2022

multilingual

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Esta edição é temática e dedicada a reflexões sobre a experiência de viver em pandemia que é também tempo de pensar a urgência antropogénica. Este número 2022 prossegue os propósitos do número 2020-2021 iniciado em abril 2020.

This edition is thematic on the experience of living in pandemic, which is also time to think about the anthropocene urgency. This 2022 issue pursues the purposes of the 2020-2021 issue started in april 2020.

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sombras

por Lourdes Castro

sem título

texto Carlos Andrade_imagem Ana Gonçalves

suspende

por Ana Gonçalves

viver o Belo Natural_a experiência sensível do Bem

por Teresa Martins

sobre a experiência de viver em tempo de CoVid19

por Luís Brilhante

nos BASTA_e_DORES  

por António Barros

o inaceitável

por Maria Marujo

o mundo

por Paulo Ansiães Monteiro

38 days in Mariupol

por Ilda Teresa Castro

sem d_euses d_esses guardando-nos

por António Barros

mata e malcata _notícias de ecofilmes

por Ilda Teresa Castro e Miguel Cortes Costa

sobre o livro Morada de Passagem 

por Maria José Varandas

conscientificamente em desenho vivo

por Luísa Sousa Martins

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conscientificamente em desenho vivo

por Luísa Sousa Martins

16 outubro 2022

A Terra é um organismo, uma consciência. É, a uma vez, diversidade e totalidade-transcendência da soma das partes. Este organismo, por sua vez, é parte de um organismo maior, e este parte de outro maior, e mais além. Esta onda integrativa que se propaga pela vastidão, traz-me incontornavelmente, como um eterno retorno, ao indivíduo, esse organismo ou microcosmo, vasto, que vibra, ressoa, influencia e habita um complexo movimento de interacção de organismos e consciências. Recordo estas palavras do poeta W. H. Auden, “O ser humano é vivido por poderes que finge compreender.” De igual modo, prevalece em mim este sentimento de que a vida da Terra, a vida humana, animal, vegetal, mineral, têm razões de ser que a razão desconhece. Por outras palavras, há uma invisibilidade visível, uma essência na existência. Por isso, não basta pensar para compreender, é preciso que seja verdade. E o acesso à verdade implica considerações sensoriais, emocionais e intuitivas que não decorrem de racionalizacão. Sem aquelas, aliás, não é possível racionalizar. Os grandes sábios, contemplavam a natureza e dela receberam os ensinamentos para o cultivo de uma relação harmoniosa, não para a subjugarem. Creio profundamente que a Terra no seu ciclo evolutivo, no seu destino, é nutrida por várias correntes e não está nas mãos da humanidade  destruí-la, mas está nas suas mãos consultá-la e respeitá-la e conhecer-se, como quem aspira e se dedica a cumprir o seu mais elevado sentido de viver, individual, integrado e misterioso. 

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Uma  pandemia é, a vários níveis, um fenómeno do despertar, ameaçador, doloroso, mortal e renovador. O sofrimento não vem só com as doenças, vem com a lembrança de que é imperativo assumirmos a nossa vulnerabilidade e fragilidade, que aqui reside a nossa força, e não em mascararmo-nos de poderosos ou de impotentes, em fuga para o fundo. Mas do fundo se vai ao alto, a vida não pára, diz a sabedoria. A vida continua. Neste entendimento, a pandemia vem tornar claro que não somos livres de nos libertar, nem de escapar da lei. O que vai, volta. A renúncia da nossa própria autoridade, por um lado, e a coragem que nos falta — não a ausência dela —, por outro, trouxe-nos este estímulo de realinhamento com a nossa autenticidade, obrigando-nos ao uso de máscaras para nos desmascarar, conscientificamente em desenho vivo, em face do qual, cada um de nós se perguntará: O que sinto? O que me acontece? O que descubro? O que me preocupa? O que aprovo? O que rejeito? O que muda? O que me enfurece? O que me envergonha? O que me anima? Qual a minha força? O que procuro? O que preciso? Qual a minha luta? O que aprendo? O que escolho fazer? O que não faço? O que sei? O que não sei? 

Onde assino?

Sentir, olhar e admirar, o que nos respira e solta. 

Este choro da tremenda pertença.

Luísa Sousa Martins, nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Escreve. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora. É Terapeuta. Desenvolve essencialmente uma abordagem holística-integrativa da experiência humana através da escuta e reflexão, e do toque.

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sobre o livro Morada de Passagem

por Maria José Varandas

29 setembro 2022

“We are only tourists in this life. Only tourists. But the view is nice.”

David Byrne, Everybody’s Coming to my House

Natureza e Amor constituem neste livro os eixos estruturadores de uma história onde as personagens se enredam numa trama que evolui em sentido inesperado, aparentemente mais determinado pelo livre-curso da vida, do que pelo livre-arbítrio do sujeito. 

De modo implícito, a narrativa defende a tese de que natureza e amor são os traços estruturais do existente humano, constituindo as raízes fundamentais do Ser que, no seu modo vivente (e até prova em contrário), apenas acontece nesta morada planetária. 

Desde logo, o título da obra subsume o que pretende dizer. Existir é ser-aqui. Um ser-aqui que, para além de vir determinado pelo espaço é, de igual modo, definido pelo tempo, sempre efémero em cada singular. Ser do tempo, ser da Terra, ao humano, e a todos os entes terrenos, é-lhe imputada uma condição de possibilidade, uma disposição essencial para que possa vir-a-ser-aqui:

– Ele, o ser humano e tudo o que habita esta ‘morada’, não é em exclusivo, não é simplesmente e só. Irresistivelmente, inegavelmente, a sua natureza determina-o como um ser-com, e o seu viver, em essência, um com-viver.  Impossível vir à existência sem a preposição essencial com, ou seja, sem o vínculo (tornado afeto nas espécies superiores), que liga, relaciona, interconecta tudo o que há debaixo do Céu. Quer a Biologia, quer a Ecologia nos dizem que a Natureza se estrutura na relação, na interconexão e na vinculação de todos os seus membros (organismos e elementos), e, em boa verdade, é justamente a relação entre os seres e o lugar, e entre os seres e outros seres, que determina e configura o ser próprio, seja individual (espécimen), seja comum (espécie).

A afetividade, como dimensão estrutural do vivente, no seu próprio modo de ser relacional, modela os vínculos entre os diferentes entes, confere-lhes densidade emocional (sobretudo nas espécies mais desenvolvidas) sendo, por conseguinte, o princípio comum do ser-no-mundo que liga o afim e o diverso, mas também que traça o limite que separa e expõe a diferença. 

No livro Morada de Passagem o tema da natureza vem intrinsecamente relacionado com a dimensão da afetividade que une e opõe as personagens. A Natureza é entendida como vida e valor, indissociável do sentimento de amor que inspira e que se manifesta explicitamente quer através do ativismo ambiental aí descrito, quer através da relação visceral da gente sensível à terra e ao lugar, quer ainda por via da experiência da estética natural, vivida pelos seus protagonistas.

Capa Morada Passagem_Maqueta Completa_2 (1)

Nesta obra, se numa primeira instância, o tema do amor reenvia para os grandes mitos românticos marcados pelo obstáculo e a dilaceração (eros*), evocando Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda**, o que a narrativa põe em evidência é a diversidade e pluralidade das relações afetivas sem privilegiar uma forma de amar:

– A amizade (philia***), a parentalidade (storge****), ou ainda a afeição desinteressada e incondicional a uma realidade simultaneamente imanente e transcendente (agapê), que neste livro se manifesta como Amor à Terra, aparecem como afetos de equivalente necessidade e valor nas singulares vivências.  

Segundo a autora, o amor à Terra coincide com o amor à Vida. A Vida-Natureza, sublime Criação, espelha o esplendor Divino, o Belo e Bem entrelaçam-se na paisagem contemplada e apresentam-se ao contemplador sensível, seja na magnificência de um Céu estrelado ou na singeleza de um recorte campestre, como testemunho visível do Poder que supera a finitude. As vicissitudes, fracassos, glórias e frustrações dos individuais viveres não ofuscam a sua verdade: a vida é Ser-com. É Luz no seio da escuridão. É abertura e companhia. 

E se para o indivíduo, a existência, quer na sua tragicidade, quer na sua prodigalidade, não passa de um momento fugaz que acontece e se torna presente apenas e tão só nesta bela Morada planetária, fica no ar a interrogação muda que o romance lança ao leitor:

Como não amar esta Natureza-Vida? Como não amar a sua raridade e beleza? Como não gratificar-se nela e por ela? 

«Os sentimentos habitam a vida, são e estão nesta morada. Uma morada aberta ao outro, a todo o outro, onde para além do ódio e da raiva que fecham e cegam, residem, em permanência, em abundância, o perdão, e o amor, e a alegria, e a esperança, portas para a luz, de costas para a solidão que ao abrirem-se mostram companhia, oferecem saída, e revelam o caminho. Porquê fixar o olhar dentro? Porque não virar a cabeça e ver longe?»*****

O livro será apresentado ao público no dia 6 de Outubro (18h. e 30 mn, na sala do Âmbito Cultural do Corte Inglês, Lisboa), por Viriato Soromenho-Marques que se centrará no tema da Morada – Terra- Natureza referindo-se ao activismo ambiental dos anos 80 em Portugal; e Carlos João Correia que se focará  no tema do Amor, contextualizando-o na literatura ocidental.

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*«Sem o Eros, o desejo sexual, como qualquer outro desejo, é um facto sobre nós mesmos. Dentro do Eros é muito mais sobre a pessoa Amada.» C.S. Lewis, Os Quatro Amores. On-line em https://www.eecarvalhosenne.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Os-Quatro-Amores-C.-S.-Lewis.pdf

**Denis de Rougemont, 1956, L’amour et L’Occident.

***Aristóteles começa o estudo da amizade dizendo, no Livro VIII da Ética a Nicómaco, que a amizade é uma virtude e uma das necessidades mais prementes da vida, um sentimento inato que não existe apenas no ser humano, mas na maior parte dos seres vivos, entre os indivíduos da mesma espécie. A sua natureza destina-os a viver com os outros. Assim para o filósofo, o viver é um viver-com-os-outros.

****«O meu dicionário grego define storge como “afeição, especialmente de pais em relação a filhos”, mas também de filhos em relação aos pais. Essa é, não tenho dúvida, a forma original do termo, bem como o sentido principal da palavra. A imagem com a qual devemos começar é a de uma mãe cuidando de seu bebé, uma cadela ou gata cuidando de sua ninhada de cãezinhos ou gatinhos; todos latindo ou ronronando, empilhando-se carinhosamente juntos; com lambidas, miados, leite, calor e o cheiro de nova vida.» C. S. Lewis, Os quatro amores. 

*****excerto do livro.

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Maria José Varandas, Licenciatura em Filosofia, Mestrado e Doutoramento em Filosofia, no ramo de especialização de Filosofia da Natureza e do Ambiente, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Membro do Centro de Filosofia da FLUL. Presidente da Sociedade de Ética Ambiental (2010-2016) e membro da direcção (2016-2022). Professora de Filosofia em instituições de ensino, secundário e superior. Autora de várias publicações na área da ética ambiental (artigos e livros). Organizadora e co-organizadora de seminários sobre a temática ambiental. Conferencista em diversas instituições sobre ética e ambiente. Membro do Conselho Científico do Congresso Português de Filosofia (2014-2018).

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morada de passagem (transition place)

by Teresa Martins

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In this book, Nature and Love are the structuring axes of a story where the characters are entangled in a plot that evolves in an unexpected direction, apparently more determined by the free course of life, than by the free will of the subjects.

Implicitly, the narrative defends the thesis that nature and love are the structural traits of the existent, constituting the fundamental roots of the Being which, in its living mode and even proved to the contrary, only happens in this planetary place.

Right away, the title of the work subsumes what it intends to say.

To exist is to be-here. A being-here that is not only determined by space but also by time, which is always ephemeral in every individual. Being-of-Time, being-of-Earth, human beings, as well as other non-human beings, are assigned with a condition of possibility, that is, the essential condition for them to become-here, at a given moment:

– Specifically, all beings are not just a being, they are, in their essence, a being-with, and their living a living – with. It is impossible to come into existence without the essential preposition with, that is, without the bond (turned into affection in the higher species), which links, relates, interconnects everything under Heaven. Both Biology and Ecology tell us that Nature is structured in the relationship, in the interconnection and bonding of all its members (organisms and elements), and, in truth, it is precisely the relationship between beings and place, between beings and other beings, that determine and configure the individual (specimen), and common (species) identity.

Affectivity, as a structural dimension of the living beings, in their intrinsic relational way of being, shapes the bonds between different entities, gives them emotional density (especially in the more developed species), and is, therefore, the common principle of

being-in -world that connects the familiar and the diverse, but also that draws the limit that separates and exposes difference.

In the book Morada de Passagem, the theme of nature, understood as life and value, is inseparable from the feeling of love for it, which is manifested explicitly either through the environmental activism of some characters, or through the visceral relationship of people who are sensitive to the earth and to the place, or even through the experience of natural aesthetics, lived by its protagonists.

If, in the first instance, the theme of love evokes the great romantic myths marked by obstacle and laceration (eros ), such as Romeo and Juliet or Tristan and Isolde , what the narrative seeks to underline are the different forms of affective relationship between humans, and between humans and the world, which evolve according to different modalities, equivalent in value, since in their diversity and plurality they are affections that are equally necessary for every individual:

– Friendship (philia), parenting (storge), or even the disinterested and unconditional affection for a simultaneously immanent and transcendent reality (agape) that, in this book, is manifested through the Love to the Earth.

According to the author, love to the Earth is also love for Life, whose vicissitudes, failures, glories, and individual frustrations do not overshadow its truth. Life is the Being in front of the Non-Being. It is Light amid darkness. It’s openness and company.

And if for each individual, existence, whether in its tragedy or in its benevolence, is nothing more than a fleeting moment that happens and becomes present only and only in this beautiful Planetary Dwelling Place,

How not to love its rarity and beauty? How not to be gratified by it?

«Feelings inhabit life, they are and exist in this place. A dwelling-place open to the other, to all the other, where, beyond the hatred and anger that close and blind, reside, permanently, in abundance, forgiveness, and love, and joy, and hope, as doors to the light, back to loneliness, that when they open up, show company, offer a way out, and reveal the way. Why fix your gaze within? Why not turn your head and see far? »  (from the book) 

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mata e malcata _notícias de ecofilmes

por Ilda Teresa Castro e Miguel Cortes Costa

24 setembro 2022

JEP

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Se há coisa que a pandemia reforçou, foi o imperativo da sustentabilidade ambiental. Assim, estive à conversa com Miguel Cortes Costa, numa sessão integrada nas Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema ‘Património Sustentável’ — que aqui reportei e divulguei no dia 22. 

Conversámos sobre o tema, num cruzamento com as suas motivações e experiência criativa, após a exibição dos filmes Mata: Quinta das Conchas e dos Lilases  | 5´26 | 2020 de Miguel Cortes Costa, curta-metragem que obteve uma Menção Honrosa no Festival Ecovideo Lisboa Natura 2020, e Malcata: conto de uma serra solitária | 40´ | 2020 de Miguel Cortes Costa e Ricardo Guerreiro  — filme vencedor do prémio Youth Television Award no festival Cine-Eco 2020 e distribuído pelo Instituto Camões.

Deixo uma parte da nossa conversa:

Antes de abordarmos os dois filmes desta noite, gostava de começar por algum enquadramento dos teus filmes e das tuas motivações e experiência criativa. Uma parte substantiva do teu trabalho audiovisual foca o mundo natural e a Natureza. Como é que aconteceu esse teu envolvimento neste domínio temático específico do território ambiental? Surgiu  na continuidade da tua formação em Biologia? 

Como qualquer criança nascida nos anos 90 (numa cidade pequena) tive a sorte de passar uma infância com relativa ligação ao campo. Quando me foi oferecida a primeira analógica aos 7 anos tentava fotografar as aves que passavam por cima do quintal, com o digital passei para o frenesim dos insetos que enchiam as laranjeiras, as roseiras e os jarros de vida. Parte da minha família está ligada ao Cinema, outra à Biologia, sendo o irmão mais novo, a junção foi óbvia – a biologia não veio antes do audiovisual nem o audiovisual veio antes da biologia. Durante os anos de formação na Faculdade de Ciências, interrompi o curso para dedicar um ano à fotografia – mas o video rapidamente chamou-me a atenção (como uma ferramenta mais interessante para contar histórias). Pouco depois de terminar o curso de Biologia vi-me numa produtora onde tive a oportunidade de adicionar mais uma camada à interpretação do território ambiental – o etnográfico. Filmei tribos nos Bijagós, a ecologia da planta do Cacau e a história da escravatura ligada ao chocolate – em São Tomé e Príncipe, Birmingham e Amazónia. Quando voltei para Portugal para filmar dois documentários, um em Montesinho e outro na Beira Baixa, percebi com mais certeza do que nunca que, se queria fazer filmes sobre o mundo natural em Portugal, não o podia dissociar da influência do ser humano no território. 

Concretamente sobre a sessão desta noite. Em 2020 realizaste a curta-metragem ´Mata: Quinta das Conchas e dos Lilases´ e co-realizaste o documentário ´Malcata: conto de uma serra solitária´, com Ricardo Guerreiro, descrito como “uma viagem que procura desvendar os últimos 600 milhões de anos da história de uma das regiões mais esquecidas de Portugal”. O que é que te moveu no caso concreto destes dois filmes? 

A Mata surgiu de uma vontade de regressar a este espaço verde, situado na urbe de Lisboa, depois de ter conhecido a Quinta das Conchas numa aula de Ecologia. A ideia era identificar com o acompanhamento de especialistas, uma série de plantas que podemos encontrar neste local e aprender os métodos de amostragem. A minha concentração logo se afastou dos termos científicos —  fiquei demasiado espantado com outro facto: como é que adentrando um par de metros por zonas de mato mais denso, rapidamente nos esquecemos que estamos em Lisboa, o som do dia a dia citadino fica em segundo plano, a temperatura baixa, e volto-me a sentir bem. Foi esta atracção que me fez ir duas manhãs até à Quinta, fazer as primeiras experiências de vídeo, e editar uma curta muito simples, que não pretende transmitir nada mais do que uma sensação, através de uma coleção de planos que se baseia nas plantas e, numa segunda parte, o mesmo local ocupado por outras formas de vida  —  onde o som, sempre de fundo, nos faz imaginar uma capital abafada pela Natureza.

Já a Malcata fez parte do trabalho de um ano para a Câmara Municipal de Penamacor. E por isso mesmo tem por necessidade uma componente lúdica e turística. Numa equipa muito pequena e familiar, onde a Carolina fez produção e o Ricardo a co-realização, acabamos por nos ver os 3 envolvidos numa descoberta de um espaço que à primeira vista, pouco nos tinha para dar. A Malcata vive da memória do Lince Ibérico, uma memória que leva 30 anos afastada daquele que foi o último reduto do felino mais ameaçado do mundo. A Reserva Natural é dominada por mato mediterrânico e monocultura de pinhal e eucalipto. Numa primeira visita, não nos transmite nada que possa suscitar um interesse imediato —  o facto da Serra da Malcata carecer de qualquer aspecto especial, de carecer de um interesse turístico que se destaque de outras reservas no país, é o que dá precisamente o charme à região. As histórias que fomos descobrindo sobre esta serra giram todos em torno do mesmo facto: o seu isolamento —  contam-se com os dedos das mãos a quantidade de pessoas que vive dentro da Reserva, é dos locais mais solitários do país, a escassez de meios de subsistência levou a uma vida dura: dedicada ao controlo da água e à exploração mineira. Por outro lado, é o seu isolamento que a tornou num dos últimos espaços para o lince, e num local propício para o contrabando. É assim que surge a ideia de fazer um documentário sem entrevistas, onde a Natureza e as ruínas tem uma participação conjunta, onde podemos imaginar histórias e ouvir sons de atividades que já não decorrem, onde um passado com milhões de anos se mistura com assuntos atuais —  é um passeio que não tem início e não tem fim. 

Na tua perspectiva, como é que o ecodocumentário pode contribuir para a Sustentabilidade Ecológica que tanta falta nos faz nestes tempos antropocénicos?

Acredito que o meio audiovisual seja a melhor ferramenta para chegar rapidamente ao coração das pessoas. Não que seja uma arte mais digna do que qualquer outra, ou de maior importância, trata-se de uma questão de rapidez (e escasseia-se o tempo) em transmitir uma mensagem longa. Um bom livro ou uma boa música tem uma forte influência em nós, um bom orador numa conferência também. Mas um filme pode viver de todas estas camadas com um impacto acrescido de acordo como uma determinada sequência é editada, adicionando ainda a influência que tem a sequência anterior e a seguinte. Adiciona-se a música ou o silêncio, as respirações ou as acelerações, o texto e a forma com o texto é lido —  a entoação de cada palavra. O Cinema é um excelente exemplo de como o total é mais do que a soma das partes. Poderia falar da Malcata e das particularidades incríveis que estão escondidas na serra, ou escrever sobre o tema —  mas nunca teria o mesmo impacto de uma experiência de 40 minutos numa sala escura em que podemos ser absorvidos por ambientes criados por um trabalho conjunto de vários profissionais que se juntam para formar uma peça que tenta transmitir uma ideia. Se chegarmos ao coração do público, se trouxermos um pouco do mundo rural e natural a uma sala numa grande cidade, talvez consigamos discutir temas que nunca foram discutidos —  podemos levar a que haja uma maior vontade em preservar aquilo que estamos a perder.

A sessão decorreu na Videoteca de Lisboa, no dia 23 setembro, com entrada livre, pelas 21h30.

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Miguel Cortes Costa licenciado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Cursou Fotografia Digital no Instituto Português de Fotografia. Voluntário no Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco. Como fotógrafo publicou na National Geographic Traveler (Itália). Operador de câmara em vários documentários de antropologia, cultura e Natureza na Europa, África e América do Sul. Produtor de set e diretor de promoção da curta-metragem “Terra Amarela” nomeada pela Academia Portuguesa de Cinema aos Prémios Sophia. Webdesigner no filme “The Plan” de Steve Sprung com estreia mundial no BFI London Film Festival. Elemento da equipa de Gernot Lercher, como biólogo e operador de câmara no documentário “Portugal – Europe’s Wild West”, distribuído na Arte, Österreichischer Rundfunk e Bavarian Broadcasting. Em 2020, viajou pelo país para um projecto de divulgação, a cargo da Sociedade Portuguesa de Ecologia, sobre os trabalhos da rede internacional LTER – Long Term Ecological Research. Encontra-se a realizar um documentário enquadrado no projecto “Mais Polinizadores, Mais Diversidade” que retrata os esforços para melhorar a comunidade de polinizadores na Quinta Marquês de Pombal, uma área fulcral na origem de Oeiras. Algum do seu trabalho está acessível aqui

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sem d_euses d_esses guardando-nos

por António Barros

11 abril 2022

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O arco temporal 2019_2022 desenha-se dentro de uma moldura pandémica, fatal universalidade geradora de tempos onde é distintiva a urgente reflexão activa sobre a defesa do planeta, da vida, da vida dentro de um planeta ameaçado.

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Esta pre_ocupação é identitária do meu percurso de escritas experienciáveis. E nesse sentido o desafio que me formulou Yoko Ono em “Water Event” [“O Jardim da aprendizagem da Liberdade”, MuseuSerralves, 2019] fez gerar um pedir. Pedir a Joan Brossa o alfabeto completo para que a sociedade, agora, e de novo com todas as letras, resgatasse a sua humanidade sendo nela, cada ser, um ser maior na defesa da água. 
 
Neste limbo, pandémico, onde o questionar logo vigora, criei o metafórico objecto_escultura_texto, poema visual: “_CEH” [o ninho de pássaro (d)enunciando gaiola do ser, sua escrita e leitura]. Aí estão ancoradas as três letras que Joan Brossa nos devolveu depois de estar cumprida a sua “Elegia a CHE” (aí onde Brossa, ao alfabeto, amputou as três letras do nome de Che Guevara). 
O objecto resulta assim como uma peça educativa, galvanizadora de plurais gestos no envolvente, e circulação
 
Comecei por ceder a peça a Yoko Ono que a instalou, com a água por ela doada em rito, no MuseuSerralves. Terminada essa operação seguiu o mágico objecto_texto, galvanizador, para o Museu da Água de Coimbra [“Mágoa_Water Event”, 2021], antes de terminar o seu percurso performático educativo na Fundació Joan Brossa, em Barcelona. 
 
Não me parece excessivo pensar que assim como a Catalunha_Espanha tem Joan Brossa, a Madeira_Portugal tem António Aragão. Talvez porque são dois autores íntimos contamin_antes do meu percurso e estudo. Das minhas artitudes muito na senda Fluxus. Com Wolf Vostell ao fundo. Outro autor, outro artor, com a sua arte, defensor da Água. Do Ambiente. Do Planeta. Vale visitar o Museo Vostell Malpartida, oásis onde muito me fiz gerar nessa plataforma da Arte_Natureza. Um Museu Lição; Sala de aula, espelho de água com Deleuze paLavrando oportuna definição.
 
Nesta pleiade conjuga-se aqui ainda uma cultura ambiental – da ecologia acústica ao meio ambiente sonoro que estudei com R. Murray Schafer – onde a palavra apela em gRitos plurais, e suportes diversos, entre múltiplos cais. Toda uma pretensa transversalidade de desígnios para além do contentor. Do lugar contentor constrangindo da cidade ao motor em Jochen Gerz. Rédeas a que a condicionante pandémica, ameaçadoramente proliferativa, se faz conjugar num cume degenerativo.
 
Assim a um contrariar, a um gerar dos seus contrários, se convoca o exist_ir enquanto, sem d_euses, se gere história, pois a história começou quando os homens inventaram os deuses e terminará quando os homens se transformarem em deuses (Yuval Noah Harari). Saber guardado em caixa negra. Tanto desse muro ameaça_dor. 
 
Guardando-nos.
 
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38 days in Mariupol

por Ilda Teresa Castro

4 de abril de 2022

 

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in full álbum requiem for Ukraine 

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this album is dedicated to all humans and animals and to the whole life beings and Nature victims of the crimes and atrocities that take place in Ukraine

 

_this is a tremendous sorrow and grief_but is also a scream of hope and an enormous salute to the extraordinary courage of Ukrainian women and men

_for girls and boys_for animals and Nature_for birds_for friends in Ukraine_for freedom and love_.

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Ilda Teresa de Castro is an ecologist, eco-artist and eco-art media researcher. As a musician she is the co-author of the Eco-Ópera Multimedia, Descartes Never Saw a Monkey, exhibited in Funchal (2017) and in Évora and Vinhais (2018), where she also plays electronics. She created music for its own eco-art works and installations since 2010 and edited the cd Ecceidade (2013). She participates in some cd´s : Les Femmes Experimentelles (2011), Ressoadores (2009) and Corte de Cabelo (2008). At the moment she develops musical projects in partnership with other musicians, namely Vitor Rua in Telectu and The Banksy’s. 

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o mundo

por Paulo Ansiães Monteiro

11 março 2022

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O mundo é o meu ventre e o ventre de minha mãe foi o meu primeiro mundo.
 
O ventre é o primeiro na série de contextos recipientes, não importa o que nos envolva:
um quarto, um espaço, um tempo, um relacionamento, um estado de espírito.
 
Não importa o que esteja em volta, quem quer que eu sinta ao meu redor, a minha atmosfera, as minhas circunstâncias, o meu ambiente, o Mundo.
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animalia vegetalia mineralia
 
célula
 
semente
 
o ovo
 
placenta
 
balão
 
bola
 
ventre
 
barriga
 
útero
 
berço
 
campânula
 
redoma
 
carapaça
 
arca
 
ninho
 
caverna
 
gruta
 
tenda 
 
cabana
 
casa
 
salão
 
palácio
 
domo
 
globo
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Digitalização 16

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Paulo Ansiães Monteiro, desenhador, nasceu em Barcelos mas vive no Porto. Estudou Direito em Coimbra 3 anos mas abandonou para fazer o Curso Superior de Desenho na ESAP com o mestre Sá Nogueira. Foi desenhador de roupa desportiva (Patrick) e lecionou desenho de Moda. Desenhou para livros, revistas e jornais. Editou Roupa Anterior, Livro-te, Errata, Palavrário. Mostrou desenho em colectivas e nas individuais Erradia (Sede), Palavrário (galeria do Sol), Palavódromo (Mira), Pintado de Frasco, Falhado de Fresco (Lote 67). Prepara Glossário de Neo-Lusismos. Faz do desenho uma forma moderna de feitiço. 

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o inaceitável

por Maria Marujo

3 março 2022

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AVMmarujo

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mesomorfomia, esta palavra não encontrada em dicionário, mas perante a qual todos nos prostramos sob pena de aberração.

e de palavras falo aqui. como falarei depois de situações, de emoções, terminando com o inaceitável.

começo então pela palavra covid – não fui confirmar se já existe em algum dicionário, até porque não lhe posso chamar, com toda a propriedade “palavra”, mas deixemo-la ser assim, uma palavra: covid.

ora, esta palavra faz-me pensar em outras palavras. a palavra convite. as palavras com vida, e se me remeter à minha condição de pessoa do norte e trocar-lhe o v pelo b, penso na palavra cabide que se revoltou no seu género e quis ser cobide.

covid faz-me também pensar em situações e emoções diversificadas: penso na ignorância social, vinda lá desde os remotos tempos do boato de boca em boca; penso nos lobies farmacêuticos e vejo-os até a esfregar as mãos, feitos velhacos gananciosos; penso no desespero dos que sofrem os seus mortos; penso na semi tranquilidade dos que sofrem de POC, por finalmente terem mais pares, no que à higienização e distanciamento diz respeito; penso nas noites perdidas de sono dos que agoniam; penso na comida que falta em tantas mesas; penso nas crianças e jovens que estão a construir-se numa adaptação de cada vez maior acesso à sua existência computacional; penso na moda, na nova regra de vestuário, no  preciso momento em que o homem em frente a mim, despe a sua máscara – apenas até ao limite do queixo – cada vez que quer dar um gole no café, mas também penso nas madames que têm mais um acessório para fazer pandam com a mala ou o sapato.

estamos todos em estado mesomorfómico e no meio de tudo isto que nos aconteceu, desde que a não palavra covid começou a fazer parte do nosso vocabulário, apenas uma coisa se tornou para mim, absolutamente inaceitável: a proibição do ABRAÇO. Agora as mãos fecham-se em punhos ou fazem-se cotovelos. tenho por hábito perdoar tudo às palavras, pois delas é feito também o meu ar, mas à palavra covid não perdoo o inaceitável. cá eu, se não me fugirem, continuo a abraçar.

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Maria Marujo, transmontana de origem. 50 anos. Contadora de estórias, autora, professora, artista plástica e artesã. Filha, irmã, amiga, amante. Sem fronteiras no pensar e no existir. Autora de o ouro lado, 2001 (conto), vesus uni, 2002 (conto), nós de pontas soltas, 2010 (prosa poética), adeus, 2013 (romance), prosas e traços aos gritos e aos abraços, 2021 (prosa poética ilustrada). Exposições: desencontro, 2019 (Museu Armindo Teixeira Lopes), era uma vez…, 2020 (Pinguim Café), rostos d’água, 2020 (Bar Cibinho). Performance: I’m beatifull, 2021 (Livraria Gato Vadio).

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ANIMALIA VEGETALIA MINERALIA está solidária com todas as vítimas da invasão de Putin na Ucrânia e refuta a Guerra !

ucrania

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nos BASTA_e_DORES  

por António Barros

26 fevereiro 2022

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tinha terminado o dia 22 _ 2 _ 22.  e _ logo a 3´gu ERRA mundial começou 

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António Barros, nos desígnios de uma arte de acção procura conjugar os binómios : palavra_imagem e arte_educação. Intervenções sociais na senda do movimento artístico internacional Fluxus, conjugadas com Robert Filliou, Serge III Oldenbourg, Joseph Beuys, Wolf Vostell e Yoko Ono, e na Literatura Experimental, com Joan brossa, Augusto de Campos, Ana Hatherly, Salette Tavares, Ernesto de Melo e Castro, e com os fundadores da Poesia Experimental portuguesa: António Aragão e Herberto Helder.

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sobre a experiência de viver em tempo de CoVid19

por Luís Brilhante

21 fevereiro 2022

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Sobre a experiência de viver em tempo de CoVid19, partilho duas experiências que foram uma novidade no meu processo criativo e como profissional da educação. Nesta última, havia a consciência de que se aproximavam novos tempos, acompanhados por grandes desafios. Ou seja, as coisas não iriam estagnar, o contacto e as actividades com os alunos iriam ter um novo formato e sobretudo um árduo processo de adaptação. Aproximadamente uma semana e meia após o encerramento das escolas e estar implantado o primeiro confinamento, tinha elaborado novas planificações adaptadas ao ensino à distância e tudo estava pronto para arrancar. E assim, prosseguiram as aulas com todas as particularidades técnicas a serem resolvidas pontualmente numa primeira fase. Devo acrescentar que todo este processo foi extremamente complexo e difícil de ser aplicado, embora assuma que foi um desafio extremamente importante para mim e também para os alunos, com um balanço francamente positivo.

Paralelamente, desenvolvi um projeto no âmbito da minha atividade como artista plástico, que está patente na Galeria Monumental, em Lisboa, até 26 de fevereiro e se intitula Ilhas vistas do mar parecem pinturas.

O corpo de trabalho dispõe-se de forma descontínua — são desenhos e pinturas que subsistem pela sua narrativa plástica individual. A temática, se se pode aplicar este termo, espraia-se por formatos que variam entre o retangular e o quadrado e acolhem uma vastíssima gama cromática, pela via do gesto/caligrafias e também por um constante acontecer de acidentes que, ora são mostrados, ora cobertos por outras tantas cores e acontecimentos. 

Quer nas pinturas, quer nos desenhos, as manchas, os traços caligráficos escuros e coloridos são ambíguos quanto ao que retratam, se de facto retratam alguma coisa. Os gradientes desaparecem nas mais variadas direções e uma nova faceta ilusionista emerge com a representação de aberturas, de ocultações e ausências, transformando o espaço pictórico numa longa caminhada do olhar e da descoberta. A ilusão serve para complicar a leitura da obra. Usei marcas quase sem peso físico para aplicar escorrimentos de tinta, salpicos, aguadas. Ora transparentes, ora completamente opacas. Há um fortalecimento gradual nesta suposta leveza, uma vez que a “realidade” pintada e desenhada se exime de representar sombras e volumes, é a aproximação do olhar a questões processuais. 

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A exposição apresenta uma produção variada, desenvolvida nos meus dois ateliers, em Ponta Delgada e Lisboa. Inclui um tríptico, como uma porta pictórica, densamente povoado por uma textura de tinta a óleo.

A minha aposta na variedade problematiza as imagens, negando a compreensão das peças, como se de um sonho se tratasse. A ausência de uma estrutura funcional concorre com aquilo que é insistentemente transportado para um primeiro plano de leitura — a atmosfera, ou, se o desejarmos, a paisagem. Diz-se que o fluxo das cores e da ampla gama de claros/escuros, atravessa as superfícies num movimento de fuga, dando às pinturas e aos desenhos um ritmo temporal, como se o processo de leitura fosse de certa maneira retratado nos gradientes e acidentes deixados à superfície da tela e do papel.

Ilhas vistas do mar parecem pinturas – porque ilhas vistas de longe só podem ser imaginadas como são na realidade, compostas. Pessoa, que não era pintor, já as desenhava e desejava assim:  Não sei se é sonho, se realidade, / Se uma mistura de sonho e vida, / Aquela terra de suavidade / Que na ilha extrema do Sul se olvida.

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Luís Brilhante, nasceu em Ponta Delgada, Açores, em 1968. Tem apresentado o seu trabalho no contexto nacional e internacional destacando-se a sua presença nas exposições individuais e coletivas: Game on! (Galeria Cesar/Filomena Soares, 2001), Lisboa. Processo, (Quadrum Galeria de Arte2003) Lisboa. (Artcore Gallery, Toronto – Canada.) Espaços de concentração, Figuras sopradas, Polaridades, Variações de um osso para cão e Ilhas vistas do mar parecem pinturas. (Galeria Monumental, 2004 a 2021), Metamorfoses de um vazio, Sala do Forno, CM de Ponta Delgada – Açores. 2019, Galeria Apteka Sztuki, Varsóvia. Está representado em Coleções públicas e privadas -Câmara Municipal de Ponta Delgada -Presidência do Governo Regional dos Açores -Fundação PLMJ -Fundação Carmona e Costa -Centro Cultural da Caloura -Galeria Filomena Soares -Galeria Monumental -Diversas coleções privadas em Portugal e no estrangeiro. www.luisbrilhante.com

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viver o Belo Natural_a experiência sensível do Bem

por Teresa Martins

28 janeiro 2022

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varandas pq

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Com alegria infantil, percorremos rotas pedestres sulcando o coração e as bermas da paisagem. Trilhos de terra e de cascalho. Troços a rasgarem bosques e escarpas agrestes. Monumental, poderosa e admirável beleza!

Atravessámos ribeiros de sons cristalinos em corrente graciosa sob as ramadas da folhagem, saltitantes por desníveis e pelas pedras do caminho.

Ouvimos trinados e gorjeios de passaritos. O zunir da mosquitada, cegarregas, grilos e libélulas. Na ponta dos ramos. No mato dourado. No verde da árvore.

Escutámos os murmúrios das árvores à serena carícia da brisa. PSSSSSSSsssssss Provámos os frutos da terra, perfumados. Doces.

Venerámos o silêncio dos lagos sem gente, ampliado pelo grasnar dos patos, e pela zoada das abelhas à volta das flores silvestres. Amarelas. Vermelhas. Azuis.

Aventurámo-nos por vertiginosos desfiladeiros de rochedo abrupto, feroz. Os sorvos de água a precipitarem-se no abismo, em cascatas borbulhantes, e espraiando-se com langor, ao fundo, no tocar do solo. Banhos de júbilo e deleite, e risos a ecoarem nas pedras.

Embrenhámo-nos por trechos selvagens do rio, exultantes de verde e fervilhantes de vida. Livre.

Molhámos os pés no lugar onde a corrente se apresentava mansa, ribeirinha e de delicada beleza. Transparente.

Passeámos em parques naturais de cerrados bosques e vales amenos, sob um Sol resplandecente, requebrado pela sombra dos pinheiros e dos carvalhos. Generosa. Mansa.

Ah o gozo de ser! Plenamente. Sensivelmente.

Aromas, cores, águas, rochas, vegetação, aves. Fruímos desinteressada e vividamente a paisagem, no puro regalo do espírito e do corpo, nutrindo os nossos corações, os nossos sentimentos, o nosso ânimo, as nossas emoções, os nossos pulmões, o nosso sangue, com o bem que se sentia e que persistia em toda aquela bela natureza.

Sim. Sentimos,
O Eu e o Mundo unidos no Encontro. Estético. Vital.

Sim. Sentimos,
A Presença da Beleza, da Liberdade e do Bem. Sim, sentimo-nos. Ligados.

(excerto adaptado do livro Morada de Passagem)

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Teresa Martins é doutorada em Filosofia da Natureza e afiliada à Universidade de Lisboa. É autora de obras e artigos na sua área de especialização.

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nota de editora (21 janeiro 2022):

lembram aquele tempo em que tudo parou e chegámos a pensar na possibilidade de mudanças estruturais muito, mas muito, p´ralém do acordado no Pacto Climático de Glasgow em 2021. 

não se ouviam carros, aviões, navios de cruzeiro ou motociclos.

apenas se ouviam os pássaros, os gatos e os cães.

e por vezes, não se ouvia nada.

recordam?

aquela ausência de ruído.

e a preponderante quietude, nos céus, nas terras e nos mares.

… esta proposta da Ana aporta-me esse tempo…

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suspende

por Ana Gonçalves

21 janeiro 2022

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ana2021

imagem: sem título, 2021

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suspende

suspende as tuas crenças

suspende as tuas conclusões

suspende os teus garfos

e as tuas facas

suspende as tuas construções

e as tuas ruínas

suspende-te a ti mesmo

ama

vive

mantém-te

em suspensão

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Ana Gonçalvesnasceu em 1976, em Oeiras. Licenciou-se em Pintura em 2001 e realizou uma Pós-Graduação em Curadoria e Organização de Exposições de Arte Contemporânea em 2002. Foi colaboradora do serviço educativo da Fundação Gulbenkian, da Culturgest e do Atelier Museu Júlio Pomar. Foi também assistente na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e formadora no Nextart, onde ensinou Desenho, Pintura e História de Arte. Na sua prática artística (multidisciplinar) privilegia o desenho, a pintura e o trabalho com imagens encontradas, tendo recentemente iniciado estudos na área do cinema documental no núcleo Kino-doc, em Lisboa.

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sem título 

texto Carlos Andrade_imagem Ana Gonçalves

10 janeiro 2022

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Quando ia a entrar na cozinha vi mais um, desta vez pelo canto do olho direito. Correu através do ladrilho até à entrada do armário dos frascos e aí desapareceu. Eu fiz de conta que nada tinha visto, porque desta vez era rápido demais e não valia a pena assustá-lo. Já na cozinha, tirei um latte e falei sozinho, porque ele não é pessoa, provavelmente nem indivíduo. 

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Ana Gonçalves_Da série Tu és uma combinação de todos os lugares possíveis em que podes estar até olharmos para ti, 2021

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O que eu disse, sozinho, foi: 

“… Nestas condições, é fácil prever o que ia acontecer, claro. De uma forma mais ou menos embaraçada consigo mesma mas, na hora da verdade, com embaraço zero, a nação europeia transforma a região numa colónia e estando o modo de produção capitalista a bombar, trata de explorar os recursos, até hoje. Os dominados são objectos que mexem e devem cumprir as ordens dos dominadores. Não há moral que valha a todos. A moral aplica-se entre os dominadores. Aos dominados faz-se o que se quiser. Enraba-se, queima-se, chicoteia-se, atira-se azeite a ferver para cima. 

Há também grupos que protegem, alimentam os pobrezinhos, ensinam-nos a fazer contas, etc. Como disse, aos dominados faz-se o que se quiser.” 

Sentei-me e bebi o latte, com três bolachas de chocolate que se foram gradualmente transformando em cinco. Olhei para a esquerda, sem qualquer razão, e dei com a Surya, a mãe de todas as razões, sentadinha com olhos de anjo, como a mais bem comportada das alunas à porta da cozinha, patinhas postas, que saudou o meu olhar com um “Au” inocente, em voz de adolescente. 

Tropeçando nas pernas da cadeira (que foi desenhada por Adolf Stefanssohn, arquitecto sado- masoquista que quis conceber a cadeira mais destrutiva possível da pessoa, através de um efeito subtil de escape das pernas para o exterior da projecção do assento, ou seja, vista de cima, a cadeira mostra as pontas das quatro perninhas a espreitar debaixo do dito assento, o que faz com que os dedos dos pés embatam todo o tempo nas pernas da cadeira; e também o esmaga-polegares, que é um intervalo flutuante entre o tampo e a parte debaixo deste, o que faz com que, quando se puxa a cadeira para a frente, se se tem o azar de meter os dedos nesse intervalo, fica-se com eles esborrachados ao sentar), 

enchi duas tacinhas de bolinhas renais que musicalmente transportei para a entrada, aonde a Surya saltitava e fazia “Au, Au, Au!” e veio a Pietra, serena e rápida, e ambas crocaram felizes. Dele, nem um sinal.
Dirigi-me ao computador e pus o Ferrari F40 no Youtube. Gosto do som de motores sobre o fundo anecóico de silêncio total. 

Dia 18 

Hoje um padre passeou numa carrinha de caixa aberta pelas ruas lá embaixo. 

Foi assim: Estava eu a ler, ouvi canções Marianas amplificadas por megafone; fui à varanda. O que vi, primeiro, foram os outros, nas suas varandas, curiosos como eu. Olhávamos uns para os outros de longe, que eu tenho a sorte de ter vistas amplas de um 8º andar. Por baixo de mim estava o vizinho surdo, o que dá uma ideia do volume a que o megafone cantava Avé Marias. E aproximava-se. Às tantas aparece a carrinha, ao dobrar uma esquina. Não se via o condutor. Na caixa, ia uma estátua da Nossa Senhora bem grande, branca, de mãos em oração, e por trás da estátua o padre, segurando um megafone e cantando. Cantava os louvores à Mãe de Deus e de vez em quando, entre canções, falava connosco, com os vizinhos. Dizia “coragem!” “força, Deus está convosco!”. A Ana começou a chorar, eu também mas para dentro. Todos aplaudiam. O padre cantava e acenava, a carrinha era o único veículo na rua a deslocar-se, e todos nas varandas, aplaudíamos e chorávamos a morte do mundo. Mas chorávamos juntos e éramos todos por todos, naquele momento. 

Dia 18 

Andorinhas a voar, são santas no seu cantar extasiado. Saúdam o sol e a vida. Desenham arcos velozes pelos ares e planam misteriosamente. Como é possível voarem assim, e darem aquelas curvas tão súbitas e apertadas? Brincam umas com as outras, num transe místico e sublime. E nós, trazendo para cá contentores de turistas gordos e suados, tiramos as condições às andorinhas, belíssimos e delicados seres, tiramos-lhes o local de repouso, e elas vêm da África do Sul e já não podem descansar aqui em Lisboa e arredores, e desapareceram, deixei de ver as minhas queridas andorinhas. 

Mas hoje vejo duas, três, cinco nos ares, e delicio-me a segui-las com o olhar, na varanda. Talvez haja um lado bom no confinamento. Também ouvi falar em golfinhos no Tejo, mas, embora tenha uma vista belíssima do rio daqui, não tenho telescópio. 

(E se tivesse telescópio de qualquer forma não o poderia montar na varanda porque senão a romena do 5o andar do outro lado da rua que fuma um cigarro às 7 da manhã à janela ia desconfiar.) 

Dia 18 

Mas tenho que tomar o remédio. De 3 em 3 semanas, tenho que ir a Santa Maria fazer a infusão. Faltei uma vez — isso era permitido — mas segunda vez, estava fora de questão.

Telefonaram do Centro de Investigação Clínica e disseram-me que abriram um trajecto no hospital em que não encontrarei ninguém, apenas é um trajecto um pouco complicado. Escrevi-o num papel que tinha já uns bonecos grotescos escrevinhados, mas não tive paciência de esticar o braço para tirar uma folha virgem da gaveta. O que escrevi foi: 

Entrada princ
esq
sempr frente 2a esq
pr elevad diret 11 elevador 11 subir 6o and saio dir 

1a porta dir viro logo esq sempremfr
subir 1 andr porta dir 

CIC ok 

No dia seguinte levantei-me às 5, tomei o pequeno almoço e eles, aqueles sombrios, correram outra vez à minha direita, e o café era bom, bom. Como não se sabia nada ainda, pus máscara, viseira e luvas. Era a primeira vez que saía desde o início da pandemia. Bem tentava estar calmo, mas o café mexe os nervos. Chamei o táxi. Passado este tempo todo estava quase sem andar, sentia-me fraco, frágil. Desci pelo elevador, ninguém. Ninguém à porta do prédio, apenas o taxi à minha espera na rua. Já raia o sol, está frio, muito frio. Na mão esquerda segurava freneticamente o papel com as instruções para chegar ao CIC. Não me sentia capaz de o pôr na carteira, podia perdê-lo. E assim, perder-me. Aquele papel em quadrícula, todo esfrangalhado, tremia na minha mão e era eu. 

Ao entrar no táxi cumprimentei o taxista, também de viseira e máscara. Quando lhe dei a indicação do HSM, olhou para a frente como quem mergulha em ácido sulfúrico. Arrancou, não trocamos palavra todo o trajecto. A rádio emitia anúncios absurdos, obsoletos. O modo de produção ainda não se adaptou. O marketing nestas circunstâncias era absurdo, enervante. Se calhar, para o condutor era um sossego ouvir anúncios de cortinas e formações em informática. 

Não havia trânsito senão táxis e dois carros da polícia. Nada nas ruas, ninguém. Incrível. A cidade está vazia. E eu nesta corda bamba, que preciso da infusão para viver. RNA interferencial no meio de COVID-19, como é que a minha vida se complicou de tal forma? Como é que tanto se alterou, dentro e fora de mim? O que é que permanece, se estou inclusivamente cheio de anti-depressivos? A pele? Tudo mudou radicalmente, é uma fenomenologia selvagem. Onde é que fico? 

Chegamos. O táxi vira e entramos no recinto do hospital. Chegados à entrada principal, pago (com cuidado para não deixar cair o papel), a nota cai na palma aberta do homem, as moedas caem na minha, cumprimentamo-nos e saio do carro. 

Não há absolutamente ninguém, nem seguranças à porta. Ficou combinado que absolutamente ninguém estaria no trajecto em questão àquela hora. E assim entrei no hospital vazio, já cansado, tremendo, com uma mão a apertar a bexiga. Andar foi difícil. 

Quando virei à esquerda a primeira vez, o corredor assustou de infindo que era. Ia chocando contra a parede direita, mal conseguia respirar. A viseira, claro, embaciara, e eu apenas via vagamente o que tinha à frente, que era ninguém, e pedra, estantes com alambiques e frascos antigos, casas de banho vazias, refeitório vazio, uma máquina de chocolates e afins, alegre e reluzente. Subi as escadas, fui a direito e tinha o Centro de Investigação Clínica à minha frente. Bati à porta. Até aqui não tinha tido nenhum ataque, o que era muito bom, porque o meu medo era perder-me naquele caminho complexo. Mas o que não esperava era a atitude da enfermeira. Abriu a porta, sussurrou “bom dia” e estava de máscara branca, e os olhos é que me fizeram descontrolar, porque a preocupação naqueles olhos, para não dizer o pânico naquelas sobrancelhas carregadas, foram suficientes para eu pedir para ir à casa de banho para tentar não ter o ataque. 

Não consegui, acabei no chão a tremer e a contorcer-me de dor, a tentar não gemer para ninguém ouvir (esquecendo-me que estava num hospital mas tinha medo que ao me verem assim me quisessem internar). Entretanto, a viseira toda torta, já tinha posto as mãos no chão da casa de banho. O que vale é que o CIC é local mais asséptico do Hospital. De seguida, a enfermeira mascarada enfiou-me a agulha no braço e começou a moca anti-histamínica e a infusão do ALk0900897i durante um total de uma hora e meia. Desta vez, tiraram-me 11 pipetas de sangue. 

Dia 18 

Hoje hoje hoje
quê quê quê
que que uuuuuu
uuuuuuuuuuuu
A Surya corre atrás dele, a Pietra majestosa esfinge contempla o Bugio. E 

eu eu euuuuuuuuuuuuu

Ana Gonçalves_Da série Tu és uma combinação de todos os lugares possíveis em que podes estar até olharmos para ti, 2021

imagem: fotomontagem da série “tu és uma combinação de todos os lugares possíveis onde podes estar até olharmos para ti”, 2021

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Carlos Andrade, nasceu em 1970, em Lisboa. Licenciou-se em Matemática Aplicada e Computação pelo IST em 1994 e doutorou-se em Ciências da Motricidade (especialidade Análise Matemática) na FMH em 2001. Estudou composição com Vítor Rua. Amante de música, história e literatura, colaborou em vários projectos musicais (Kromleqs, Presidente Drogado, Bernardo Devlin). Concebeu música para coreografias da autoria do bailarino Pedro Ramos (e.g. Coniunctio, Culturgest, 2017). Compôs diversas obras (música, literatura, performance) não publicadas nem interpretadas. No seu dia-a-dia dedica-se à leitura, à escuta musical e, mais recentemente, ao estudo da Filosofia e das línguas clássicas (Grego e Latim).

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Ana Gonçalvesnasceu em 1976, em Oeiras. Licenciou-se em Pintura em 2001 e realizou uma Pós-Graduação em Curadoria e Organização de Exposições de Arte Contemporânea em 2002. Foi colaboradora do serviço educativo da Fundação Gulbenkian, da Culturgest e do Atelier Museu Júlio Pomar. Foi também assistente na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e formadora no Nextart, onde ensinou Desenho, Pintura e História de Arte. Na sua prática artística (multidisciplinar) privilegia o desenho, a pintura e o trabalho com imagens encontradas, tendo recentemente iniciado estudos na área do cinema documental no núcleo Kino-doc, em Lisboa.

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sombras

por Lourdes Castro

8 janeiro 2022

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Lourdes Castro_ nasceu em 9 dezembro 1930, no Funchal e faleceu hoje, 8 janeiro 2022, também no Funchal. É uma das mais importantes artistas plásticas portuguesas. Foi uma das criadoras da revista KWY (1958-1963) _ o título Ka Vamos Yndo, surge como referência à situação existencial, social e política vivida na época. A sua forte ligação à Natureza está também patente na abordagem do mundo vegetal que apresenta em diversos trabalhos em que explora a Sombra, conceito crucial na sua obra a partir de 1961 e que a artista aplica a universos distintos mas convergentes na evocação e registo do corpo, do tempo e da memória.

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Esta edição é temática sobre a experiência de viver em pandemia que é também tempo de pensar a urgência antropogénica. Este número 2022 prossegue os propósitos do número 2020-2021 iniciado em abril de 2020. 
 
This edition is thematic on the experience of living in pandemic, which is also time to think about the anthropocene urgency. This 2022 issue pursues the purposes of the 2020-2021 issue started in april 2020.

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