordagem do mundo vegetal que apresenta em diversos trabalhos em que explora a Sombra, conceito crucial na sua obra a partir de 1961 e que a artista aplica a universos distintos mas convergentes na evocação e registo do corpo, do tempo e da memória.

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